segunda-feira, 9 de março de 2009

São Vicente, a polémica

Não é de agora a polémica em título. Em boa verdade, tem mais de 800 anos e há muito que estaria esquecida, não fosse pelos documentos... e por quem a eles se dedica, como o faz Pedro Picoito no artigo A Trasladação de S. Vicente.
Consenso e Conflito na Lisboa do século XII
, publicado no nº 4 da revista Medievalista.

Uma vez mais uma leitura atenta, numa nova perspectiva, revela "surpresas".
Os lisboetas, moçárabes, antes hispano-romanos, depois da dominação de árabes e visigodos, conhecem um novo dominador. É Portugal que chega... (parece publicidade a um novo livro, é bem verdade que daria um dos bons).

A Medievalista é publicada pelo Instituto de Estudos Medievais, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, sob a direcção de José Mattoso. O artigo que referimos não é, obviamente, o único a merecer atenção.

terça-feira, 3 de março de 2009

São Vicente, Lisboa e Valência

Foi em 2006 que aqui publiquei uma curta referência sobre a(s) lenda(s) de S. Vicente, após ter visitado a agradabilíssima cidade de Valência (Espanha). Já naquela ocasião surgiram comentários oportunos (sublinhando por exemplo a incompreensível falta de "aproveitamento" a vários níveis, em Lisboa, relativamente a São Vicente). Há dias poucos dias atrás, porém, recebi este outro, de manifesto interesse:

La Asociación VIA VICENTIUS VALENTIAE , que presido , está recuperando un camino histórico de Roda de Isábena a Valencia que rememora los pasos de San Vicente Mártir , patrón de Lisboa y Valencia, cuando en el siglo IV fue apresado en Zaragoza junto al Obispo Valero por los soldados romanos enviados por el Cónsul Daciano y trasladado a Valencia para sufrir martirio ante la negativa a renunciar a su fe. Así la difusión del conocimiento de este hecho provocó en los siglos siguientes una corriente de peregrinaciones desde toda Europa hasta Valencia para visitar los restos del mártir en San Vicente de la Roqueta , convirtiéndose este fenómeno en algo muy anterior a las peregrinaciones medievales a Santiago de Compostela.

Todos los detalles del Camino de San Vicente Mártir, que discurre desde Roda de Isábena, hasta Traiguera, donde enlaza con la antigua Via Augusta hasta llegar a Valencia en un camino de unos 750 km , y multitud de aspectos históricos y leyendas del santo pueden consultarse en las webs que la asociación ha creado en Internet: http://www.caminodesanvicentemartir.es y http://viavicentius.blogspot.com. En ellas, junto a la información práctica como mapas y perfiles de la ruta, el peregrino puede acceder a consejos para caminantes, un foro especializado y abundantes datos sobre la biografía de San Vicente Mártir y el arte o la arquitectura dedicados al Santo, además de consultar la Carta Vicentina y el Libro de Peregrinos, e incluso obtener la Credencial Vicentina. Asimismo realizamos reportajes , videos y artículos que pretenden difundir la historia del santo. Se insiste particularmente en la idea de que este es un gran proyecto de recuperación histórica que queda al servicio de la sociedad con aspectos tan maravillosos como son las peregrinaciones ,el senderismo , el cicloturismo y la recuperación del tránsito por pueblos olvidados y de la misma Via Augusta como parte de su trayecto. Quedo a vuestra más absoluta disposición para aportar nuestro granito de arena en el conocimiento de nuestra historia . Un saludo afectuoso.
Salvador Raga Navarro PRESIDENTE Asociación VIA VICENTIUS VALENTIAE - VIA ROMANA

http://www.caminodesanvicentemartir.es
http://viavicentius.blogspot.com/

É de referir que não naqueles espaços vizinhos não faltam referências ao "vicentismo" da nossa cidade!

domingo, 1 de março de 2009

Time Out

Nasceu há 40 anos como pequeno guia da vida cultural da cidade de Londres. Hoje, para além de dezenas de guias para o turista, é revista com versões para 24 outras cidades do Mundo, entre as quais Lisboa. O formato é importado, bem como o nome, mas vem ganhando leitores assíduos. Já sou um deles.
Há questões de gosto, mas pelo menos em termos de informação sobre a vida cultural e de lazer da cidade de Lisboa, penso que é uma publicação que já fazia falta a cidade. Falo da Time Out Lisboa, revista semanal que na sua versão online ("beta") apregoa assim: "Descubra o que fazer em Lisboa. Incluindo Teatro, Cinema, Arte, Musica, Desporto, Festivais, Atracções, Restaurantes, Bares e Discotecas".

sábado, 28 de fevereiro de 2009

O DL recomenda: Museu José Malhoa

Não fica em Lisboa, mas está a um "salto". Reabriu em Dezembro de 2008, renovado e com novo espólio. Vale bem a pena visitar o "novo" Museu José Malhoa, nas Caldas da Rainha.
Bravo!

