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sábado, 1 de agosto de 2009

Os Aventureiros, uma outra perspectiva

No seguimento do artigo anterior, trago para este blogue uma opinião diversa - e céptica - quanto à famosa lenda dos oito aventureiros lisboetas que, no tempo do domínio árabe, lançaram-se pelo Oceano fora, supostamente à descoberta. A opinião é de Garcia Domingues, ilustre historiador e filósofo arabista (infelizmente já falecido), em entrevista à revista Leonardo, dedicada à Filosofia (republicada recentemente):

L – Segundo as suas afirmações, as Descobertas não tinham qualquer finalidade? Nem a da constituição do V Império?

GD – Há uma mistificação da história das Descobertas, à qual estão a associar conotações políticas para justificar certa política anti-patriótica desenvolvida pelo Estado. Actualmente, os nossos dirigentes políticos têm vergonha de afirmar que fizémos a expansão, porque estão a encolher Portugal. Nós, Portugueses, estamos a voltar a casa, perdido o Ultramar. Não descobrimos nada. Não partíamos para resolver este problema: o que existe para além do mar? Nunca fizémos uma coisa destas. O que houve foi a expansão, um fenómeno de expansão. A primeira acção consistiu na tomada da Ceuta, uma vez que tinhamos chegado ao Algarve. Só depois, o Infante D. Henrique se instalou em Sagres, dando início às navegações até aos Açores e Madeira. O desejo de ultrapassar o território que possuíamos deu origem à expansão do domínio político, religioso e económico. Fomos à procura da cana-de-açucar, à procura do ouro e dos produtos exóticos. O que não significa que não houvesse pessoas que contribuíram para a expansão com a preocupação das Descobertas que resultam da ambição. É evidente que se fizeram algumas, mas foram sempre secundárias em relação às finalidades da expansão. As navegações determinaram o desenvolvimento das ciências naúticas e a invenção de instrumentos novos, como o nónio de Pedro Nunes. A expansão é algo de muito natural aos povos. Principalmente se há uma explosão demográfica…

L – No entanto, os Portugueses de Quinhentos não eram assim tantos…

GD – Certo. Mas as possibilidades da criar fontes de riqueza eram menores do que existem nos nossos dias. A expansão era encarada como uma possibilidade de vida.

L – Esse movimento não tinha uma finalidade superior?…

GD – Sim, de acordo, há uma finalidade, mas só foi percebida posteriormente pela história. É com a história que se formam as ideias nacionais e os ideais de um povo que, porventura, podem indicar uma finalidade. Por assim dizer, os povos nascem, crescem e morrem. Criam uma espécie de força própria. Entre nós, foi a força expansiva. Mas essas ideias mudam, embora se verifiquem determinadas constantes. Já existiam povos no território antes da formação de Portugal, mas só no século XV surgiu a vocação da marinhagem.

L – Os árabes contribuíram para essa gesta?

GD – Essa influência foi diminuta. Os árabes preocupavam-se bastante com os limites geográficos dos territórios e da astronomia, e os seus conhecimentos foram úteis às navegações. A propósito recordo aos senhores, a famosa lenda dos Aventureiros de Lisboa segundo a qual navegadores árabes aventuraram-se no mar oceano, procurando o seu fim. É mentira. No século XI, após as invasões normandas, o Amir de Córdova ordenou a constituição de uma poderosa esquadra muçulmana, sediada em Sevilha, que começou a ser construída em diversos pontos da região compreendida entre Almeria e Huelva. Por essa altura, formou-se na Alfama de Lisboa um núcleo de resistência aos normandos. A sua acção consistia na vigilância costeira assinalando a passagem dos barcos que pretendiam atacar populações do Sul. É claro que nessas missões, digamos assim, de espionagem, alguns navios tanto se afastaram da costa que se perderam. Um desses almirantes deu com as Canárias. Deste modo, nasceu a ideia lendária de que os navegadores partiam para encontrar o mar com fim. Mas essa não foi uma preocupação real. A ideia de expansão e de navegação surgiu mais tarde, já com o território português definido. Os Portugueses foram navegadores e marinheiros. Quanto ao Quinto Império tenho a dizer o seguinte: um mito! Trata-se de uma magicação do Padre António Vieira que não corresponde a coisa alguma.



