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sábado, 1 de agosto de 2009

Os Aventureiros, uma outra perspectiva

No seguimento do artigo anterior, trago para este blogue uma opinião diversa - e céptica - quanto à famosa lenda dos oito aventureiros lisboetas que, no tempo do domínio árabe, lançaram-se pelo Oceano fora, supostamente à descoberta. A opinião é de Garcia Domingues, ilustre historiador e filósofo arabista (infelizmente já falecido), em entrevista à revista Leonardo, dedicada à Filosofia (republicada recentemente):

L – Segundo as suas afirmações, as Descobertas não tinham qualquer finalidade? Nem a da constituição do V Império?

GD – Há uma mistificação da história das Descobertas, à qual estão a associar conotações políticas para justificar certa política anti-patriótica desenvolvida pelo Estado. Actualmente, os nossos dirigentes políticos têm vergonha de afirmar que fizémos a expansão, porque estão a encolher Portugal. Nós, Portugueses, estamos a voltar a casa, perdido o Ultramar. Não descobrimos nada. Não partíamos para resolver este problema: o que existe para além do mar? Nunca fizémos uma coisa destas. O que houve foi a expansão, um fenómeno de expansão. A primeira acção consistiu na tomada da Ceuta, uma vez que tinhamos chegado ao Algarve. Só depois, o Infante D. Henrique se instalou em Sagres, dando início às navegações até aos Açores e Madeira. O desejo de ultrapassar o território que possuíamos deu origem à expansão do domínio político, religioso e económico. Fomos à procura da cana-de-açucar, à procura do ouro e dos produtos exóticos. O que não significa que não houvesse pessoas que contribuíram para a expansão com a preocupação das Descobertas que resultam da ambição. É evidente que se fizeram algumas, mas foram sempre secundárias em relação às finalidades da expansão. As navegações determinaram o desenvolvimento das ciências naúticas e a invenção de instrumentos novos, como o nónio de Pedro Nunes. A expansão é algo de muito natural aos povos. Principalmente se há uma explosão demográfica…

L – No entanto, os Portugueses de Quinhentos não eram assim tantos…

GD – Certo. Mas as possibilidades da criar fontes de riqueza eram menores do que existem nos nossos dias. A expansão era encarada como uma possibilidade de vida.

L – Esse movimento não tinha uma finalidade superior?…

GD – Sim, de acordo, há uma finalidade, mas só foi percebida posteriormente pela história. É com a história que se formam as ideias nacionais e os ideais de um povo que, porventura, podem indicar uma finalidade. Por assim dizer, os povos nascem, crescem e morrem. Criam uma espécie de força própria. Entre nós, foi a força expansiva. Mas essas ideias mudam, embora se verifiquem determinadas constantes. Já existiam povos no território antes da formação de Portugal, mas só no século XV surgiu a vocação da marinhagem.

L – Os árabes contribuíram para essa gesta?

GD – Essa influência foi diminuta. Os árabes preocupavam-se bastante com os limites geográficos dos territórios e da astronomia, e os seus conhecimentos foram úteis às navegações. A propósito recordo aos senhores, a famosa lenda dos Aventureiros de Lisboa segundo a qual navegadores árabes aventuraram-se no mar oceano, procurando o seu fim. É mentira. No século XI, após as invasões normandas, o Amir de Córdova ordenou a constituição de uma poderosa esquadra muçulmana, sediada em Sevilha, que começou a ser construída em diversos pontos da região compreendida entre Almeria e Huelva. Por essa altura, formou-se na Alfama de Lisboa um núcleo de resistência aos normandos. A sua acção consistia na vigilância costeira assinalando a passagem dos barcos que pretendiam atacar populações do Sul. É claro que nessas missões, digamos assim, de espionagem, alguns navios tanto se afastaram da costa que se perderam. Um desses almirantes deu com as Canárias. Deste modo, nasceu a ideia lendária de que os navegadores partiam para encontrar o mar com fim. Mas essa não foi uma preocupação real. A ideia de expansão e de navegação surgiu mais tarde, já com o território português definido. Os Portugueses foram navegadores e marinheiros. Quanto ao Quinto Império tenho a dizer o seguinte: um mito! Trata-se de uma magicação do Padre António Vieira que não corresponde a coisa alguma.



É notório o cepticismo (relativo) de Garcia Domingues quanto à influência árabe em Portugal, a que não escapa o episódio dos Aventureiros (como o próprio reconhece na entrevista, soava bastante anti-árabe... para um arabista). Quanto ao referido episódio, contraria muito do que registou Idrisi vários séculos antes (e poucos depois do sucedido), o que não deixa de ser estranho. A rota seguida pelos Aventureiros, a ser verdadeira, não é coerente com a tese apontada (salvo manifesta azelhice dos marinheiros em causa). Por outro lado, não se entende a completa omissão quanto à ameaça normanda, que existiu de facto (profusamente documentada em outras fontes).
Quanto ao real desejo dos marinheiros, concordo, nem Idrisi nem nós podemos garantir que desejavam descobrir e conhecer. Quem sabe, não tenha sido aquela história, uma fanfarronice dos "Mugharrirun"? Não seriam os primeiros navegantes a fantasiar sobre as suas viagens!

Talvez tenhamos um problema de fontes, hoje conhecidas, mas às quais provavelmente Idrisi não teve acesso directo. Ou então, alguma confusão. Há outra lenda (?) que fala da viagem de um tal Khaskkash, almirante da esquadra omíada (este sim, com provas dadas contra os normandos) que, partindo da Andaluzia, terá atravessado o Oceano, supostamente atingindo outro continente, para além das Canárias. Haverá relação entre as histórias? Quem sabe...

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Os Aventureiros, precoces descobridores alfacinhas

Mais de 300 anos antes dos Descobrimentos, e das famosas partidas da praia do Restelo, houve oito lisboetas que se lançaram ao mar, animados pela mesma vontade de descobrir. Assim nos conta Muhammad [Maomé] Al-Idrisi (ou simplesmente, Edrisi), notável geógrafo do século XII, a propósito da sua descrição da cidade de Lisboa:

«[...]

Lisboa está construída na margem setentrional do rio Tejo; é aquele sobre o qual está localizada Toledo. A sua largura depois de Lisboa é de 6 milhas, e a maré faz-se ressentir violentamente. Esta bela cidade que se estende ao longo do rio, está limitada por muralhas e protegida por um castelo. No centro da cidade há fontes de água quente tanto no inverno como no verão.

Situada nas proximidades do Oceano, esta cidade tem à sua frente, na margem oposta, o forte de al-Ma’dan [Almada], assim designado porque o mar lança grãos de ouro na margem. Durante o inverno os habitantes da zona vão junto do forte à procura deste metal e isto dura até que acaba a estação rigorosa. É um facto curioso que nós mesmos testemunhámos [prova da presença de Idrisi em Lisboa].

Foi de Lisboa que partiram os Aventureiros, aquando da sua expedição tendo como objecto de saber o que continha o Oceano e quais eram os seus limites, como já foi dito. Existe ainda em Lisboa, perto dos banhos quentes, uma rua que se chama Rua dos Aventureiros.

Vejamos como a coisa se passou: eles reuniram-se ao número de oito, todos parentes próximos; e depois de terem construído um navio mercante, embarcaram água e víveres em quantidade suficiente para uma navegação de vários meses. Lançaram-se ao mar ao primeiro sopro de vento de este. Depois de terem navegado durante onze dias ou cerca disso, chegaram a um mar cujas ondas compactas exalavam um odor fétido, escondiam numerosos recifes que eram difíceis de ver. Temendo o perigo, mudaram a direcção das suas velas, correram para sul durante doze dias, e alcançaram a ilha dos Carneiros, onde numerosos rebanhos pastavam sem pastor e sem pessoa para os guardar.

Tendo posto pé nesta ilha, encontraram uma fonte água corrente e perto daí uma figueira selvagem. Apanharam e mataram algumas ovelhas, mas a carne era tão amarga que era impossível de comer. Só aproveitaram as peles. Navegaram ainda doze dias para sul e encontraram enfim uma ilha que parecia habitada e cultivada; aproximaram-se a fim de saber o que era; pouco tempo depois foram envolvidos por barcas, feitos prisioneiros e conduzidos a uma cidade situada no litoral. Desceram e foram conduzidos a uma casa onde viram homens de alta estatura e de cor alaranjada- avermelhada, que tinham pouca barba e mantinham os cabelos longos (não frisados), e as mulheres que eram de uma rara beleza. Durante três dias ficaram prisioneiros numa divisão desta casa. O quarto dia viram vir um homem falando uma língua árabe, que lhes pergunta o que eles eram, porque é que tinham vindo, e qual era o seu país. Eles contaram-lhe a sua aventura; aquele dá-lhes boas esperanças e fez-lhes saber que era um intérprete do rei. No dia seguinte foram apresentados ao rei, que lhe faz as mesmas perguntas e ao qual eles responderam, como já tinham feito no dia anterior ao intérprete, que se tinham aventurado ao mar para saber o que poderia ter de singular e de curioso, e a fim de constatar os seus limites extremos.