O DL recomenda: Museu de História Natural

Visitei, gostei:



Encontrarão mais informações no sítio do Museu de História Natural. Não esquecer os Museus ali alojados e o Jardim Botânico, a não falhar na visita (como não falhei). Quando por lá estiver, entre vegetação exótica, verdes recantos... não se esqueça onde verdadeiramente está - em plena cidade!
É património que merece o melhor apoio - o do público.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Restelo

Torre de Belém... ou Baluarte do Restelo


É graças à minha filiação "clubística" que nutro especial carinho por esta zona da cidade (embora nunca lá tenha vivido), ao estudo da qual já dediquei algumas linhas, noutro espaço.

Qual é a origem do nome? E afinal, o que é o Restelo? Será descabida esta última questão?

Desde há várias décadas que o Restelo é reconhecido – pelo menos aos olhos do cidadão “comum” – como sendo a zona a Norte e Oeste de Belém, ocupada maioritariamente por vivendas e condomínios, e por isso tida como “nobre” ou de “luxo” (actual ou datado). O Estádio do meu Belenenses, baptizado “do Restelo”, acaba por demarcar o extremo a sudoeste dessa zona. Abaixo e para nascente, seguindo a Rua de Belém, ninguém duvida que está Belém, frente ao Tejo, sobre antiga praia.
No fundo, a criação da Freguesia de São Francisco Xavier veio dar mais algum sentido a esta separação.

No entanto, se olharmos para a história – para a origem – nem tudo é assim tão claro. Que o nome de Belém se deve à invocação de Santa Maria de Belém, no e pelo Mosteiro dos Jerónimos, bem como pelo templo Henriquino que o precedeu, é facto que não merece muitas dúvidas. Mas, que a própria zona do actual Mosteiro, frente ao rio, era conhecida como “praia do Restelo”, também é facto, também antigo e bem documentado (entre outros, pelo grande Fernão Lopes).
Temos então que, se o Restelo e Belém não são afinal a mesma coisa, pelo menos Belém acabou por ser uma parte do Restelo que ganhou nome e fama próprios.
Se atendermos à hipótese mais conhecida e consensual quanto à origem daquela toponímia, faz-se um pouco mais de luz sobre esta “transição”.

Em página da Paróquia de Santa Maria de Belém podemos ler que:

“Em meados do século XV, o Infante D. Henrique mandou ampliar uma pequena ermida que tinha sido fundada, na zona do Restelo, junto ao Tejo, sob a invocação de Nossa Senhora da Estrela, protectora dos navegantes. Enriquecendo o sentido da primeira invocação, o Infante dedicou a nova Igreja a Santa Maria de Belém.”

Assim se entende a ligação com a história da Natividade de Jesus Cristo, por intermédio da Estrela, a dos Reis Magos, mas também de Maria, mãe de Jesus, ela própria Estrela dos Mares, guia e protectora dos navegantes. Estes nomes e símbolos têm sido objecto de interpretação de várias correntes e “ciências”, ditas da “mística”, do “oculto”, na convicção de que escondem significados só acessíveis a uns. Sendo de interesse, são áreas do conhecimento que não domino minimamente – sobre as quais não posso elaborar muito, portanto.

Mas, no site da Agência Ecclesia, da Igreja Católica Portuguesa, encontramos mais elementos de interesse para a nossa questão:

“O nome deste lugar [Restelo], um povoado modesto mas estrategicamente vocacionado para (ante)porto de Lisboa, confunde-se com o desse primitivo santuário dedicado a Nossa Senhora da Estrela.