É notório o cepticismo (relativo) de Garcia Domingues quanto à influência árabe em Portugal, a que não escapa o episódio dos Aventureiros (como o próprio reconhece na entrevista, soava bastante anti-árabe... para um arabista). Quanto ao referido episódio, contraria muito do que registou Idrisi vários séculos antes (e poucos depois do sucedido), o que não deixa de ser estranho. A rota seguida pelos Aventureiros, a ser verdadeira, não é coerente com a tese apontada (salvo manifesta azelhice dos marinheiros em causa). Por outro lado, não se entende a completa omissão quanto à ameaça normanda, que existiu de facto (profusamente documentada em outras fontes).
Quanto ao real desejo dos marinheiros, concordo, nem Idrisi nem nós podemos garantir que desejavam descobrir e conhecer. Quem sabe, não tenha sido aquela história, uma fanfarronice dos "Mugharrirun"? Não seriam os primeiros navegantes a fantasiar sobre as suas viagens!

Talvez tenhamos um problema de fontes, hoje conhecidas, mas às quais provavelmente Idrisi não teve acesso directo. Ou então, alguma confusão. Há outra lenda (?) que fala da viagem de um tal Khaskkash, almirante da esquadra omíada (este sim, com provas dadas contra os normandos) que, partindo da Andaluzia, terá atravessado o Oceano, supostamente atingindo outro continente, para além das Canárias. Haverá relação entre as histórias? Quem sabe...

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Os Aventureiros, precoces descobridores alfacinhas

Mais de 300 anos antes dos Descobrimentos, e das famosas partidas da praia do Restelo, houve oito lisboetas que se lançaram ao mar, animados pela mesma vontade de descobrir. Assim nos conta Muhammad [Maomé] Al-Idrisi (ou simplesmente, Edrisi), notável geógrafo do século XII, a propósito da sua descrição da cidade de Lisboa:

«[...]

Lisboa está construída na margem setentrional do rio Tejo; é aquele sobre o qual está localizada Toledo. A sua largura depois de Lisboa é de 6 milhas, e a maré faz-se ressentir violentamente. Esta bela cidade que se estende ao longo do rio, está limitada por muralhas e protegida por um castelo. No centro da cidade há fontes de água quente tanto no inverno como no verão.

Situada nas proximidades do Oceano, esta cidade tem à sua frente, na margem oposta, o forte de al-Ma’dan [Almada], assim designado porque o mar lança grãos de ouro na margem. Durante o inverno os habitantes da zona vão junto do forte à procura deste metal e isto dura até que acaba a estação rigorosa. É um facto curioso que nós mesmos testemunhámos [prova da presença de Idrisi em Lisboa].

Foi de Lisboa que partiram os Aventureiros, aquando da sua expedição tendo como objecto de saber o que continha o Oceano e quais eram os seus limites, como já foi dito. Existe ainda em Lisboa, perto dos banhos quentes, uma rua que se chama Rua dos Aventureiros.

Vejamos como a coisa se passou: eles reuniram-se ao número de oito, todos parentes próximos; e depois de terem construído um navio mercante, embarcaram água e víveres em quantidade suficiente para uma navegação de vários meses. Lançaram-se ao mar ao primeiro sopro de vento de este. Depois de terem navegado durante onze dias ou cerca disso, chegaram a um mar cujas ondas compactas exalavam um odor fétido, escondiam numerosos recifes que eram difíceis de ver. Temendo o perigo, mudaram a direcção das suas velas, correram para sul durante doze dias, e alcançaram a ilha dos Carneiros, onde numerosos rebanhos pastavam sem pastor e sem pessoa para os guardar.

Tendo posto pé nesta ilha, encontraram uma fonte água corrente e perto daí uma figueira selvagem. Apanharam e mataram algumas ovelhas, mas a carne era tão amarga que era impossível de comer. Só aproveitaram as peles. Navegaram ainda doze dias para sul e encontraram enfim uma ilha que parecia habitada e cultivada; aproximaram-se a fim de saber o que era; pouco tempo depois foram envolvidos por barcas, feitos prisioneiros e conduzidos a uma cidade situada no litoral. Desceram e foram conduzidos a uma casa onde viram homens de alta estatura e de cor alaranjada- avermelhada, que tinham pouca barba e mantinham os cabelos longos (não frisados), e as mulheres que eram de uma rara beleza. Durante três dias ficaram prisioneiros numa divisão desta casa. O quarto dia viram vir um homem falando uma língua árabe, que lhes pergunta o que eles eram, porque é que tinham vindo, e qual era o seu país. Eles contaram-lhe a sua aventura; aquele dá-lhes boas esperanças e fez-lhes saber que era um intérprete do rei. No dia seguinte foram apresentados ao rei, que lhe faz as mesmas perguntas e ao qual eles responderam, como já tinham feito no dia anterior ao intérprete, que se tinham aventurado ao mar para saber o que poderia ter de singular e de curioso, e a fim de constatar os seus limites extremos.