Logo que o rei os ouviu assim falar pôs-se a rir e disse ao intérprete: «Explica a esta gente que o meu pai tendo outrora prescrito a alguns dos seus escravos a embarcarem neste mar, eles percorreram-no, em largura, durante um mês, até que, a luz (do céu) lhes faltou, eles foram obrigados a renunciar a essa vã empresa. O rei ordena depois ao intérprete de transmitir aos aventureiros uma magnanimidade da sua pessoa, de forma a que eles ficassem com uma boa opinião dele, o que foi feito. Eles voltaram então à sua prisão, e aí ficaram até que um vento de oeste se elevasse e tapando-lhe os olhos, fê-los entrar numa barca e navegaram durante algum tempo no mar. «Nós andámos», disseram eles, «cerca de três dias e três noites, e atingimos de seguida uma terra onde nos desembarcam, com as mãos atadas atrás das costas, numa praia, onde fomos abandonados. Aí ficámos até ao nascer do sol, no mais triste estado, por causa das faixas que nos apertavam fortemente e nos incomodavam bastante; por fim, tendo ouvido ruído e vozes humanas, nós pusemo-nos a gritar. Então alguns habitantes do país vieram até nós, tendo-nos encontrado numa situação tão miserável, desataram-nos e fizeram-nos numerosas questões às quais nós respondemos pela narração da nossa aventura. Eram berberes. Um de entre eles disse-nos: «Vós sabeis qual é a distância que vos separa do vosso país?» E à nossa resposta negativa, ele acrescenta: «Entre o ponto onde vós vos encontrais e a vossa pátria há dois meses de caminho». O chefe dos aventureiros disse então: wâ asafi (interjeição de desespero: «!»); é por isso que o nome deste lugar ainda hoje é de Asafî. É o porto de que já falámos como estando na extremidade do ocidente.»


Neste texto de Idrisi encontramos, sem dúvida, muito do que veio a contribuir para a gloriosa época dos Descobrimentos, ainda que de forma indirecta. E é curioso e interessantíssimo o facto de terem sido lisboetas os tais Aventureiros, antecessores em façanhas (mas muito dificilmente, antepassados) dos intrépidos navegadores portugueses.

É comum reduzir a importância dos Descobrimentos a saber quem descobriu o quê pela primeira vez (e com isso, frequentemente, reduzir a importância das próprias Descobertas). Nesse sentido, o texto de Idrisi é mais uma peça para o “puzzle”. Não parece suscitar dúvidas que os Aventureiros terão chegado às Canárias, bem como, com grande probabilidade, à Madeira e/ou aos Açores (que tenham chegado à Grã-Bretanha/Irlanda ou à América, como suspeitam alguns, é pouco provável). Mas é também quase certo (por outras fontes) que qualquer um daqueles arquipélagos já teria sido visitado desde os tempos dos romanos, dos fenícios, ou por outros, anteriores àqueles (quem sabe?).
A meu ver, não ficam em causa os respectivos Descobrimentos (Séc. XV), na acepção que considero da palavra. Uma coisa é “achar”, outra é revelar para o Mundo (revelando o Mundo para os “achados”, nalguns casos). E assim, também a meu ver, a época dos Descobrimentos foi mesmo uma época de descobertas, talvez só igualada em importância pela remota (milenar e longuíssima) época em que os seres humanos, partido de África, foram descobrindo pela primeira vez todos (ou quase todos) os recantos deste mundo. Os portugueses redescobriram-no, redescobrindo e pondo em contacto todos (ou quase todos) os descendentes dessa antiquíssima diáspora africana. Como já alguns arriscaram afirmar… iniciámos a globalização (pelo menos a uma escala intercontinental, enfim, planetária).

Voltando à viagem dos Aventureiros, não se sabe com exactidão quando terá acontecido. Que terá sido anterior a 1147, data da conquista da cidade de Lisboa pelos portugueses, é garantia óbvia. Poderá ter acontecido nos séculos imediatamente anteriores a este relato (X, XI), pois o geógrafo deixa entender que a história era antiga (?). A título de curiosidade, ainda estava Idrisi concluindo as suas obras e já a Lisboa que descrevia (e visitou, de facto) tinha fechado aquele capítulo da sua história (domínio árabe) para sempre…
Por outro lado, Idrisi dá-nos a idéia que a história dos Aventureiros seria bastante popular e talvez até afamada além Al-Gharb (o ocidente da Península Ibéria conquistada), embora seja de sua autoria a única fonte até hoje conhecida. É certo que muitas fontes se terão perdido com a Reconquista, mas Idrisi indica que os Aventureiros eram gente comum, pelo que é natural que as suas aventuras tenham ficado gravadas “apenas” na voz do povo. Isso até 1147, embora não tivesse de ser, obrigatoriamente. De facto, muita coisa permaneceu da memória colectiva da Lisboa árabe, em especial da sua comunidade moçárabe (cristãos arabizados - se seria a maior da cidade, é discutível, mas que seria bastante numerosa, sem dúvida).

Quanto à identidade dos Aventureiros, não ficaram os nomes (sendo gente comum, é o mais natural), mas refere Idrisi a sua recordação na toponímia, em rua (ou ruela, mais provavelmente) lá para os lados de Alfama (pela referência aos banhos quentes). Lembraria a rua o local onde viviam (portanto, em Alfama)?

Apesar de tratar-se de gente comum, estou em crer que não seriam moçárabes (sem prejuízo de terem alguma origem moçárabe) mas sim “mouros” autênticos – que os havia em Alfama, estando os moçárabes afastados do centro, nos respectivos arrabaldes (embora também se dedicassem ao mar, sem dúvida). De qualquer forma, com a definitiva reconquista cristã da cidade, perdeu-se o nome da rua e também se perdeu a memória daquela aventura, reforçando a minha laica tese de que não seriam moçárabes, pois estes ainda conseguiram manter vivas muitas tradições – veja-se as raízes moçárabes da lenda de S. Vicente. A própria Alfama terá sido despida da “mourama”, depois confinada à Mouraria (ou expulsa para sempre da cidade, provavelmente).

Li algures que os oitos aventureiros seriam afinal oito fugitivos cristãos (incluindo um Arcebispo e vários Bispos), que teriam feito a viagem por altura da conquista árabe de Lisboa (Séc. VIII). Desconheço por completo fonte credível que o confirme, para além de que a versão de Idrisi é quase totalmente incompatível com tal versão (tal fuga só poderia ter corrido pior se tivessem acostado ao Egipto ou à Palestina!).
Seria a versão de Idrisi uma deturpação de uma estória original cristã ou moçárabe? Sinceramente, não me parece. Talvez esta versão, essa sim, possa ter resultado de deturpação posterior, de algum escriba português, que tendo ficado a conhecer a lenda dos Aventureiros, a “cristianizou” (fruto de preconceito que ainda hoje sobrevive).

Não há evidência que ligue directamente a viagem dos Aventureiros à origem dos Descobrimentos, mas sim, muita coisa em comum (digamos que uma ligação indirecta muito forte!). Se as próprias obras de Idrisi não eram bem conhecidas à época dos Descobrimentos (parece que não), algumas das suas fontes talvez, bem como fontes árabes contemporâneas que sim, talvez conhecessem a obra. Mas a viagem dos Aventureiros, em concreto, só nos aparece revelada e relembrada séculos mais tarde (com a redescoberta das obras de Idrisi).

Comum é o desejo, de saber “o que continha o Oceano e quais eram os seus limites”. Razões políticas, estratégicas ou religiosas aparte, sempre acreditei que uma das principais motivações dos Descobrimentos teria sido aquela curiosidade, que era mais do que científica. No Mediterrâneo, tudo era conhecido e (relativamente) pacífico. Para os que chegavam ao Ocidente (da península Ibéria ou Magrebe), fenícios, romanos e árabes, o Atlântico era estranho, aterrador, avassalador. Na verdade o Oceano para esses não era um mar maior (que o Mediterrâneo, nomeadamente), mas uma antecâmara das orlas do mundo, onde não havia mais terra, para além das quais não valia a pena ir, sobretudo porque não havia a opção de regressar (acreditavam). O próprio Idrisi, mesmo admitindo a existência das tais ilhas (mesmo em grande número), não se convenceu do contrário:

«O oceano rodeia os limites terrestres e tudo para além daí é desconhecido. Ninguém foi capaz de verificar o que quer que fosse, devido às dificuldades e perigos da navegação, a sua grande obscuridade, profundidade e tempestades frequentes; devido ao medo dos peixes monstruosos e terríveis ventos; no entanto existem muitas ilhas, umas com gente e outras desabitadas. Nenhum marinheiro se arrisca a entrar nessas águas profundas, e se alguns o fizeram, foi percorrendo ao longo das costas terrestres, receosos de se afastar demasiado. As ondas deste oceano, embora movendo-se com altura de montanhas, mantêm-se inteiras e sem se quebrar, porque se se quebrassem, seria impossível para um barco ultrapassá-las»


Assim se conformava quem cá chegava, ou quem por cá passava (diga-se que Idrisi acaba por não ser muito animador para futuros exploradores). E quem cá ficou?
Para quem habitou e habita esta “Ocidental Praia”, viver de frente para o fim do mundo (e de costas para o dito) era (e é) pena difícil de conformar. Os Aventureiros, como outros depois deles (e também antes) sentiram tal angústia. Imbuídos do tal espírito de “Mugharrirunes”, fizeram-se ao mar.

Embora nunca venhamos a saber exactamente quem eram aqueles heróis, a cidade de Lisboa ainda hoje os lembra, não em Alfama, mas no actual Parque das Nações, onde foi aberta uma nova “Rua dos Aventureiros” (Idrisi ficaria perdido!).

Por ironia do destino, a Ceuta natal de Idrisi também seria conquistada pelos portugueses (1415), tomada essa que marcou o início da nova gesta, de novos aventureiros lisboetas (ler neste mesmo blogue, sobre a origem da bandeira de Lisboa… e da de Ceuta, desde então e até hoje imagem da primeira).