A interpretação mística é directa: Nossa Senhora era a luz para os navegantes que desejavam entrar sem perigo na barra de Lisboa; a Estrela evocava o misterioso astro que conduziu os Magos. E quando o Infante D. Henrique mandou edificar no Restelo essa igreja dedicada a Nossa Senhora de Belém, não foi o local do nascimento de Cristo que quis evocar – o presépio aonde acorreram os pastores e os anjos deram glória a Deus – mas antes o ponto de encontro das gentes com Cristo, Sacerdote, Profeta e Rei, para o qual se dirigiram aquelas três personagens míticas e ofereceram ouro, incenso e mirra.”

Esquecendo propositadamente as outras questões, encontramos agora e finalmente uma justificação, geralmente aceite, para o nome “Restelo”: surgiu por corrupção de Estrela (ou de “SenhoRa-Estrela”). Bem próxima anda outra hipótese, muito semelhante (por conotações marinheiras mas também espirituais), pela qual a origem se deve à palavra “Setestrelo”, que se refere à constelação da Ursa Maior, muito importante para quem queira encontrar a Estrela do Norte, guia dos navegantes (isto no Hemisfério Norte, obviamente).


Estádio do Restelo... casa d'Os Belenenses

Ninguém ou mesmo nada sou para pôr em causa aquela primeira hipótese (“Senhora da Estrela”), que é em quase todos os seus aspectos bem plausível e “encaixa” perfeitamente numa miríade de sentidos, mais claros ou mais obscuros. No entanto, creio que encontrei (ou redescobri?) uma alternativa, no mínimo, muito interessante.

A alternativa em questão pouco ou nada remete para o religioso ou espiritual, nem tão-pouco para as obras régias. Fica bem, isso sim, ao lado de uma Junqueira ou de Pedrouços, topónimos de fácil e óbvia interpretação. Por outro lado, a suposição de corrupção de uma outra palavra, ainda que possa ser também antiga (embora não tanto como a lenda de Ulisses em Lisboa), é algo que merece algumas reservas, sobretudo tratando-se de nomenclatura religiosa (será assim tão aceitável, passar de “Senhora da Estrela” para “Restelo”?).

Porque se dizia e escrevia “Rastelo” ou “Rastello”, palavra essa que tinha (e tem) outro significado em português… e que sobrevive, precisamente, na palavra “restelo”?

Vejamos o que nos diz este texto, sobre os famosos “12 trabalhos” do linho (Museu da Agricultura de Fermentões):

“(…) [sobre o acto de] assedar: depois de limpas as impurezas as fibras são separadas por cumprimentos e espessuras. As mais longas e finas formam o linho, as mais curtas e grosseiras, a estopa. Para isso usam-se os sedeiros, instrumentos com dentes de aço finos e serrados, nos quais se passam as estrigas de linho. A estopa que fica, antes de ser fiada tem que se submeter a outra operação. Em manadas a estopa é passada no restelo, uma espécie de pente largo de madeira com dentes de aço grandes e pontiagudos. Depois de ‘penteada’ a estopa está pronta a ser fiada.”

E agora, o que nos diz o dicionário Priberam:

Restelo: rastelo; azeitonas caídas no chão antes de varejadas, ou espalhadas por descuido dos ranchos [possível mas improvável, no nosso caso].
Rastelo: fieira de dentes de ferro por onde se passa o linho para se lhe tirar a estopa; grade com dentes de pau, para aplanar a terra lavrada;
Da mesma maneira existem os verbos “restelar” ou “rastelar”, cujo acto por sua vez dá origem ao substantivo “restelo” ou “rastelo”.

Note-se que, no Brasil, a palavra “restelo” surge muitas vezes associada ao significado acima referido para “rastelo”, como utensílio agrícola ou de jardinagem. Aliás, não é invulgar que o camoniano “Velho do Restelo” passe, ainda que só por sugestão… por jardineiro.

Ainda na área do português, ou melhor, do galego-português, encontramos também matéria interessante. Os significados que encontramos no português, relativos ao trabalho do linho, encontramo-los também no galego actual, em palavras semelhantes: “rastrelo” ou “restrelo”. Variações que, curiosa e precisamente, também chegaram a ser utilizadas pelos cronistas portugueses para designar o “nosso” Restelo.
Mas há mais ainda, falando da Galiza: também lá, na zona de Finisterra, há uma praia do Restrelo!