Logo que o rei os ouviu assim falar pôs-se a rir e disse ao intérprete: «Explica a esta gente que o meu pai tendo outrora prescrito a alguns dos seus escravos a embarcarem neste mar, eles percorreram-no, em largura, durante um mês, até que, a luz (do céu) lhes faltou, eles foram obrigados a renunciar a essa vã empresa. O rei ordena depois ao intérprete de transmitir aos aventureiros uma magnanimidade da sua pessoa, de forma a que eles ficassem com uma boa opinião dele, o que foi feito. Eles voltaram então à sua prisão, e aí ficaram até que um vento de oeste se elevasse e tapando-lhe os olhos, fê-los entrar numa barca e navegaram durante algum tempo no mar. «Nós andámos», disseram eles, «cerca de três dias e três noites, e atingimos de seguida uma terra onde nos desembarcam, com as mãos atadas atrás das costas, numa praia, onde fomos abandonados. Aí ficámos até ao nascer do sol, no mais triste estado, por causa das faixas que nos apertavam fortemente e nos incomodavam bastante; por fim, tendo ouvido ruído e vozes humanas, nós pusemo-nos a gritar. Então alguns habitantes do país vieram até nós, tendo-nos encontrado numa situação tão miserável, desataram-nos e fizeram-nos numerosas questões às quais nós respondemos pela narração da nossa aventura. Eram berberes. Um de entre eles disse-nos: «Vós sabeis qual é a distância que vos separa do vosso país?» E à nossa resposta negativa, ele acrescenta: «Entre o ponto onde vós vos encontrais e a vossa pátria há dois meses de caminho». O chefe dos aventureiros disse então: wâ asafi (interjeição de desespero: «!»); é por isso que o nome deste lugar ainda hoje é de Asafî. É o porto de que já falámos como estando na extremidade do ocidente.»


Neste texto de Idrisi encontramos, sem dúvida, muito do que veio a contribuir para a gloriosa época dos Descobrimentos, ainda que de forma indirecta. E é curioso e interessantíssimo o facto de terem sido lisboetas os tais Aventureiros, antecessores em façanhas (mas muito dificilmente, antepassados) dos intrépidos navegadores portugueses.

É comum reduzir a importância dos Descobrimentos a saber quem descobriu o quê pela primeira vez (e com isso, frequentemente, reduzir a importância das próprias Descobertas). Nesse sentido, o texto de Idrisi é mais uma peça para o “puzzle”. Não parece suscitar dúvidas que os Aventureiros terão chegado às Canárias, bem como, com grande probabilidade, à Madeira e/ou aos Açores (que tenham chegado à Grã-Bretanha/Irlanda ou à América, como suspeitam alguns, é pouco provável). Mas é também quase certo (por outras fontes) que qualquer um daqueles arquipélagos já teria sido visitado desde os tempos dos romanos, dos fenícios, ou por outros, anteriores àqueles (quem sabe?).
A meu ver, não ficam em causa os respectivos Descobrimentos (Séc. XV), na acepção que considero da palavra. Uma coisa é “achar”, outra é revelar para o Mundo (revelando o Mundo para os “achados”, nalguns casos). E assim, também a meu ver, a época dos Descobrimentos foi mesmo uma época de descobertas, talvez só igualada em importância pela remota (milenar e longuíssima) época em que os seres humanos, partido de África, foram descobrindo pela primeira vez todos (ou quase todos) os recantos deste mundo. Os portugueses redescobriram-no, redescobrindo e pondo em contacto todos (ou quase todos) os descendentes dessa antiquíssima diáspora africana. Como já alguns arriscaram afirmar… iniciámos a globalização (pelo menos a uma escala intercontinental, enfim, planetária).