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Sobre a bandeira de Lisboa

A bandeira de Lisboa, tal como "definitivamente" estipulado em 1940 por proposta da Comissão de Heráldica da Associação dos Arqueólogos Portugueses, é assim descrita:
Gironada de branco e negro de oito peças [os "triângulos"], com o brasão de armas sobreposto. Cordões e bolas de prata e negro. Haste e lanças douradas [estandarte]. Como a peça principal das Armas é o barco, que é de prata e negro, a bandeira é branca, representando a prata, e a negro.


Quanto ao brasão:
Armas de ouro, com um barco exteriormente de negro realçado de prata, e interiormente de prata realçado de negro, mastreado e encordado de negro, com uma vela ferrada de cinco bolsas de prata. A proa e a popa rematadas por dois corvos de negro afrontados. Leme de negro realçado de prata. O barco assente num mar de sete faixas onduladas. Coroa mural de ouro de cinco torres. Colar da Torre e Espada. Listel branco com os dizeres ‘Mui Nobre e Sempre Leal Cidade de Lisboa’ a negro.




Aquela que é hoje a bandeira municipal do Concelho de Lisboa tem origens antigas, entrelaçadas com alguns dos mais importantes momentos da história da cidade (e em simultâneo, do País) mas também, inevitavelmente, com as referências religiosas que marcaram aqueles acontecimentos e a própria sociedade, ao tempo em que ocorreram.
Na revisão de 1940, após séculos de sucessivos golpes de "heterodoxia", pretendeu-se um regresso à heráldica original, na medida do possível, para - entre outras razões - preservar os significados originais. Por esta mesma razão, que é válida quanto baste e porque esse regresso foi, em larga medida, conseguido, não irei tratar aqui da evolução dos símbolos, entendida como um prolongado e sinuoso desvio... ainda que de inegável interesse (para outra ocasião e outra perspectiva).

Mas, ainda antes de passar às origens, permitam um pequeno e leve comentário sobre o aspecto visual da bandeira, e o que suscita. Desde logo, uma cor parece ter predomínio estranho, se ignorarmos origens e significados: o negro (se não reparou, leia de novo a descrição inicial e conte).
Para uma cidade poética e insistentemente associada à luz, à claridade, o negro apela para as suas sombras, para os seus recantos, para a noite... ou para o luto. E por luto... estão lá os corvos, fúnebres sentinelas que acompanham os restos mortais do Santo.
Temos um contraste entre o que em Lisboa se contrasta, mas também se complementa: a alvura da cidade, do seu casario, e das igrejas; mais o negro da estimada e afamada melancolia, cantada em fados, entre outros tratos. A aparência e o sentir.
Se olharmos para as origens, porém, nada disso importa. Poder e Fé, por esta ordem, falam mais alto. Afinal, não é do que tratam as bandeiras?

Sendo certo que sofreu várias transformações pelo caminho (as quais não vou tratar neste artigo, repito), pode dizer-se com alguma segurança que a actual bandeira de Lisboa tem origem naquela que terá surgido após a "revolução" ou "crise" de 1383-1385 (conjunto bandeira e brasão, note-se, pois o brasão é anterior). A melhor prova temo-la na bandeira de Ceuta, cidade que mantém desde a sua conquista (1415) até hoje uma bandeira igual à de Lisboa (com excepção do brasão, que no entanto é o de Portugal). Reza a crónica de Azurara que, uma vez tomado o bastião magrebino, El Rei D. João I pediu (ou ordenou) a João Vasques de Almada que colocasse a bandeira da cidade de Lisboa, que este trazia, no alto do Castelo (supostamente à falta de estandarte real). De notar o significado particular deste acontecimento para o estatuto da cidade de Lisboa, em novo contexto histórico.

Que o brasão - de S. Vicente - tem origem anterior, é certo, e já lá vamos. Mas, sobre a bandeira propriamente dita ("gironada" de negro e branco), consta que foi o próprio João da Regras que sugeriu o formato, à imagem do escudo da Ordem de São Domingos, por ter sido no importantíssimo e central mosteiro daquela ordem que o povo de Lisboa aclamou o Mestre como "Regedor e Defensor do Reino". Com efeito, as oito peças negras e brancas estavam no escudo da Ordem de São Domingos (também conhecida como Ordem dos Pregadores). E lá continuam, até hoje...
Quanto à relação entre o Doutor João das Regras e a Ordem de S. Domingos, há mais que contar.
Como uma de várias recompensas pelos serviços prestados, D. João I doou ao jurista os terrenos da Quinta de São Domingos, onde viria a erguer a igreja de São Domingos de Benfica, onde aliás estão ainda hoje os restos mortais de João das Regras. Não bastando isto - mas é facto menos divulgado - saiba-se que foi na cidade de Bolonha (onde João das Regras se formou) que faleceu o próprio São Domingos, pouco mais de 150 anos antes. Isto depois de ter tornado aquela cidade uma verdadeira "capital" daquela ordem. Acasos? Não creio, seguramente.
Devemos às andanças de João das Regras por Bolonha o facto de termos a bandeira negra e branca? E, algures no Largo de São Domingos e actual igreja, poderemos recordar o local inspirador...


Escudo da Ordem de S. Domingos (ainda actual)


Passo então à origem do brasão... sumariamente, pois há abundante literatura, como houve abundantes variações do mesmo, ao longo destes séculos.
A famosa barca de São Vicente, com os corvos, é símbolo que remonta aos primeiros tempos da cidade após a conquista aos mouros, mais concretamente ao momento em que chegaram as relíquias do Santo à cidade (1173) - assunto que tenho abordado com frequência neste blogue. Tendo em conta que o primeiro foral foi concedido em 1179, terá sido por esta altura que o Concelho foi autorizado a utilizar os símbolos vicentinos no selo da cidade - do qual chegou até nós um exemplar datado de 1233.
É de lembrar que a intenção de Afonso Henriques, de resgatar as relíquias, era anterior à conquista de Lisboa, e poderia ter favorecido Braga ou Coimbra. No entanto, goradas as anteriores tentativas, coube a sorte a Lisboa. Segundo relato coevo (os Miracula Sancti Vincentii, escritos entre 1173 e 1185), foi o próprio São Vicente que teve "preferência" por Lisboa, um "milagre" (a par de outros) com significado bem mais terreno (ver Picoito, 2008):

(...) porque a ele [S. Vicente] lhe aprouvera ser venerado de preferência pela gente de Lisboa e a intenção do rei era, pelo contrário, depositá-lo em Braga ou em Coimbra, já que a misericórdia divina ainda não lhe entregara Lisboa (...)

Por intervenção sobrenatural ou não, não se deu o caso (ou acaso), com o qual S. Vicente, os corvos e a barca ficariam arredados da história e dos símbolos lisboetas (estariam presentes em Braga ou Coimbra?).


O Selo de 1233


Das múltiplas variações que sofreu o brasão, há que referir que a dado momento poderá ter incluído a imagem do próprio Santo. Assim sugere um documento relativo à escolha do santo padroeiro da cidade do Funchal, por exemplo, onde se refere expressamente que o dito padroeiro (São Tiago Menor, o ápostolo) deve figurar no brasão da diocese tal como São Vicente figurava então na bandeira de Lisboa. Ou seria apenas na bandeira da diocese? Teixeira de Carvalho e Virgílio Correia, nos seus "Subsídios para a História da Arte Portugueza" (1922), referem:

A Bandeira de Lisboa no Reinado de D. João I tinha huma pintura de S. Vicente, Protector da nossa Capital e consta que esta Bandeira fora arvorada por João Vasques de Almada no Castello de Ceuta, quando o mesmo Rei tomou aquella Cidade.
E até 1383, teve a cidade alguma bandeira? Há quem assegure que sim, e é muito provável. Na própria "Crónica de D. João I", de Fernão Lopes, temos referências a bandeiras "regionais", empunhadas em plenas pelejas - não só da cidade de Lisboa, mas também de várias vilas de Portugal (como a de Elvas, por exemplo). Não parece que tal costume fosse uma das inovações militares da época.
Mas quando é que essas bandeiras primeiro apareceram, a par de bandeiras senhoriais, bandeiras das ordens militares, religiosas e, enfim, da bandeira régia? Fica a questão em aberto.
E antes da reconquista cristã (nos períodos muçulmano e romano, por exemplo)? Que símbolos teve a cidade? É outra questão em aberto... sem quaisquer vestígios até à data que permitam esboçar uma resposta.

Quanto ao brasão (esse sim, anterior), também há quem fale num corvo (não dois)... e uma águia. É curioso, pois as lendas falam de um corvo apenas... quer a lenda do martírio (em Saragoça), quer certas versões da lenda da viagem das relíquias (desde o Algarve até Lisboa). Não cabe aqui aprofundar a questão dos corvos e respectiva simbologia (tema vastíssimo!). Já referimos a origem que consideramos verosímil e fiável, por ratificação ou ordem de Afonso Henriques, mas temos também bastantes provas da utilização "pública" daqueles símbolos nas décadas seguintes. A lápide do Chafariz do Andaluz (1336) é talvez a mais importante (das ainda hoje existentes) e a evidente semelhança com o actual símbolo reforça, uma vez mais, que a revisão de 1940 significou um regresso às origens. Nesta ocasião refere-se expressamente que o modelo naval utilizado "deve figurar como uma estilização das linhas gerais de um barco e não como um tipo de construção naval de acordo com o desejo de cada época" (após a utilização dos mais variados tipos, desde galés romanas a naus, caravelas e galeões - por aquele andar hoje teríamos fragatas?). Assim, a semelhança com o Chafariz é involuntária? Ou teve a mesma idéia - feliz, diga-se - o escultor de 1336?
Quanto aos corvos... são dois, pois.