Ora, tendo o mesmo significado, não será a origem a mesma, ligada ao trabalho do linho?
Ou será a origem a mesma, mas a outra, se atendermos ao Campus Stellae (de Compostela)?

A segunda hipótese parece-me claramente arriscada, embora sedutora, sobretudo se enveredarmos pela descoberta de subtis e complexos significados (como os que se escondem nos mais elaborados traços dos Jerónimos, ao que parece).

Quanto à primeira hipótese, fica por explicar um aspecto essencial. Se o nome daquelas praias se deve ao linho… como e porquê?
É uma conjectura, mas com pistas promissoras: quer na região da Galiza em causa, quer no “nosso” Restelo, a plantação e tratamento do linho eram de facto actividades comuns, favorecidas pela proximidade de grandes massas de água (a humidade, ao que vim a saber, é factor importantíssimo). Para além disso, ainda hoje podemos encontrar, entre a Rua de Belém e a Rua Vieira Portuense, uma “Travessa das Linheiras” (fiel à tradição local de associar a toponímia a ofícios e indústrias – Travessa dos Ferreiros, Travessa das Galinheiras…)!
Considerando ainda que aquelas casas e ruas são, na sua grande maioria, quinhentistas, temos assim uma referência bem antiga, que por sua vez poderá remeter para épocas mais remotas (lembro por exemplo a popularidade do linho entre os árabes, bem como, por altura da sua ocupação, o facto de o Restelo ter sido uma zona eminentemente rural e agrícola).

E estariam então ali as linheiras, à vista da praia, a separar a estopa do linho… ocupadas com o seu “restelo”? E como poderiam não sabê-lo príncipes, clérigos e cronistas? Poderiam muito bem, penso eu, na mesma medida em que o próprio povo esqueceu e esquece a(s) origem(s).

Fontes:
Priberam
Paróquia de Santa Maria de Belém
Agência Ecclesia
Museu Agrícola de Fermentões

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Maravilha sobre Alcântara


Quando foi erguido, não faltaram vozes críticas... em particular quanto o seu estilo, considerado como demasiado retrógrado para a época (o que, em boa medida, até era verdade, se só de estilo se tratasse). Com o passar dos anos, porém, a antiguidade assumiu o seu posto e este monumento é hoje um dos símbolos de Lisboa.

Recorde-se que aquela imponente obra de engenharia, com o maior arco em pedra do mundo... e embora assentando sobre a falha sísmica do Vale de Alcântara... resistiu ao Terramoto de 1755!

Também não se pode esquecer que o "aqueduto" é muito mais que a arcaria de Alcântara, numa discreta mas extensíssima rede que sobrevive, malgrado algumas mutilações e o sufoco da construção. Para os mais familiarizados, será passatempo curioso seguir o seu percurso através do Google Earth:



Nota: A primeira fotografia encontra-se no Arquivo Municipal de Lisboa. Data das primeias décadas do Século XX, como se pode comprovar pela inexistência da floresta de Monsanto, bem como do bairro da Serafina.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Obras em curso

Este blogue vai ter "cara lavada", mas mais que isso importa informar que vai voltar a ter actividade. Mais intensa, embora seguindo o seu rumo de sempre (regularmente incerto). Afinal, um diário de bordo em rede (weblog) de uma vida em Lisboa...

Muito Obrigado pelas visitas

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

O que se ouve na TV

Uma conhecida marca de fraldas faz alarde no seu último anúncio televisivo - nos canais portugueses, atenção - de que os seus produtos terão sido testados pela Sociedade Espanhola de Pediatria.
Espanhola?

Vamos lá a ver, não tenho qualquer fobia e considero que, se há povo parecido com o nosso, é o espanhol... logo a seguir aos romanos (ah, Roma...).
Mas aí está. Se são parecidos, não haverá por aí qualquer instituição "tuga" que possa dar o seu crédito à coisa?
Ou se é para dar mesmo crédito, à séria, não prefeririam a chancela de uma Sociedade Alemã de Pediatria, de uma "British Association" ou coisa do género? As ditas fralditas, em vez de de meros contentores dos descuidos natais, até passariam a ser algo que "dá saúde e faz crescer".