Voltando à viagem dos Aventureiros, não se sabe com exactidão quando terá acontecido. Que terá sido anterior a 1147, data da conquista da cidade de Lisboa pelos portugueses, é garantia óbvia. Poderá ter acontecido nos séculos imediatamente anteriores a este relato (X, XI), pois o geógrafo deixa entender que a história era antiga (?). A título de curiosidade, ainda estava Idrisi concluindo as suas obras e já a Lisboa que descrevia (e visitou, de facto) tinha fechado aquele capítulo da sua história (domínio árabe) para sempre…
Por outro lado, Idrisi dá-nos a idéia que a história dos Aventureiros seria bastante popular e talvez até afamada além Al-Gharb (o ocidente da Península Ibéria conquistada), embora seja de sua autoria a única fonte até hoje conhecida. É certo que muitas fontes se terão perdido com a Reconquista, mas Idrisi indica que os Aventureiros eram gente comum, pelo que é natural que as suas aventuras tenham ficado gravadas “apenas” na voz do povo. Isso até 1147, embora não tivesse de ser, obrigatoriamente. De facto, muita coisa permaneceu da memória colectiva da Lisboa árabe, em especial da sua comunidade moçárabe (cristãos arabizados - se seria a maior da cidade, é discutível, mas que seria bastante numerosa, sem dúvida).

Quanto à identidade dos Aventureiros, não ficaram os nomes (sendo gente comum, é o mais natural), mas refere Idrisi a sua recordação na toponímia, em rua (ou ruela, mais provavelmente) lá para os lados de Alfama (pela referência aos banhos quentes). Lembraria a rua o local onde viviam (portanto, em Alfama)?

Apesar de tratar-se de gente comum, estou em crer que não seriam moçárabes (sem prejuízo de terem alguma origem moçárabe) mas sim “mouros” autênticos – que os havia em Alfama, estando os moçárabes afastados do centro, nos respectivos arrabaldes (embora também se dedicassem ao mar, sem dúvida). De qualquer forma, com a definitiva reconquista cristã da cidade, perdeu-se o nome da rua e também se perdeu a memória daquela aventura, reforçando a minha laica tese de que não seriam moçárabes, pois estes ainda conseguiram manter vivas muitas tradições – veja-se as raízes moçárabes da lenda de S. Vicente. A própria Alfama terá sido despida da “mourama”, depois confinada à Mouraria (ou expulsa para sempre da cidade, provavelmente).

Li algures que os oitos aventureiros seriam afinal oito fugitivos cristãos (incluindo um Arcebispo e vários Bispos), que teriam feito a viagem por altura da conquista árabe de Lisboa (Séc. VIII). Desconheço por completo fonte credível que o confirme, para além de que a versão de Idrisi é quase totalmente incompatível com tal versão (tal fuga só poderia ter corrido pior se tivessem acostado ao Egipto ou à Palestina!).
Seria a versão de Idrisi uma deturpação de uma estória original cristã ou moçárabe? Sinceramente, não me parece. Talvez esta versão, essa sim, possa ter resultado de deturpação posterior, de algum escriba português, que tendo ficado a conhecer a lenda dos Aventureiros, a “cristianizou” (fruto de preconceito que ainda hoje sobrevive).

Não há evidência que ligue directamente a viagem dos Aventureiros à origem dos Descobrimentos, mas sim, muita coisa em comum (digamos que uma ligação indirecta muito forte!). Se as próprias obras de Idrisi não eram bem conhecidas à época dos Descobrimentos (parece que não), algumas das suas fontes talvez, bem como fontes árabes contemporâneas que sim, talvez conhecessem a obra. Mas a viagem dos Aventureiros, em concreto, só nos aparece revelada e relembrada séculos mais tarde (com a redescoberta das obras de Idrisi).

Comum é o desejo, de saber “o que continha o Oceano e quais eram os seus limites”. Razões políticas, estratégicas ou religiosas aparte, sempre acreditei que uma das principais motivações dos Descobrimentos teria sido aquela curiosidade, que era mais do que científica. No Mediterrâneo, tudo era conhecido e (relativamente) pacífico. Para os que chegavam ao Ocidente (da península Ibéria ou Magrebe), fenícios, romanos e árabes, o Atlântico era estranho, aterrador, avassalador. Na verdade o Oceano para esses não era um mar maior (que o Mediterrâneo, nomeadamente), mas uma antecâmara das orlas do mundo, onde não havia mais terra, para além das quais não valia a pena ir, sobretudo porque não havia a opção de regressar (acreditavam). O próprio Idrisi, mesmo admitindo a existência das tais ilhas (mesmo em grande número), não se convenceu do contrário:

«O oceano rodeia os limites terrestres e tudo para além daí é desconhecido. Ninguém foi capaz de verificar o que quer que fosse, devido às dificuldades e perigos da navegação, a sua grande obscuridade, profundidade e tempestades frequentes; devido ao medo dos peixes monstruosos e terríveis ventos; no entanto existem muitas ilhas, umas com gente e outras desabitadas. Nenhum marinheiro se arrisca a entrar nessas águas profundas, e se alguns o fizeram, foi percorrendo ao longo das costas terrestres, receosos de se afastar demasiado. As ondas deste oceano, embora movendo-se com altura de montanhas, mantêm-se inteiras e sem se quebrar, porque se se quebrassem, seria impossível para um barco ultrapassá-las»