Pormenor do Chafariz do Andaluz (1336): a referência


Como referi no início, dois momentos importantes da história de Lisboa inspiraram a bandeira da cidade. O primeiro, de conquista, derrota do poder mourisco, consolidação do Reino de Portugal, afirmação do Rei entre a Cristandade, consagração de Lisboa - "reconvertida" - à mesma Cristandade, conciliando a fé antiga de moçárabes e portugueses, sob os auspícios de São Vicente.
Quanto ao segundo momento, temos grandes diferenças, mas igual peso na história. Trata-se de outra "era" que começa, como refere Fernão Lopes, algo que tem tido múltiplas interpretações (e não raramente equívocas do ponto de vista histórico). Mas, para o caso de Lisboa, penso que não erraremos muito ao considerar que a crise de 1383-85 ficou marcada pela afirmação da cidade, do seu poder, e pela firme determinação dos lisboetas, sem as quais teria fracassado o movimento do Mestre, Nun'Álvares, João das Regras, Álvaro Pais e respectiva companhia. Ali, com a benção de S. Domingos de Gusmão e dos seus frades, de negros mantos (a condizer).
Se no primeiro momento tivémos conquista, no segundo tivémos defesa. Conquista e defesa de Lisboa, mas também conquista e defesa da independência de Portugal.

Gostaria ainda de mencionar alguns outros aspectos e momentos históricos associados à bandeira de Lisboa. Já referi o episódio de Ceuta, que tomou bandeira semelhante e a manteve, mesmo depois de 1640. E por falar em 1640, logo após o sucesso dos conjurados, no Paço (e para mal do Vasconcellos), foi o povo invadir o Senado de Lisboa, onde o respectivo presidente lhes entregou a bandeira da cidade, para proceder à proclamação do novo rei (D. João IV).
Outro facto, bem mais recente, é relacionado com a "reforma" da heráldica municipal efectuada nos anos 30 do Século XX. Foi com base na bandeira de Lisboa - e portanto, indirectamente, no brasão dos dominicanos - que ficou estabelecido que todas as bandeiras municipais (municípios cuja sede seja cidade) deveriam ser também "gironadas", com as mesmas partes (com cores próprias, naturalmente). A centenária bandeira foi modelo para todas as outras...


A bandeira de Ceuta



Fontes:
Margarida Fragoso, "O Emblema da Cidade de Lisboa", 2002
Pedro Picoito, "A Trasladação de S. Vicente. Consenso e Conflito na Lisboa do século XII", Revista Medievalista, nº4, 2008
Marina Tavares Dias, "Lisboa Misteriosa", 2004
Teixeira de Carvalho e Virgílio Correia, "Subsídios para a História da Arte Portugueza - Collecção de memorias (...)", 1922


Online:
Câmara Municipal de Lisboa (http://www.cm-lisboa.pt/?idc=2)
Bandeiras (http://www.tuvalkin.web.pt/terravista/Guincho/1421/bandeira/pt-lsb.htm)
Igreja de São Domingos (http://www.isdomingos.com/index.asp?art=6534 )

terça-feira, 28 de abril de 2009

Apontamentos sobre a História de Lisboa (IV): Lisboa romana

Se quanto à origem e fundação de Lisboa subsistem muitas dúvidas, já sobre a presença dos romanos a informação, ainda que por vezes imperfeita, é bem mais rica.
Mas ainda antes de passarmos ao início da "romanização" de Lisboa, vale a pena tentar (e é mesmo tentar!) recontruir o cenário "pré-romano", aproveitando para tal alguns dos elementos anteriormente apresentados.

Há questões intrigantes que merecem atenção. Porque é que a cidade de Lisboa, aparentemente, terá sido uma das primeiras e principais aliadas dos romanos? Qual o papel de Lisboa nas Guerras Púnicas, que opuseram os romanos a cartagineses? Qual a caracterização de Lisboa no seio de um variado grupo de povos de diversas origens (Lusitanos, Túrdulos, Célticos, Cónios, Turdetanos, entre outros)?

Afinal, que Lisboa existia ao tempo da chegada dos romanos? Uma antiga colónia fenícia? Como já aqui apontámos, essa hipótese carece de sólidos fundamentos. À semelhança de outros casos, a Lisboa que recebia produtos mediterrânicos (fenícios, egípcios e até, a dada altura, gregos), e que em troca negociava matérias-primas do Norte da Península e do Norte da Europa (incluindo as Ilhas Britânicas) deverá ter sido uma cidade com um autonomia considerável, cosmopolita e - já então - ponto de encontro de diversos povos... mas não tantos como isso.

Analisando as fontes históricas, chegamos à conclusão que a parte Ocidental da Península Ibérica, ao tempo da chegada dos romanos, era praticamente desconhecida para estes. Para o efeito vale a pena recordar uma passagem de Políbio (geógrafo grego que vivia em Roma): "(...) a parte [da Península] que se estende junto ao Mar Externo ou Grande não tem denominação geral, porque não foi descoberta senão recentemente, e é habitada exclusivamente por várias tribos bárbaras, que são numerosas (...)". Isto por oposição à "Ibéria", que Políbio refere como sendo a parte "mediterrânica" da Península (entre o Ebro e o Estreito de Gibraltar), que era já bem conhecida.

De qualquer forma, apesar daquela introdução, Políbio descreveu aquilo que conhecia da zona, apontando singularidades da fauna e actividades humanas (mais que fornecer uma exaustiva descrição geográfica).
No entanto, é de assinalar que existe uma razão forte para que se dê crédito aos testemunhos de Políbio, uma vez que este acompanhou bem de perto as primeiras incursões romanas na região, a pretexto das lutas contra Cartago - lutas essas que foram o principal motivo que trouxe os romanos à Península Ibérica, precisamente.

Tendo em conta que a primeira incursão terá ocorrido cerca de 218 a.C., justifica-se assim a referência de Políbio a um conhecimento "recente" (de apenas algumas décadas, à época do autor). É certo que o mesmo não sucedia com os cartagineses, que conheciam bem a região, mas esses eram o "inimigo", e para além disso tinham mantido um acesso exclusivo à mesma durante quase três séculos, mediante sucessivos acordos com a República Romana.
As afirmações de Políbio atestam assim a eficácia da "proibição" cartaginesa.

Contudo, eram também conhecidas as viagens de exploradores gregos, alguns oriundos da colónia de Massália (Marselha). Como a de Píteas, ou a do anónimo autor do famoso "Périplo Massaliota" - que Avieno trataria de recuperar séculos depois. Políbio, conhecedor do relato de Píteas, revela-se bastante céptico quanto à sua veracidade. Deitou por terra, por exemplo, a hipótese de que o herói Ulisses (em grego, Odysseus) alguma vez tenha alcançado o Estreito de Gibraltar. Não seria o único.
E, hoje em dia, embora seja difícil contestar boa parte do périplo de Píteas (sobretudo as viagens a Norte), permanece duvidosa a parte respeitante à Península Ibérica. Alguns autores adiantam mesmo que Píteas terá partido da costa atlântica de França (depois de viajar por terra desde Marselha), "contornando" assim o bloqueio de Cartago.

De tudo isto podemos concluir (novamente!) que a presença dos gregos nas costas atlânticas da Ibéria terá sido, nas melhor das hipóteses, esporádica (e até furtiva). Não faz assim sentido considerar que tivessem existido colónias gregas ao longo da costa atlântica, como alguns querem fazer crer, suportados num único fundamento minimamente verosímil: achados de cerâmica de origem grega, que o mais natural é que tenham chegado através das rotas comerciais cartaginesas (como tantos outros produtos de diversas regiões do Mediterrâneo).
E com isto, voltamos a insistir, carece de fundamento a hipótese de uma Lisboa "grega".

Para lá da "muralha" cartaginesa (e fenícia, antes dela) ficava então a Lisboa "desconhecida". Embora não sejamos favoráveis às teses que defendem uma colonização fenícia ou cartaginesa da região de Lisboa, é inegável a influência que aqueles povos semitas tiveram (considerando-se inclusivé uma presença prematura de elementos hebraicos).
E parece difícil contrariar a idéia de que o nome de Lisboa se deve também aos fenícios. A teoria mais comum refere "Allis Ubbo", que supostamente significa "enseada amena". Se o topónimo se referia inicialmente ao estuário (ou ao esteiro da Baixa?) e posteriormente se passou a aplicar à cidade, é um dos assuntos questionáveis nesta interpretação. Bem mais atraente, embora (ainda) estranhamente circunscrita aos meios "académicos" é a teoria de que o primeiro nome de Lisboa era "Allis-ippo" (ou "Alliz-ippo"). Não é difícil encontrar "ippo" ou "ipo" (como prefixo ou sufixo) em nomes antigos de muitas localidades do Sudoeste Peninsular referidos pelos romanos, revelando toda uma área de influência com grande concentração no golfo de Cádis, seguindo pelo litoral português, em cidades costeiras ou com acesso privilegiado ao mar por via fluvial (como Collipo).
À partida, este facto confirma a situação de Lisboa no seu primeiro milénio, sob forte influência dos povos instalados no Sul da Península.
Na língua semita, "Allis", como se pode comprovar ainda no moderno hebraico (e poderá estar na origem do nome Alice!) significa feliz ou alegre. Aqui, o significado não difere em muito do entendido em "Allis Ubbo". "Allis-ippo" ou "Olisipo" (ao ouvido de um romano) seria então a "cidade feliz" ou "cidade alegre".
Ainda que se conteste a presença intensiva dos fenícios em Lisboa, o mais natural é que tenha sido o nome de baptismo que estes lhe deram aquele que passou a ser conhecido no Mediterrâneo. No entanto é curioso que a grande maioria dos locais onde encontramos "ippo"/"ipo" seja apenas na Península Ibérica (havia mais Fenícia e Cartago)... Por outro lado, também é verdade que, mesmo no Sul da Península, a "ocupação" efectiva por parte daqueles povos foi relativamente tardia.
Poderemos então considerar uma origem tartéssica ou cinética/cónia (aqui considerando uma forte afinidade entre estes dois povos, como autóctones e em maior ou menor grau fortemente influenciados pelo Oriente púnico - veja-se o caso das antigas escritas do Sul)? É possível.
Quanto ao "nome", não há certezas, mas creio que há hipóteses claramente descartáveis (embora continuem a ser "populares")... tal como há fortes "suspeitos"...