Bem sei que para certas marcas e certas empresas fazer publicidade em Portugal por estes dias passa por traduzir anúncios de "nuestros hermanos". Mas deixem lá estar as associações deles. Já bastam as calinadas nas traduções e senhores cuja boca não se vê falar o que se lhe ouve.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

A Guerra Colonial

Assisti ontem ao programa "Prós e Contras" da RTP, onde o tema principal era a Guerra Colonial portuguesa de 1961-74.
Como é habitual naquele programa, a bem das audiências, perde-se demasiado tempo com intervenções "bombásticas", normalmente muito pouco rigorosas e muito parciais. Velhos "ajustes de contas" entre partidários de ideologias obsoletas.

No entanto, também houve algo que valesse a pena (e que "pena" por vezes foi). Embora dificilmente se possa dizer que qualquer um dos intervenientes fosse o mais objectivo ou o mais politicamente neutral (em favor de um maior rigor histórico, quero dizer), confesso que fiquei agradavelmente surpreendido com os contributos do Coronel Matos Gomes. Surpreendido, obviamente, porque nunca li obra sua nem me recordo de alguma vez o ter ouvido.
Mas para um interessado pela História, como eu, foi de facto um prazer imenso ouvir quem tanto sabe sobre o assunto em questão, tanto como eu julgava não ser possível.
Foi, sem dúvida, o melhor do programa.

Debruçando-me agora sobre o assunto em debate, creio que muito terá ficado por dizer. Sobretudo para esclarecimento dos mais jovens (o mesmo é dizer, em termos de lições para o futuro). Infelizmente, como já referi, sobressaíram velhos ódios e rancores que as sucessivas gerações obstinadamente inculcam nas gerações seguintes, ansiando talvez por vinganças definitivas, desejando quebrar para sempre os ciclos da História pela força, como se tal fosse possível, muito menos desejável.

A minha opinião pessoal é fundada o mais possível nos factos históricos mas também temperada pelo enorme privilégio de conhecer ou ter conhecido - sendo familiar ou amigo - pessoas que viveram o período em causa de maneiras diferentes. Pessoas com convicções diferentes e sortes diversas, que muito estimo ou estimava (muitos já faleceram, infelizmente).
Que penso eu da Guerra Colonial? Ou, mais amplamente, da tentativa de estabelecimento de um império colonial - territorial, entenda-se - em meados do século passado? Simplesmente, foi um erro tremendo. Simplesmente, prejudicou milhões de pessoas e, mais importante para nós, portugueses, o futuro do nosso País durante décadas.

Dito aquilo, convém esclarecer alguns aspectos (que raiam as ideologias, mas vou tentar manter a distância). Ao considerar um erro, faço-o porque penso que, mesmo vivendo sob um regime fascista ou ditatorial (independentemente agora se era mau ou bom, brando ou radical), o nosso País poderia ter seguido outro rumo. Não por ser ou estar de um lado (neste caso, da "esquerda").
Não só isso como posso enumerar boas opções e excelentes obras que o regime de Salazar realizou, sobretudo nas primeiras décadas de existência. Com efeito, quando olho para as décadas de 30 e 40 do século passado, torna-se difícil compreender, por exemplo, como a Espanha conseguiu ganhar-nos tanto avanço (mais significativo nas últimas décadas, é certo - afinal de contas também estiveram na "cauda" da Europa). Enquanto no País vizinho travava-se uma guerra civil cruenta e devastadora, o governo português empenhou-se seriamente no desenvolvimento do País, nomeadamente com a construção de inúmeras infra-estruturas servindo fins diversos, de inquestionável utilidade social.