Assim se conformava quem cá chegava, ou quem por cá passava (diga-se que Idrisi acaba por não ser muito animador para futuros exploradores). E quem cá ficou?
Para quem habitou e habita esta “Ocidental Praia”, viver de frente para o fim do mundo (e de costas para o dito) era (e é) pena difícil de conformar. Os Aventureiros, como outros depois deles (e também antes) sentiram tal angústia. Imbuídos do tal espírito de “Mugharrirunes”, fizeram-se ao mar.

Embora nunca venhamos a saber exactamente quem eram aqueles heróis, a cidade de Lisboa ainda hoje os lembra, não em Alfama, mas no actual Parque das Nações, onde foi aberta uma nova “Rua dos Aventureiros” (Idrisi ficaria perdido!).

Por ironia do destino, a Ceuta natal de Idrisi também seria conquistada pelos portugueses (1415), tomada essa que marcou o início da nova gesta, de novos aventureiros lisboetas (ler neste mesmo blogue, sobre a origem da bandeira de Lisboa… e da de Ceuta, desde então e até hoje imagem da primeira).

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Restelo

Torre de Belém... ou Baluarte do Restelo


É graças à minha filiação "clubística" que nutro especial carinho por esta zona da cidade (embora nunca lá tenha vivido), ao estudo da qual já dediquei algumas linhas, noutro espaço.

Qual é a origem do nome? E afinal, o que é o Restelo? Será descabida esta última questão?

Desde há várias décadas que o Restelo é reconhecido – pelo menos aos olhos do cidadão “comum” – como sendo a zona a Norte e Oeste de Belém, ocupada maioritariamente por vivendas e condomínios, e por isso tida como “nobre” ou de “luxo” (actual ou datado). O Estádio do meu Belenenses, baptizado “do Restelo”, acaba por demarcar o extremo a sudoeste dessa zona. Abaixo e para nascente, seguindo a Rua de Belém, ninguém duvida que está Belém, frente ao Tejo, sobre antiga praia.
No fundo, a criação da Freguesia de São Francisco Xavier veio dar mais algum sentido a esta separação.

No entanto, se olharmos para a história – para a origem – nem tudo é assim tão claro. Que o nome de Belém se deve à invocação de Santa Maria de Belém, no e pelo Mosteiro dos Jerónimos, bem como pelo templo Henriquino que o precedeu, é facto que não merece muitas dúvidas. Mas, que a própria zona do actual Mosteiro, frente ao rio, era conhecida como “praia do Restelo”, também é facto, também antigo e bem documentado (entre outros, pelo grande Fernão Lopes).
Temos então que, se o Restelo e Belém não são afinal a mesma coisa, pelo menos Belém acabou por ser uma parte do Restelo que ganhou nome e fama próprios.
Se atendermos à hipótese mais conhecida e consensual quanto à origem daquela toponímia, faz-se um pouco mais de luz sobre esta “transição”.

Em página da Paróquia de Santa Maria de Belém podemos ler que:

“Em meados do século XV, o Infante D. Henrique mandou ampliar uma pequena ermida que tinha sido fundada, na zona do Restelo, junto ao Tejo, sob a invocação de Nossa Senhora da Estrela, protectora dos navegantes. Enriquecendo o sentido da primeira invocação, o Infante dedicou a nova Igreja a Santa Maria de Belém.”

Assim se entende a ligação com a história da Natividade de Jesus Cristo, por intermédio da Estrela, a dos Reis Magos, mas também de Maria, mãe de Jesus, ela própria Estrela dos Mares, guia e protectora dos navegantes. Estes nomes e símbolos têm sido objecto de interpretação de várias correntes e “ciências”, ditas da “mística”, do “oculto”, na convicção de que escondem significados só acessíveis a uns. Sendo de interesse, são áreas do conhecimento que não domino minimamente – sobre as quais não posso elaborar muito, portanto.

Mas, no site da Agência Ecclesia, da Igreja Católica Portuguesa, encontramos mais elementos de interesse para a nossa questão:

“O nome deste lugar [Restelo], um povoado modesto mas estrategicamente vocacionado para (ante)porto de Lisboa, confunde-se com o desse primitivo santuário dedicado a Nossa Senhora da Estrela.