Se Lisboa não era uma cidade fenícia, quem poderiam ser os lisboetas? Turdetanos e Túrdulos (frequentemente considerados como dois ramos do mesmo povo), como já referimos, poderiam ser bons candidatos. Vários escritores romanos reconhecem a influência fenícia sobre estes povos, considerados como os mais avançados da Península Ibérica. Independentemente da sua denominação e da sua "filiação" étnica ou política, o que parece merecer poucas dúvidas é que a cidade primitiva, sendo para todos os efeitos costeira, desde cedo esteve ligada ao mar e a dois grandes eixos, mediterrânico e (norte) atlântico. De certa forma as influências "continentais", marcantes em certas zonas do interior, diluiram-se neste extremo peninsular, numa aculturação precoce que, por sua vez, talvez justifique a relativa facilidade com que os lisboetas se sujeitaram (ou se entregaram) a nova aculturação, com a chegada dos romanos.

Vejamos agora um interessante - e relativamente recente - contributo para estas matérias em particular. Está em Castelhano mas creio que resume bem o estado da questão, não esquecendo os avanços de arqueólogos e historiadores de ambos os lados da Península:

REVISTA PORTUGUESA DE Arqueologia.volume 8.número 2.2005, p.193-213
MARIANO TORRES ORTIZ

¿Una colonización tartésica en el interfluvio Tajo-Sado durante la Primera Edad del hierro?

"(...) se puede afirmar que en la desembocadura de los ríos Tajo y Sado existen una serie de topónimos en -ipo que deben ser forzosamente relacionados con las poblaciones tartésicas del valle del Guadalquivir, lo que también viene demostrado tanto por la onomástica de los magistrados monetales presentes en las acuñaciones de Alcácer do Sal cómo por la consideración por Ptolomeo (II, 5, 2-4) de las ciudades de Salacia, Caetobriga, Myrtilis y Pax Iulia como turdetanas, y la mención a los oppida Turdulorum y los Turduli Veteres en esta zona por Plinio (Nat. hist. IV, 113) y Mela (de chor. III, 1, 6).
Igualmente, el análisis de la necrópolis de Alcácer muestra indudables paralelismos conotras del área tartésica, como la Cruz del Negro y Medellín, con dos fases sucesivas de enterramientos en urna y posteriormente en fosa de cremación individual, no documentándose las necrópolis de encachados tumulares tan comunes en el sur de Portugal. Esa misma matriz orientalizante y mediterránea se observa en los materiales excavados en el cerro del Castillo (Tavares da Silva et al., 1980-1981; Paixão, 2001), documentándose incluso exvotos de bronce similares a los hallados en Medellín y en barro en Bencarrón, en los Alcores de Carmona. Tanto en Alcácer do Sal como en Santarém se observa esa continuidad orientalizante hasta época romana republicana, lo que sugiere un ambiente cultural distinto entre esta zona y el resto del sur de Portugal, donde las penetraciones culturales meseteñas son evidentes desde fines del siglo V o inicios del IV a.C., un proceso igualmente bien documentado en Extremadura (Berrocal, 1992, p. 275 y ss., 1995, p. 168-176; Rodríguez Díaz, 1995).
Otras evidencias materiales, como las cerámicas de retícula bruñida, los grafitos en escritura paleohispánica, las fíbulas y los jarros de bronce piriformes y los braserillos también apuntan a la filiación cultural tartésica de las poblaciones asentadas en las desembocaduras de los ríos Tajo y Sado.
En consecuencia, se propone la hipótesis de que estas poblaciones son el pueblo que aparece mencionado en la Ora Maritima de Avieno con el nombre de Cempsos (O. M. 195-196, 200).
Éstos habían poseído anteriormente la isla de Cartare (O. M. 257), situada por todos los editores y comentaristas de Avieno en las costas del Lago Ligustino.

No obstante, siempre se les ha considerado, junto a los Sefes, tribus célticas o, más genéricamente, indoeuropeas, por su situación en la costa atlántica de la Península Ibérica y la mención de los Keltoi "más allá de" los Kynesioi por parte de Herodoto (II, 33), habiéndose buscado igualmente relacionar este etnónimo con otros de la Europa indoeuropea (Schulten, 1922, p. 29--30, 93; Bosch Gimpera, 1932, p. 503, 1942, p. 70-71, 74-75; Almagro Basch, 1966, p. 212, 214; Tovar, 1976, p. 195-196; Silva y Gomes, 1992, p. 168; Fabião, 1993, p. 156; Mangas y Plácido,1994, p. 73; Alarcão, 1996, p. 24).
Sin embargo, Alarcão (2001, p. 322) señala que si no fuese porque Lambrino sostiene que el etnónimo de los Sefes es indoeuropeo, se podría admitir un origen para este pueblo en el sur de la Península Ibérica donde, nótese bien, también habitaban los Cempsi, para los que Corrêa (1924, p. 88-89) señala que su celticidad no está demostrada, aunque no la descarta, y Berrocal (1992, p. 32) advierte que nada los define como célticos.
Así, lo que muestra el poema es que en la segunda mitad del siglo VI a.C. todavía se recordaba el origen en el área tartésica de este pueblo (para una fecha del siglo VI a.C. de parte del material de la Ora Marítima de Avieno, cf. Schulten, 1922; Antonelli, 1998), lo que coincide con la colonización tartésica de esta zona que se plantea en este trabajo en un momento que aún no se puede fechar con precisión pero que debe ascender como mínimo a fines del siglo VII a.C., si no ya a fines del VIII, cuando se fechan las evidencias orientalizantes más antiguas en Lisboa ySantarém (Arruda, 2002, p. 120, 185-186).
Este asentamiento de poblaciones de origen tartésico en las desembocaduras del Tajo y del Sado explica también la mención al camino que desde la península de Lisboa llevaba a las costas tartésicas en cuatro días (O. M. 179-180), una ruta que complementaba las comunicaciones en una zona donde el viaje por mar, aún siendo posible, es complicado ante la dificultad de doblar el cabo de San Vicente, además de proporcionar una ruta alternativa durante el invierno, época en la que se evitaba navegar en la Antigüedad.
La razón del establecimiento de estas poblaciones en la Península de Lisboa sería principalmente comercial, como una estrategia más por el dominio de las rutas que comercializaban el estaño y otros metales por parte de las entidades políticas ubicadas en el valle del Guadalquivir, razón aducida también para justificar el interés fenicio en la zona (Arruda, 1993, p. 207-208, 2002, p. 100, 223).
Sin embargo, otra razón hay que buscarla en la propia dinámica interna de las poblaciones tartésicas del bajo Guadalquivir y de la cuenca media del Guadiana, para las que se ha planteado que en el siglo VII a.C. se efectuaría una colonización agrícola de la tierra disponible dentro del marco de la aparición de núcleos verdaderamente urbanos en toda la zona, como sería el caso de Medellín en el curso medio del Guadiana, a causa de un proceso de marcado crecimiento demográfico (Almagro-Gorbea, 1990, p. 98-100, 1996, p. 67-68).
De hecho, podemos estar ante lo que Ruiz Zapatero (1995, p. 33-34) denomina "modelo
socioeconómico expansivo", definido por este investigador para explicar la expansión interna de los Campos de Urnas en la Península Ibérica. Así, la existencia de una nueva base subsistencial, que en la adaptación al área de Lisboa vendría dada por la adopción de introducción del cultivo de la vid y del olivo a la explotación agropecuaria del Bronce Final (Arruda, 2003, p. 208, 210, 215; Barros, Cardoso y Sabrosa, 1993, p. 166), una nueva organización social y un ritual funerario ligado al surgimiento de los primeros núcleos urbanos, como evidencian las necrópolis
de la Cruz del Negro y Medellín (Almagro-Gorbea, 1996, p. 64), y nuevos desarrollos tecnológicos, que aquí habría que vincular a la generalización de la metalurgia del hierro y, posiblemente, de la plata (Barros, Cardoso y Sabrosa, 1993, p. 159), serían lo suficientemente atractivas como para ser adoptadas por las poblaciones locales. Todo ello con un estímulo externo no necesariamente importante en términos demográficos, procedente desde el valle medio del Guadiana (vid. el siguiente párrafo), aunque la adopción de los topónimos en -ipo y de la escritura tartésica
en Alcácer do Sal sugiere incluso una sustitución lingüística que podría a su vez indicar un aporte demográfico importante.
Dentro de esta dinámica expansionista se efectuaría el poblamiento de la península de Lisboa desde el codo del Guadiana, a través de la zona de Beja hasta las desembocaduras de los ríos Tajo y Sado. En este sentido, el proceso recordaría mucho a la expansión vilanoviana y a la colonización etrusca de la llanura del Po por parte de los etruscos desde el siglo VI a.C. (Torelli, 1996, p. 44; Bartoloni, 2001; Bonghi Jovino, 2001; Sassatelli, 2001), en un proceso estructuralmente semejante de creación y consolidación de los núcleos urbanos.
De esta forma, se observa como sobre la población del Bronce Final caracterizada por las cerámicas con decoración bruñida propias de los estilos Lapa do Fumo y Alpiarça del valle del Tajo (Cardoso, 1995) se superpone ya en la Primera Edad del Hierro la llegada de un nuevo contingente demográfico, que tanto por su cultura material como por los topónimos usados deben ser consideradas tartésicas, que interaccionará con el sustrato local.
Así, se observa la discontinuidad entre las fases II y III del cerro del Castillo de Alcácer do Sal (Tavares da Silva et al., 1980-1981, p. 170 y ss., 210-211), donde a un horizonte de cerámicas a mano del Bronce Final se superpone a fines del siglo VII a.C. un numeroso conjunto de cerámicas orientalizantes tanto bícromas como de barniz rojo que muestran evidentes relaciones con las documentadas en Medellín y en el área onubense.
Esta cesura en el registro se observa igualmente en Almaraz, donde a un hábitat del Bronce Final con producciones cerámicas únicamente a mano se sobrepone otro con la misma cronología de inicio que Alcácer do Sal, fines del siglo VII a.C., con muestras evidentes de la llegada de una población alóctona a la zona considerada fenicia por Cardoso (1995, p. 52) pero que más bien habría que considera tartésica en función de la toponimia prerromana documentada en esta región portuguesa.
El panorama está menos claro en Santarém, aunque parecen existir evidencias de un nivel del Bronce Final en la Alcáçova sobre el que se superponen a fines del siglo VIII a.C. los niveles con materiales orientalizantes de tipología fenicia y a mano propios del bajo Guadalquivir (Arruda, 2002, p. 223), aunque aún es difícil comprender cuál ha sido la dinámica del proceso. En su conjunto, parece asistirse a un proceso de "colonización" tartésica en el que se asimilará la población
residente en la región en ese momento, dando lugar a la caracterización turdetana que va a poseer esta zona en las fuentes clásicas de los siglos I-II de la era.
Sin embargo, es difícil discernir si este proceso de colonización se efectúo por vía marítima a través de las costas atlánticas o, por el contrario, se produjo por vía terrestre a través del valle medio del Guadiana, que ya desde el Bronce Final presenta una notable homogeneidad de materiales con la baja Andalucía, como evidencian el lote cerámico hallado en el teatro romano de Medellín (del Amo, 1973; Almagro-Gorbea, 1977, p. 102-104, figs. 48-49) y por otros hallazgos en la actual provincia de Badajoz (Enríquez Navascués, 1990; Rodríguez Díaz y Enríquez Navascués,
2001, p. 112 y ss.).
No obstante, la vía terrestre constituye actualmente la hipótesis más económica, aunque debería ser confirmada por nuevos hallazgos en la franja de territorio portugués que se extiende entre la curva del Guadiana, precisamente frontera en el Bronce Final entre las cerámicas con decoración bruñida interna y externa (Enríquez Navascués, 1990, p. 76-77, figs. 2 y 5; Rodríguez Díaz y Enríquez Navascués, 2001, p. 116), y la península de Lisboa.