Tudo isso realça ainda mais o erro, porque foi sem dúvida uma inflexão clara e desastrosa. A partir de certo momento, abrandou ou cessou a construção de escolas, hospitais, estradas ou barragens, em território nacional - inquestionavelmente o nosso território "europeu" e as ilhas atlânticas por nós povoadas. Com flagrante impacto no Interior e na Madeira e Açores, o tempo voltou a parar, pura e simplesmente.
Que foi feito então aos que habitavam essas regiões? Os que puderam emigrar para outros países da Europa ou para a América, fizeram-no. Nos anos 50 teve lugar o maior êxodo da nossa História. Mais de 1 Milhão e meio de portugueses (e bem portugueses!) foram ajudar a enriquecer países terceiros com a sua tenacidade e afinco no trabalho. É justo dizer: que desperdício para Portugal! (e não fossem as remessas...).
Aos restantes, os que ficaram, foi então prometido um futuro de abundância em territórios longínquos, dispersos por este mundo, cujo conhecimento - o necessário e adequado para tal empresa - era ainda deveras deficiente.
Como se não bastasse, todos esses territórios eram habitados (nalguns casos, ao que parece, desde o início da Humanidade) por milhões de autóctones (é verdade, eram milhões), "naturalizados" portugueses não havia muito e, concerteza, com as suas expectativas e anseios relativamente aos seus novos governantes.
É verdade que a realidade era diversa, de território para território, mas sobretudo entre as faixas litorais (com contacto há muito mais tempo - séculos, nalguns casos) e o interior. No entanto, fazendo as contas à vastidão reconhecida e "conquistada" em meados do século passado, não deixava de ser uma realidade nova e perigosa, deixando-nos em verdadeira igualdade de "vantagens" (políticas ou culturais) com qualquer outro país europeu.

Os resultados de tal risco poderiam ser imprevisíveis. Mas o mais trágico é que nem imprevisíveis foram, precisamente porque países com uma capacidade económica e militar muitíssimo e inquestionavelmente superiores à nossa estavam, na mesma altura em que "colonizávamos" em força, a retirar. E a retirar, nalguns casos, após guerras sangrentas e exaustantes, ainda sem a intervenção tão activa que as potências da "Guerra Fria" vieram a ter na nossa guerra colonial - o que obviamente complicou o nosso "caso" e de que maneira.
Ora, mesmo sem apelar a conhecimentos de índole militar (que não os tenho), o que a História nos diz, hoje, é que tudo ou quase tudo se estaria a compôr para um desastre sem igual desde, talvez, Alcácer-Quibir.

[Claro que haverá quem, lembrando Alcácer-Quibir, afinal encontre nesta comparação a justificação de uma coisa boa (um grande acto de bravura ou coisa do género). Não peço para que me expliquem porque terá sido Alcácer-Quibir uma coisa acertada (????), mas ao menos porque não havia coisa mais acertada para fazer...]

Dito aquilo, não esgota porém tudo o que se pode e deve dizer sobre as acções militares ou, mais concretamente, sobre o patriotismo e a valia dos que responderam à chamada. Aliás, até digo, com a bravura demonstrada, dificilmente teríamos perdido a guerra em termos militares, tivesse ela continuado. Nisto concordo com quem não concordo em quase nada.
O problema é que o nosso patriotismo padeceu do que padeceu a Pátria, obviamente. De nação europeia com uma história grandiosa (que éramos e somos) quis-se o estabelecimento de um império à escala mundial, em distâncias tão longínquas, territórios tão diversos, sobre povos tão diversos...
Acaso não sabíamos, mesmo os que viveram (e nasceram) nas colónias, que a Pátria afinal era e é "aqui" e não "lá"?

Mas, se dificilmente teríamos perdido, é-me igualmente óbvio que, após 13 anos de guerra e salvo nalgum ou noutro local, dificilmente ganharíamos a guerra. Os factos da História encarregaram-se de demonstrar, infelizmente, que a guerra perdurou, sobretudo em Angola e Moçambique, durante quase mais 30 anos!
Não digo que, caso prosseguíssemos em guerra, levássemos esses 30 anos entre as balas e minas do MPLA, da UNITA, da RENAMO, da FRELIMO, etc. Mas sem dúvida teria morrido muito mais gente e, muito mais importante, a "saída" não deixava de ser uma: o fim da guerra por via diplomática.

Esse era o fim inevitável de um tremendo erro.
Quanto ao como acabou e tudo o mais, é outra história (outros erros, infelizmente).