A interpretação mística é directa: Nossa Senhora era a luz para os navegantes que desejavam entrar sem perigo na barra de Lisboa; a Estrela evocava o misterioso astro que conduziu os Magos. E quando o Infante D. Henrique mandou edificar no Restelo essa igreja dedicada a Nossa Senhora de Belém, não foi o local do nascimento de Cristo que quis evocar – o presépio aonde acorreram os pastores e os anjos deram glória a Deus – mas antes o ponto de encontro das gentes com Cristo, Sacerdote, Profeta e Rei, para o qual se dirigiram aquelas três personagens míticas e ofereceram ouro, incenso e mirra.”

Esquecendo propositadamente as outras questões, encontramos agora e finalmente uma justificação, geralmente aceite, para o nome “Restelo”: surgiu por corrupção de Estrela (ou de “SenhoRa-Estrela”). Bem próxima anda outra hipótese, muito semelhante (por conotações marinheiras mas também espirituais), pela qual a origem se deve à palavra “Setestrelo”, que se refere à constelação da Ursa Maior, muito importante para quem queira encontrar a Estrela do Norte, guia dos navegantes (isto no Hemisfério Norte, obviamente).


Estádio do Restelo... casa d'Os Belenenses

Ninguém ou mesmo nada sou para pôr em causa aquela primeira hipótese (“Senhora da Estrela”), que é em quase todos os seus aspectos bem plausível e “encaixa” perfeitamente numa miríade de sentidos, mais claros ou mais obscuros. No entanto, creio que encontrei (ou redescobri?) uma alternativa, no mínimo, muito interessante.

A alternativa em questão pouco ou nada remete para o religioso ou espiritual, nem tão-pouco para as obras régias. Fica bem, isso sim, ao lado de uma Junqueira ou de Pedrouços, topónimos de fácil e óbvia interpretação. Por outro lado, a suposição de corrupção de uma outra palavra, ainda que possa ser também antiga (embora não tanto como a lenda de Ulisses em Lisboa), é algo que merece algumas reservas, sobretudo tratando-se de nomenclatura religiosa (será assim tão aceitável, passar de “Senhora da Estrela” para “Restelo”?).

Porque se dizia e escrevia “Rastelo” ou “Rastello”, palavra essa que tinha (e tem) outro significado em português… e que sobrevive, precisamente, na palavra “restelo”?

Vejamos o que nos diz este texto, sobre os famosos “12 trabalhos” do linho (Museu da Agricultura de Fermentões):

“(…) [sobre o acto de] assedar: depois de limpas as impurezas as fibras são separadas por cumprimentos e espessuras. As mais longas e finas formam o linho, as mais curtas e grosseiras, a estopa. Para isso usam-se os sedeiros, instrumentos com dentes de aço finos e serrados, nos quais se passam as estrigas de linho. A estopa que fica, antes de ser fiada tem que se submeter a outra operação. Em manadas a estopa é passada no restelo, uma espécie de pente largo de madeira com dentes de aço grandes e pontiagudos. Depois de ‘penteada’ a estopa está pronta a ser fiada.”

E agora, o que nos diz o dicionário Priberam:

Restelo: rastelo; azeitonas caídas no chão antes de varejadas, ou espalhadas por descuido dos ranchos [possível mas improvável, no nosso caso].
Rastelo: fieira de dentes de ferro por onde se passa o linho para se lhe tirar a estopa; grade com dentes de pau, para aplanar a terra lavrada;
Da mesma maneira existem os verbos “restelar” ou “rastelar”, cujo acto por sua vez dá origem ao substantivo “restelo” ou “rastelo”.

Note-se que, no Brasil, a palavra “restelo” surge muitas vezes associada ao significado acima referido para “rastelo”, como utensílio agrícola ou de jardinagem. Aliás, não é invulgar que o camoniano “Velho do Restelo” passe, ainda que só por sugestão… por jardineiro.

Ainda na área do português, ou melhor, do galego-português, encontramos também matéria interessante. Os significados que encontramos no português, relativos ao trabalho do linho, encontramo-los também no galego actual, em palavras semelhantes: “rastrelo” ou “restrelo”. Variações que, curiosa e precisamente, também chegaram a ser utilizadas pelos cronistas portugueses para designar o “nosso” Restelo.
Mas há mais ainda, falando da Galiza: também lá, na zona de Finisterra, há uma praia do Restrelo!

Ora, tendo o mesmo significado, não será a origem a mesma, ligada ao trabalho do linho?
Ou será a origem a mesma, mas a outra, se atendermos ao Campus Stellae (de Compostela)?