En este sentido, una etapa intermedia entre la desembocadura del Tajo y la cuenca media de este río, y quizá con la Extremadura, tal vez vendría marcada por el horizonte de la Edad del Hierro del yacimiento de Cachouça, aunque el material reseñado tras la una ocupación del Bronce Final parece señalar ya a un momento muy avanzado de la Primera Edad del Hierro, hacia mediados del siglo VI a.C., como sugieren las cuentas oculadas de vidrio, un amphoriskos del mismo material, una terracota quizá en forma de ave, una fíbula de apéndice caudal (¿tipo Acebuchal?)
y los platos y cuencos de borde engrosado fabricados en cerámica gris a torno (Vilaça, 2000, p.175; Vilaça y Arruda, 2004, p. 23-24), lo que no permite enlazar con los materiales de los siglos VIII-VI A. C. excavados en Santarém, Almada y Lisboa.
Todo ello llevaría a discutir finalmente la propuesta de otros investigadores de una migración precisamente desde estas áreas, Extremadura y el occidente de Portugal, hacia la baja Andalucía, ya porque ésta se hallaría despoblada (Belén y Escacena, 1992, p. 71), ya por la atracción económica ejercida desde el núcleo tartésico y que se vería plasmada en el área de distribución de las estelas extremeñas (Celestino, 1998, 2001, p. 276, 293). El proceso que se propone aquí es el contrario, con una expansión desde el área nuclear tartésica del bajo Guadalquivir en una primera
fase hasta la baja Extremadura y, posteriormente, hasta las regiones del centro de Portugal seguramente con la intención tanto de aliviar las necesidades de una población en expansión como de controlar las rutas por las que se comercializaban los metales atlánticos.
Por último, una dinámica similar puede plantearse también en la zona del valle medio del Tajo, donde también se fundarían colonias de poblamiento en lugares estratégicos de las principales rutas comerciales y vías de comunicación, explicándose así los materiales orientalizantes procedentes de Talavera la Vieja (Jiménez Ávila y González Cordero, 1999; Martín Bravo, 1999, p. 93-96, figs. 33-34) y del Cerro de la Mesa (Ortega y del Valle, 2004, p. 176-179), ambos situados en sendos vados del Tajo en las rutas que se dirigen hacia los pasos del Sistema central. Se trataría de una dinámica muy similar a la propuesta por Algaze (1993) para la expansión de Uruk
en Mesopotamia durante el IV milenio a.C. con el control de las principales rutas de comunicación fuera del núcleo de las principales entidades políticas mediante puestos de avanzada que servirían como colonias de poblamiento y como lugar de control de los flujos comerciales, una táctica que se extiende a otras civilizaciones en el momento en que se está produciendo el surgimiento del estado (Algaze, 1993a).
En definitiva, creo que se presenta un panorama coherente para una mejor comprensión
de las dinámicas de las sociedades protohistóricas de la Primera Edad del Hierro del sudoeste de la Península Ibérica, que muestran un panorama mucho más integrado que el normalmente presentado y en el que se valora la iniciativa y las acciones de las poblaciones locales en un momento de intensa interacción con las poblaciones coloniales fenicias presentes en la zona desde un momento temprano del siglo IX a.C. o incluso anterior, según demuestran las nuevas evidencias documentadas en Huelva (González de Canales, Serrano y Llompart, 2004)."


Adicionalmente, novos trabalhos e pesquisas têm vindo a revelar novos dados, não sem algumas surpresas igualmente interessantes. A quem interesse, creio ser indispensável a sua leitura:

Novos dados sobre a ocupação pré-romana da cidade de Lisboa: as ânforas da sondagem n.º 2 da Rua de São João da Praça (2005) - JOÃO PIMENTA, MARCO CALADO, MANUELA LEITÃO:
http://www.ipa.min-cultura.pt/pubs/RPA/v8n2/folder/313-334.pdf

Fenicios en el Extremo Occidente: conflicto y violencia en el contexto
colonial arcaico - CARLOS G. WAGNER (2005):
http://www.ipa.min-cultura.pt/pubs/RPA/v8n2/folder/177-192.pdf

Os mais recentes achados epigráficos do Castelo de S. Jorge, Lisboa - Amílcar Guerra (2006):
http://www.ipa.min-cultura.pt/pubs/RPA/v9n2/folder/271-298.pdf

As ânforas romanas do Castelo de São Jorge (Lisboa) - João Pimenta/IPPAR (2005?):
http://www.ipa.min-cultura.pt/pubs/TA/folder/41/

A IMPORTAÇÃO DE ÂNFORAS DE PREPARADOS PÍSCICOLAS EM OLISIPO (SÉCULOS II-I A.C.). - João Pimenta/IPPAR (2006?):
http://ceipac.gh.ub.es/biblio/Data/A/0517.pdf

Olisipo pré-romana. Um ponto da situação - Marco Calado (2006):
http://br.monografias.com/trabalhos3/olisipo-pre-romana/olisipo-pre-romana2.shtml

Os portos na origem dos centros urbanos: contributo para a arqueologia das cidades marítimas e flúvio-marítimas em Portugal - Maria Luísa Pinheiro Blot:
http://www.ipa.min-cultura.pt/pubs/TA/folder/28

segunda-feira, 9 de março de 2009

São Vicente, a polémica

Não é de agora a polémica em título. Em boa verdade, tem mais de 800 anos e há muito que estaria esquecida, não fosse pelos documentos... e por quem a eles se dedica, como o faz Pedro Picoito no artigo A Trasladação de S. Vicente.
Consenso e Conflito na Lisboa do século XII
, publicado no nº 4 da revista Medievalista.

Uma vez mais uma leitura atenta, numa nova perspectiva, revela "surpresas".
Os lisboetas, moçárabes, antes hispano-romanos, depois da dominação de árabes e visigodos, conhecem um novo dominador. É Portugal que chega... (parece publicidade a um novo livro, é bem verdade que daria um dos bons).

A Medievalista é publicada pelo Instituto de Estudos Medievais, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, sob a direcção de José Mattoso. O artigo que referimos não é, obviamente, o único a merecer atenção.

quarta-feira, 14 de março de 2007

Os "grandes portugueses" e Lisboa (1ª parte)

Não vou discutir os fundamentos e a legitimidade que assiste à eleição promovida pela RTP, sobre os "Grandes Portugueses". Da mesma forma evitarei tomar qualquer partido. O objectivo do presente é tão só evidenciar a ligação de cada um dos 10 "Grandes Portugueses" eleitos para a fase final com a cidade de Lisboa, que por ser capital de Portugal, está naturalmente presente na biografia de todos.

Comecemos por saber quem daqueles dez era "alfacinha": dois poetas e dois reis.