Já aqui o referi, mais de 1 Milhão e meio de portugueses emigrados, mais meio milhão de portugueses que, aliciados pelas ilusões de uns, tiveram de deixar as suas vidas que construíram em África. Mais de 8 a 9 mil mortos entre militares do lado português e desconhecidos milhares entre civis (incluindo portugueses) e militares das outras facções em contenda (não sei a quem agradam mortes que se podem e devem evitar!). Milhares de ex-combatentes que foram arrancados das suas terras, sobretudo das regiões que já referi (onde os esperava a emigração ou a pobreza), que ainda hoje sofrem as consequências.
E não posso também de referir o aspecto económico, igualmente desastroso, como é fácil de concluir. E aqui relembro de novo a Espanha, que se desenvolveu sem "Ultramar", desenvolvendo a Catalunha, o País Basco, etc. E se o dinheiro de Cahora-Bassa, de escolas, hospitais, fábricas, igrejas, investido no "Ultramar", tivesse sido investido em Portugal - no verdadeiro Portugal?
Será que muitas pessoas fazem idéia do como eram certas regiões do País há 40 anos? (como eu vi, por exemplo, a Madeira de então!) Se ainda hoje algumas vivem com dificuldades, imaginem então...
[Quem queira entender, basta olhar para os números. Compare, a taxa de analfabetismo, a esperança média de vida, o número de escolas, de hospitais e postos de saúde, de universidades, de automóveis, televisões e frigoríficos por habitante, o PIB per capita, etc.]

terça-feira, 21 de agosto de 2007

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Como isto anda...

Estamos em Julho e isto não parece mesmo nada Julho. As malditas alterações climáticas... mais a consciência ecológica à pressa...
Ontem li um artigo sobre carros a hidrogénio e, mesmo que tivesse alguma imprecisão (parece tudo bom demais), fechei os olhos e sonhei.
Sem o ruído dos motores, água pura a pingar dos escapes...

sábado, 21 de julho de 2007

Ainda sobre as eleições...

Ficámos a saber que cerca de 62% dos eleitores lisboetas não votaram. E dos que votaram, cerca de 27% (ou seja 10.3% do total) não o fizeram por nenhum partido.
Em suma, mais de 72% ou não quiseram saber das eleições ou dos partidos.
Não será isto revelador? Ou preocupante?

Os 62% será porque não importa e é deixar andar ou é porque não há esperança?

quinta-feira, 19 de julho de 2007

António Costa é o novo Presidente da Câmara

O título diz tudo quanto quero, pois mantenho este blog afastado da política o quanto baste. Para informação.
Agora vamos ver como e com que celeridade se começam a resolver os problemas de Lisboa.
Dito isto, penso no que vi em mais umas férias na minha segunda terra, mas disso já vos conto, nos próximos dias.

terça-feira, 26 de junho de 2007

Berardo

Acaba de ser inaugurado em Lisboa o Museu-Colecção Berardo (ou mais singelamente Museu Berardo), situado no espaço de exposições do Centro Cultural de Belém. É para visitar, sem dúvida alguma, para mais quando o meu meio-conterrâneo promete entradas gratuitas para os funcionários públicos... e sócios de clubes da Primeira Liga.

Sócios de clubes da Primeira Liga?!?!? Esta última benesse deixou-me a pensar, se não estará relacionada com alguma outra batalha do "wanna-be Gulbenkian" de Santa Luzia. Ele está em todo o lado, até diz que quer criar um Banco do Benfica... quando é assim, pode tudo. Até aparecer neste blogue, não tinha eu como resistir.

segunda-feira, 25 de junho de 2007

O homem que inventou o "Multibanco"

O site da BBC online é dos poucos que visito com frequência diária, por considerar que tem qualidade e riqueza de informação (com o tradicional rigor). Também tem, todos os dias, algo que faça sorrir.
É o caso deste artigo, que nos fala do senhor que inventou as caixas "Multibanco", em 1967. Ficamos também a saber que o PIN tem quatro dígitos porque a esposa do senhor disse que era melhor assim, à conversa na cozinha. Tudo "very British", no sentido mais simpático possível:

http://news.bbc.co.uk/2/hi/business/6230194.stm

segunda-feira, 11 de junho de 2007

A Feira do Livro

Este ano nem tive tempo de escrever umas linhas sobre a Feira do Livro... senão agora, quando já terminou.
Não falhei com uma visita, embora fugaz, pois foi num Sábado de tórrida soleira e só a "juventude" lá de casa teve direito a livros novos, o que já não é mau (ou por outra, é muito importante).

No entanto e pelo que ouvi (nomeadamente, na televisão) a Feira de 2007 parece que foi bastante boa para os editores e livreiros. Em vez das habituais queixas, quase automáticas, ouvi palavras de optimismo e de agrado.

E o Site Oficial da Feira (que por sinal está bastante bom) confirma:

Uma das maiores Feiras de sempre
A 77ª Edição da Feira do Livro de Lisboa
encerrou no Domingo, dia 10 de Junho, com um balanço francamente positivo.