A segunda hipótese parece-me claramente arriscada, embora sedutora, sobretudo se enveredarmos pela descoberta de subtis e complexos significados (como os que se escondem nos mais elaborados traços dos Jerónimos, ao que parece).

Quanto à primeira hipótese, fica por explicar um aspecto essencial. Se o nome daquelas praias se deve ao linho… como e porquê?
É uma conjectura, mas com pistas promissoras: quer na região da Galiza em causa, quer no “nosso” Restelo, a plantação e tratamento do linho eram de facto actividades comuns, favorecidas pela proximidade de grandes massas de água (a humidade, ao que vim a saber, é factor importantíssimo). Para além disso, ainda hoje podemos encontrar, entre a Rua de Belém e a Rua Vieira Portuense, uma “Travessa das Linheiras” (fiel à tradição local de associar a toponímia a ofícios e indústrias – Travessa dos Ferreiros, Travessa das Galinheiras…)!
Considerando ainda que aquelas casas e ruas são, na sua grande maioria, quinhentistas, temos assim uma referência bem antiga, que por sua vez poderá remeter para épocas mais remotas (lembro por exemplo a popularidade do linho entre os árabes, bem como, por altura da sua ocupação, o facto de o Restelo ter sido uma zona eminentemente rural e agrícola).

E estariam então ali as linheiras, à vista da praia, a separar a estopa do linho… ocupadas com o seu “restelo”? E como poderiam não sabê-lo príncipes, clérigos e cronistas? Poderiam muito bem, penso eu, na mesma medida em que o próprio povo esqueceu e esquece a(s) origem(s).

Fontes:
Priberam
Paróquia de Santa Maria de Belém
Agência Ecclesia
Museu Agrícola de Fermentões

segunda-feira, 17 de julho de 2006

Alfama


Voltamos a assuntos de toponímia, desta vez contemplando um dos mais antigos bairros de Lisboa, Alfama. Que o nome terá origem árabe, parece óbvio. E é.

Alfama deriva de "Al-Hama" (ou "al-hamma"), designação que surge de forma mais fiel e com expressiva abundância na vizinha Espanha. De facto, são inúmeras as "Alhamas" do outro lado da fronteira. Estranhamente, em Portugal, apenas se conhece a "Alfama" alfacinha (?)...

O que significa "al-hama"? Segundo apurámos, significa fonte termal ou de águas tépidas. Numa interpretação mais lata e adaptada, poderá significar também "banhos" (ou "banhos termais"). São inúmeros os locais em Espanha em que a associação do nome "Alhama" é justificada precisamente por aquelas circunstâncias.

Então o nome da Alfama lisboeta também se deve à existência de nascentes de águas termais? Hoje em dia, poderá parecer estranho. Mas há algumas décadas atrás, ainda no Séc. XX, seria mais fácil de entender. Com efeito existiam ali várias nascentes (e existem ainda, se bem que soterradas e com menor caudal) das quais brotava água a temperaturas acima do normal e, nalguns casos, com propriedades terapêuticas reconhecidas. Até ao início do século passado existiam mesmo "banhos públicos" para aproveitamento dessas águas. Contudo, dada a precaridade dessas explorações bem como a progressiva contaminação das águas, tais estabelecimentos desapareceram.

De assinalar que há poucos anos (2002) surgiu um projecto para reaproveitamento dessas nascentes, não ignorando até o seu potencial como fonte de energia alternativa (calorífera). Não sabemos como está esse projecto, mas é bem interessante.

Assim sendo, o nome "Alfama" não corresponde ao de bairro ou reduto de densa aglomeração, como alguns defendem.

Como nota final, existe uma "Al-Hamma" em territórios disputados pela Síria e Israel (que a ocupou nos anos 50 do século passado), reputada... pelos seus banhos termais.

sexta-feira, 11 de novembro de 2005

Meter o Rossio na Betesga

Recebi o prazenteiro desafio de aqui trazer a célebre expressão "meter o Rossio na Betesga". À partida não tenho qualquer conhecimento privilegiado senão o da utilização corrente - embora cada vez menos - da própria expressão (por vezes hoje utilizada numa forma que creio já ser adaptada: "meter o Rossio na Rua da Betesga"), o saber onde ficam o Rossio e a Rua da Betesga e qual o seu significado.

Independentemente da origem precisa e correcta, o significado da expressão ainda hoje se pode comprovar in loco, com maior ou menor evidência do que em tempos idos. Querer meter o Rossio, grande praça lisboeta (durante muito tempo a maior da cidade), na rua que hoje liga esta mesma praça à Praça da Figueira, é algo difícil ou impossível (e/ou desproporcionado). É como querer passar um camelo pelo buraco de uma agulha, para citar a Bíblia.