Desses quatro, aquele que poderá ser considerado o mais "alfacinha" de todos é Fernando Pessoa, não só porque nasceu e morreu nesta cidade - obviamente - mas por toda a sua vivência e obra, ao ponto de existir uma "Lisboa Pessoana" (que é sem dúvida uma das mais fascinantes, senão a mais fascinante de todas as Lisboas alguma vez concebidas).
Nasceu num prédio no Largo de São Carlos, foi baptizado na Igreja dos Mártires, no Chiado e faleceu no Hospital de São Luís dos Franceses.
Como se não bastasse, ficou a sua figura para sempre "presa" a Lisboa no corpo da famosa estátua que existe no Chiado, n'A Brasileira, que é especialmente popular para fotografias de pose de quase toda a turistada que passa, muita dela porventura sem fazer a mínima idéia de quem se trata. Seria engraçado conhecer a opinião de Pessoa sobre o assunto!
Em Lisboa existe também a casa-museu Fernando Pessoa (Rua Coelho da Rocha), promotora de frequentes actividades culturais e dotada de espólio diverso, onde se incluem pinturas de autores com Almada Negreiros. De referir que, exceptuando a traça exterior e o último quarto onde viveu o poeta, todo o restante do edifício é de arquitectura moderna.

O outro poeta é Luís Vaz de Camões, embora neste caso não haja certeza quanto ao facto de ter nascido em Lisboa, embora seja a naturalidade normalmente sugerida. Certeza há que morreu em Lisboa.
Viveu em pleno a época das Descobertas, tendo viajado por meio mundo em variadas peripécias. Essa vastidão de horizontes justificou a grandeza da sua obra em todos os aspectos, a par do excelente conhecimento das obras de autores clássicos.
Em contrapartida, as estadias de Camões em Lisboa foram sempre atribuladas, entre os píncaros e a miséria, granjeando pelo meio fama de inveterado boémio.
Camões entrou para a toponímia lisboeta já nos finais do século XIX, quando foi inaugurada a sua estátua (magnífica, por sinal) no largo que tem hoje o seu nome, no coração fervilhante daquela parte da cidade (reconhecível até no cinema, como no clássico "O Pai Tirano"). O largo passou mesmo a ser conhecido apenas como "o Camões".
Mais recentemente chegou a estar "o Camões" (isto é, a estátua) fora do lugar, para que se procedesse à construção de um parque de estacionamento subterrâneo (com tanto lugar...). Com as obras descobriram-se vestígios do que já se sabia ter ali existido, como as ruínas do Palácio do Marquês de Marialva, que foi destruído e parcialmente soterrado devido ao terramoto de 1755, e até vestígios de ocupação romana.
É também em Lisboa que está sediado o Instituto Camões, dedicado ao ensino e divulgação da língua portuguesa no Mundo. Lembra o Instituto Cervantes espanhol, mas com uma diferença importante: é que Camões esteve mesmo na maior parte dos sítios onde a língua portuguesa chegou há 500 anos atrás (que ele também a levou!).

(continua)

quarta-feira, 29 de novembro de 2006

Restauração da Independência

A Bandeira da Restauração, com a nossa Cruz de Cristo

No próximo dia 1 de Dezembro celebra-se o 366º aniversário da Restauração da Independência de Portugal, efeméride a que já demos destaque no ano anterior (ver aqui, uma breve resenha dos acontecimentos históricos e aqui, uma breve referência ao Monumento da Restauração, na Praça dos Restauradores).
Diz muito ao autor e diz muito a Lisboa, que foi onde se desenrolaram os acontecimentos em questão e onde se encontra sedeada a Sociedade Histórica da Independência de Portugal, a cujo site oficial e cerimónias recomendamos a acorrência (para saber mais sobre as origens da Sociedade, ver o primeiro artigo referido acima).

De qualquer forma, antecipamos aqui o programa das comemorações de 2006:

12h00 – MISSA SOLENE DE ACÇÃO DE GRAÇAS, na Igreja Paroquial de Santa Justa, no Largo de São Domingos;
16h00 – HOMENAGEM AOS HERÓIS DA RESTAURAÇÃO, na Praça dos Restauradores;
17h15 – ASSINATURA DO LIVRO DE HONRA DA S.H.I.P., no Palácio da Independência.

Das 14h30 às 18h30, no Palácio da Independência, decorrem visitas às Exposições “Hinos, marchas, cantos patrióticos e obras dedicadas” – colecção do Maestro Dr. Manuel Ivo Cruz e “Reais Hospitais Militares de S.João de Deus na Fronteira Luso-Espanhola (Séculos XVII e XVIII)”, promovida pela Comissão Portuguesa de História Militar e Ordem Hospitaleira de São João de Deus.


Foram 60 anos sob domínio estrangeiro, em que Lisboa perdeu estatuto e importância (embora nem tudo fosse mau, em determinados aspectos). 60 anos em quase 900 anos de história do País e em 751 anos de Lisboa como capital. Visto assim, é pouco, mas a importância é grande. Neste "canto" resistiram Lusitanos e Suevos a quem de Leste os ameaçou... e venceu. Da mesma forma têm resistido os portugueses durante quase 900 anos, reafirmando a sua identidade e a sua independência. Cuidemos dela, cuidando dos portugueses - afinal foi por isso mesmo que Afonso Henriques lutou.

VIVA PORTUGAL!

Bandeiras da Portugal (incluindo as de maior simbolismo para a independência): reinado de D. Afonso Henriques - o Fundador; reinado de D. João I, Mestre de Avis - o de Boa Memória; reinado de D. João IV, Duque de Bragança - o Restaurador; República Portuguesa

Créditos: imagens retiradas da excelente página História da Bandeira de Portugal mantida por António Martins

quarta-feira, 15 de novembro de 2006

Apontamentos sobre a História de Lisboa (III): A Fundação

Já aqui desmistificámos a famosa "lenda de Ulisses". Quanto à hipotética fundação de Lisboa pelos Fenícios, apresentámos argumentos a favor e contra, não sendo possível chegar a uma conclusão segura. Até prova em contrário, pouco ou nada nos diz que Lisboa alguma vez tivesse sido um estabelecimento fenício (ou uma cidade dominada por estes).

Mas, quando chegaram os Romanos, Lisboa já existia... e pareceu-lhes uma cidade antiga. Se bem que a "lenda de Ulisses" possa ser fantasiosa (pelo menos no que à fundação de Lisboa diz respeito), ela demonstra isso mesmo. Não faz muito sentido que os Romanos invocassem um acontecimento tão antigo como a Guerra de Tróia para explicar a fundação de um local "bárbaro" e remoto.
Assim sendo, o que os Romanos encontraram foi uma cidade propriamente dita, de acordo com os padrões "mediterrânicos". Não apenas uma sede de poder local ou um reduto fortificado para protecção de populações agro-piscatórias, mas também e sobretudo um centro de comércio, com relações e influências que se encontravam bem para além da sua região natural.

Ainda que Lisboa não fosse Fenícia, terá tido sem dúvida um papel importante nas antigas rotas trans-ibéricas, em que os Fenícios (através de Gadir - Cádiz) seriam a contraparte final.

Seria Lisboa uma cidade turdúla? É uma possibilidade. Os túrdulos (a par dos turdetanos) eram um conjunto de povos que se crê terem sido os sucessores dos tartéssicos. Tartessos, uma antiga e sofisticada civilização de origem ibérica que desde cedo manteve importantes relações com o Oriente Mediterrânico. De tal forma que foram os Fenícios - precisamente - os que acabaram por destruir o famoso reino, quando a sua região (a futura Andaluzia) era já cobiçada pelos gregos.
Supor que Lisboa já existia ao tempo do Reino de Tartessos (e intimamente ligada a este) parece-nos demasiado abusivo. Aliás, os vestígios do Reino de Tartessos são, ainda hoje, tão frágeis e confusos (embora cada vez menos), que torna-se extremamente difícil construir qualquer hipótese relacionada com o mesmo.

No entanto, as próprias fontes romanas referem que em determinada época terá ocorrido uma migração conjunta de túrdulos e celtas para Norte, tendo os túrdulos ocupado boa parte do litoral Norte do Tejo e os Celtas seguido para o Noroeste Peninsular (Galiza). É uma hipótese...

E por aqui fechamos - por agora - o assunto da fundação da cidade, sem que se consiga chegar a uma conclusão clara.
Com bastante segurança podemos afirmar que Lisboa é de facto uma cidade muito antiga, uma das mais antigas de entre as capitais da Europa. Também sabemos que o seu crescimento e desenvolvimento iniciais deveram-se à influência de povos do mediterrâneo: indirectamente, pelo contacto com civilizações "mediterranizadas" do Sul da Península (Tartessos?); ou directamente, pelo contacto com mercadores fenícios (e outros povos de origem semita).
Fundamentais também terão sido os contactos com o Norte Peninsular e até com o Norte da Europa, desempenhando Lisboa um papel importante como ponto de paragem e de intermediação, quer pela rota marítima mas também (mais importante, porventura) por rotas terrestres. Afinal de contas, a Península era canal privilegiado para o contacto entre fenícios (e depois cartagineses) e o Ocidente europeu.

Em seguida iremos abordar a "romanização" de Lisboa, processo que colocou definitivamente a cidade no "mapa" das grandes civilizações europeias.

terça-feira, 4 de abril de 2006

Apontamentos sobre a História de Lisboa (II): A Fundação

Se bem se recordam, no post anterior desta série analisámos as informações que nos deixaram os romanos sobre a fundação de Lisboa. Estas permitiam concluir, em primeiro lugar, que Olissipo já existia aquando da sua chegada (facto este sem margem para dúvidas). Por outro lado, pondo em relevo as fragilidades da lenda que atribuía a fundação ao herói grego Ulisses, concluímos que muito dificilmente Lisboa teria sido fundada pelos gregos, mas também que os romanos (e gregos), afinal, não conheceriam a origem da cidade ou que, por alguma razão, não revelaram para a posteridade o que poderiam saber.