De acordo com os participantes na edição deste ano foi visível um
aumento significativo no número de visitantes e no volume de vendas. De uma
forma geral o volume de vendas aumentou cerca de 20% e em alguns casos atingiu
mesmo os 40%. Passaram pela Feira milhares de autores, para sessões de
autógrafos, entre eles: José Saramago, António Lobo Antunes, Lídia Jorge,
Batista Bastos, Moita Flores, José Luís Peixoto, Galopim de Carvalho ou
Margarida Rebelo Pinto.

A grande festa do livro reuniu, assim, autores,
editores e leitores, e deixou bem clara a sua importância no contexto da
dinâmica cultural da cidade. A comprovar esse facto registe-se ainda a
importância dada ao evento pelos candidatos às próximas eleições camarárias, que
responderam positivamente ao convite dirigido pela APEL, Associação Portuguesa
de Editores e Livreiros e compareceram no Parque Eduardo VII, para visitar a
Feira e reunir com a organização.


Independentemente da qualidade do que mais se vende (sobretudo dos "best-sellers") parece-me que quase todos os géneros têm procura. E a Internet, em vez de substituir, tem estimulado ainda mais a curiosidade pelos livros (já quanto à imprensa "escrita" não se pode dizer o mesmo).

Já agora, uma sugestão. Uma vez que os pavilhões até estão mais "juntinhos", porque não improvisar uns telheiros/coberturas. Em dias de sol intenso há muitos que desistem não por preferirem a praia, mas porque caminhar acima e abaixo no Parque torna-se insuportável. E em dias de chuva...

Mas que a Feira fique no Parque, que está muito bem...

Está de parabéns António Baptista Lopes, actual presidente da APEL (que tem outra grande virtude, a de ser meu consócio).

sexta-feira, 8 de junho de 2007

domingo, 3 de junho de 2007

Estava a adivinhar

No artigo anterior falava eu em Câmara e em futebol, eis senão quando as duas coisas se cruzam de novo - para meu desgosto.
Parece que o Belenenses está há um ano à espera de uma licença sem a qual não poderá utilizar o Restelo para as competições europeias da próxima época e, para piorar a coisa, a alternativa é Alvalade (será que se Sporting ou Benfica não pudessem usar os seus estádios jogariam no estádio do vizinho de 2ª circular?).

Quer-me parecer que o meu clube, para não variar, foi demasiado sereno e demasiado "correcto" com a questão. Haverá muita coisa empatada com este sarilho na Câmara, mas não acredito que seja tudo.

quinta-feira, 31 de maio de 2007

Vespeiros

Uma situação é "off-season", outra bem dentro da respectiva "season". Ambas "silly" quanto baste.

A primeira diz respeito a Lisboa: as eleições fora de tempo (muito literalmente falando), qual pau em vespeiro que lá fez saltar os bicharocos, a esvoaçar, agressivos e ao magote. Avançam os clubes do costume, perdão, os partidos, mais uns independentes ex-não-tão-independentes-como-isso.
Os que esperam ganhar prometem o que há a prometer, os que pretendem só um ou dois lugarzinhos prometem ser pedra no sapato, mesmo quando fizer falta que o pé ande confortável.
Muito preocupante é a situação das finanças, como todos sabem, mas sinceramente não vejo grandes melhorias para breve. Toda esta conversa faz-me lembrar os clubes de futebol (até porque loucas despesas com certos clubes também fazem parte do rol camarário).

Por falar nisso, passo à "silly-season" do futebol, outro circo que acaba de começar (este sim, no tempo habitual). É incrível o quanto se escreve nos diários desportivos sobre saídas e contratações. Não é preciso muita atenção para perceber que 90% do volume de rumores não passa disso mesmo, um volume de rumores. Ou "como vender jornais desportivos quando não há jogos" - é dar "palha".
Funcionasse assim a Bolsa de Valores e haveria muito mais gente rica. E muito mais gente pobre, claro (a matemática da distribuição de riqueza não dá abébias), mas eu sou dos que não dão para esse peditório. Em "season" morta do futebol, não compro jornais desportivos (e no resto da época bem poucos).

Numa e noutra situação, o melhor é esperar que a poeira assente. "Que sera, sera". E que o Belenenses ganhe.