A questão seguinte é: porquê a Rua da Betesga? Não sei ao certo porquê, como tal toda a ajuda dos leitores será bem-vinda. No entanto posso adiantar algumas hipóteses, sendo que uma delas, salvo melhor opinião, parece-me a mais plausível.
Antes de enunciar cada uma convém esclarecer qual é o significado de "betesga". Consultando um dicionário ficamos a saber que é sinónimo de "rua estreita", "beco sem saída" ou "viela". Desde logo salta à vista o facto de a "Rua da Betesga" poder ser uma redundância (como "Rua da rua estreita") ou então fazer referência a uma outra rua. Como veremos, esta última possibilidade é a que me parece mais apropriada, até porque por esse país fora (e também no Brasil) existem muitas "betesgas" e, ao que saiba, mais nenhuma "Rua da Betesga".

A primeira hipótese, a mais óbvia e simples, associaria o ditado à actual Rua da Betesga. Para assim ser, "Rua da Betesga" seria uma designação redundante e a dita rua teria de ser efectivamente considerada como estreita ou sem saída. Ora, desde que foi aberta, na sequência do terramoto de 1755, a rua em causa nunca foi especialmente estreita e muito menos sem saída. É certo que sofreu alguns alargamentos e que após a demolição do Mercado da Praça da Figueira (ou a praça propriamente dita, em 1949) se reabriu a desafogada praça actual. Mas sinceramente, creio que não basta. Quando muito admitiria a possibilidade de se referir à Rua da Betesga porque a mesma faz a comunicação entre o Rossio e a Praça da Figueira e a passagem de um lado para outro, em dias de multidão, ser facilmente congestionável.

A segunda hipótese, sequência natural da primeira, faria assentar a razão do ditado naquela que foi a rua antecessora da Rua da Betesga. Como esta, partia do Rossio, mas ladeava o Hospital Real de Todos os Santos, que já não existe (foi destruído pelo terramoto de 1755 e sobre parte das suas ruínas se abriu a Praça da Figueira). É possível verificar qual o traçado dessa antiga rua recorrendo a alguns mapas antigos e até mesmo a mapas actuais que nos mostram a sobreposição dos arruamentos, antes e depois do terramoto. É o caso da figura que apresento em seguida, abusivamente retirada do Pequeno blogue do Grande Terramoto, cuja visita recomendo vivamente.
Como se pode ver, a actual Rua da Betesga não coincide exactamente com a rua anterior e esta não se chamava formalmente “Rua da Betesga” (não vos consigo apontar qual era o seu nome exacto pois está pouco legível num dos mapas que consultei – mas não era esse). No entanto e compreensivelmente uma ficou herdeira da outra. Seria então aquela a rua demasiado estreita para lá querer meter o Rossio? Pelos mapas que consultei a rua era muito provavelmente mais estreita que a actual, no entanto não me parece que fosse especialmente estreita, sobretudo tendo em conta os padrões da época (e já desde o tempo da ocupação árabe). Porém encontramos um pouco mais de lógica para a designação “Rua da Betesga”, se considerarmos que betesga era a antiga rua e que a actual a lhe faz referência. Não fosse existir mais um dado importante, esta hipótese teria o meu “voto”.

Chegamos então à terceira hipótese, para cuja sustentação vale a pena observar de novo a figura com as antigas ruas. Se repararem, no meio da antiga rua havia de facto uma ruela sem saída. Uma betesga, pois. Estou assim em crer que foi o povo de Lisboa que terá baptizado informalmente a antiga rua como “rua da bestega” devido à já identificada betesga que ficava no meio da dita. A nova rua, pós-1755, terá então recebido a designação da antiga que entretanto já era comum. Quanto à expressão, poderá ter surgido assim já antes de 1755 (quiçá até por volta de 1500, quando se acabava a contrução do Hospital Real, ou até antes?), quando a betesga lá estava e de tal forma era evidente o disparate de lá querer meter o Rossio.
Entretanto a betesga desapareceu, surgiu uma Rua da Betesga sem betesga, mas a memória do povo encarregou-se de manter a associação. Ainda que anos depois gerações “orfãs” da betesga tenham por vezes adaptado a expressão para “o Rossio na Rua da Betesga”, menos correcta e fiel ao original, mas que na prática… vai dar ao mesmo. Não tentem meter o Rossio na actual Rua da Betesga!