Posto isto, resta-nos seguir uma outra hipótese que veio a ganhar mais força em tempos recentes. Embora não seja naturalmente suportada por qualquer documentação da época ou próxima (ou referência epigráfica, que seja - tenha-se em atenção que tratava-se da "alvorada" do uso da escrita), baseia-se em importantes achados arqueológicos e por consequência em deduções que, não sendo assim comprovadas por completo, apresentam uma solidez "científica" bem mais interessante. Trata-se da hipótese da fundação de Lisboa pelos fenícios.
Por competirem directamente pelo domínio do Mediterrâneo, sabemos que romanos e gregos não tinham especial gosto em realçar os feitos de um povo de origem semita, para mais protegido - a determinada altura - pelos egípcios. Mas sabemos também que Lisboa existia e comunicava já desde há muito com povos do Mediterrâneo oriental ou, pelo menos, com intermediários fortemente ligados e influenciados pelos mesmos.

Ao longo de toda a costa portuguesa descobriram-se vestígios/artefactos de origem fenícia, oriental ou orientalizante. Por outro lado existem fortes indícios de que os fenícios terão navegado com alguma frequência bem para além do Estreito de Gibraltar, atingindo a costa atlântica de França, possivelmente as Ilhas Britâncias e até mesmo a Escandinávia. Aliás pode mesmo afirmar-se que em matéria de engenharia naval gregos e romanos pouco vieram acrescentar ao notável e revolucionário legado dos fenícios, só comparável ao que árabes e portugueses conseguiriam séculos mais tarde.

A juntar a tudo isto, sabemos também que os fenícios estabeleceram uma série de entrepostos e colónias em boa parte do Mediterrâneo, incluindo a Península Ibérica, sendo que a situação e topografia dos locais escolhidos seguia um padrão interessante para a nossa questão. Começando logo pela própria origem, podemos verificar que as "cidades-mãe" fenícias de Tiro e Sídon, por exemplo, situavam-se em saliências costeiras com boa protecção, não só face a ameaças marítimas, mas também face ao interior (no caso de Tiro, até foi durante muito tempo uma ilha).
Não muito diferente estava Cartago (do fenício Kart-Hadash, hoje em Tunis, na Tunísia), uma das primeiras e principais (senão a principal) colónias "ultramarinas" dos Fenícios, instalada numa península ladeada por uma grande e abrigada baía. Gadir (Cádiz), por sua vez, era a maior colónia "ibérica" e encontrava-se numa ilha de forma alongada e paralela à costa (também só posteriormente ligada ao continente, no seu extremo oriental).
Por aqui poderemos imaginar uma Lisboa fenícia, abrigada do mar junto a uma grande enseada (o estuário do Tejo), protegida do lado interior por colinas e serranias. Uma cidade que seria ponto de escala perfeito (e raro) na difícil costa atlântica, a caminho dos mares do Norte. Uma cidade na foz do maior rio da península, cuja navegabilidade ao tempo permitia - associada com o domínio do Guadiana e do Guadalquivir - fazer fluir trocas comerciais com quase todo o interior.
Chamaram-na, supõe-se agora, "Allis Ubbo", a tal "enseada amena".

No entanto, mesmo que o referido acima tenha muita lógica, outros dados "baralham" significativamente a questão. Se é certo que os fenícios e os seus produtos chegaram a Lisboa, não existem indícios que permitam afirmar que Lisboa tivesse sido fundada como cidade, colónia ou até como mero entreposto fenício. Pelo contrário, grande número de especialistas argumenta que no actual território português não terão existido quaisquer colónias fenícias, mas sim povoados ou cidades fortemente relacionados e/ou influenciados pelas colónias de Gadir e Cartago.

A expansão terriorial fenícia (como a Cartaginesa ou púnica) nunca terá tido grande expressão no nosso território. E mesmo a importância de Lisboa como ponto fundamental de uma intensa navegação atlântica poderá não passar de uma conjectura. Apesar de terem sido marinheiros exímios e criadores revolucionárias embarcações, a valia dos fenícios terá sido mais evidente no próprio Mediterrâneo. Com isto não se invalidam os relatos que apontam para uma pioneira e vasta exploração das costas atlânticas (de Europa e África). Poderão e deverão ser verdadeiros. No entanto poderão não ter passado disso mesmo, viagens de exploração, pontuais e sempre arriscadas. Os fenícios (bem como os romanos, gregos, por muitos séculos depois) nunca terão conseguido dominar suficientemente as águas do Atlântico por forma a estabelecer rotas marítimas regulares. Navegavam à vista da costa, o que, em caso de violentas tormentas (como são vulgares), impossibilitava progressos fáceis.

Por outro lado existem provas significativas de que o comércio de Gadir com os territórios do Atlântico Norte era feito sobretudo por via terrestre, com a intermediação de povos indígenas. Uma das rotas, que se manteve até ao tempo dos romanos, cruzava precisamente o Guadiana até chegar à costa norte de Espanha, onde por sua vez desembarcavam os produtos trazidos pelos povos da costa europeia do Atlântico Norte e das Ilhas Britânicas. O comércio com a Lisboa de então, que de facto existia, também seria em grande parte realizado por via terrestre, seguindo uma rota que entroncava dessa rota principal, atravessava o actual Alentejo e terminava na outra "banda" do Rio Tejo.

Apesar de preterida, também haveria a rota marítima, ao que parece, mas mesmo assim não suporta a hipótese de uma Lisboa fenícia. Invocando de novo os dados arqueológicos obtidos até à data, é bem mais provável que um assentamento fenício, a existir, fosse localizado... na península de Setúbal. O melhor "candidato" a essa condição até hoje descoberto (embora, repetimos, não infalivelmente comprovado) é o antigo povoamento de Abul, a norte de Alcácer do Sal. Situava-se em pleno estuário do Sado e estava protegido pela península de Tróia, bem ao "estilo" dos fenícios.
Outro local de referência, de estudo mais recente e ainda mais próximo de Lisboa, é a Quinta de Almaraz (em Almada). Tendo em conta as preferências dos fenícios, a sua situação parece-nos mais perfeita ainda. É até possível que já nessa época a zona adjacente de Cacilhas fosse local privilegiado para reparações navais, como se mantém ainda hoje. Dali também se dominava o estuário do Tejo, para além de ser mais fácil a ligação terrestre ao Sul da Península, à rota "alentejana" com Gadir (seria ali que terminava?).

Completando o panorama, alguns estudiosos afirmam que Lisboa era de facto um centro importante à época dos fenícios, mas seria habitada por outros povos, que embora habituados ao contacto com o "mundo" mediterrânico (com fortes ligações à pretensa feitoria instalada na outra margem), teriam uma origem não-mediterrânica.
Esta hipótese, até mais ver, parece-nos a mais credível.

Quem seriam? E desde quando?
É o que vamos tentar ver noutros artigos, mas dispomos de muito pouca informação.
Em bom rigor, talvez nunca saibamos exactamente quem e quando fundou Lisboa. Com inúmeros terremotos e variadas ocupações, talvez nem a própria arqueologia alguma vez nos possa providenciar uma chave ou elo perdido. Afinal de contas, a zona (incluindo sítios da cidade actual) foi ocupada desde a pré-história...

quinta-feira, 26 de janeiro de 2006

O Grande Terramoto... de 1531

Arrancou este blogue no dia em que se lembraram (e lembrámos nós também) os 250 anos volvidos sobre a ocorrência do grande terramoto de 1755. Pois bem, na data de hoje e embora muitos o não saibam (ou não sejam recordados, nomeadamente através da comunicação social) cumprem-se 475 anos sobre a ocorrência de um outro terramoto que destruíu Lisboa, o de 1531.

Acontece que esse sismo em pouco ou nada ficou a dever em termos de destruição e mortandade em relação ao de 1755, 224 anos depois (segundo algumas fontes até terá sido mais devastador ainda), sendo que entre uma e outra data se registaram outros sismos de importância considerável.
Porque é que são menos conhecidos os impactos de 1531? Desde logo, pela sua maior distância no tempo, não sendo de menosprezar também a maior facilidade com que a tragédia de 1755 foi difundida por esse mundo fora (considerando uma comunidade estrangeira em maior número ainda).
No entanto e curiosamente o género de impactos até nem foi muito diferente. Já em 1531 houve quem explicasse a tragédia como sendo um castigo "divino". E se podemos pensar que na altura - e ao contrário do sucedido num "enlightened" 1755 - tal tese passou aceite sem reservas, desenganem-se. Nem mais nem menos que o nosso Gil Vicente tomou a iniciativa de refutar (com a "razão", o seu talento e o beneplácito régio) o alarde de um grupo de frades de Santarém que acusava a presença dos judeus em Portugal como motivo da ira de Deus. Este facto não deixa de ser também curioso, uma vez que a expulsão dos judeus, logo transformada em conversão forçada, havia sido decretada 35 anos antes. Eram então perseguidos como "cristãos-novos", pelos vistos ainda em comunidades numerosas (assim foi a versão portuguesa da sua expulsão)...
Ora se em 1531 Deus castigava Lisboa pela impureza dos semitas, em 1755 condenava-se o deboche e liberalidades importadas de Itália ou França. Seria claro de ver, ainda antes de quaisquer avanços sensíveis em sismologia, que a explicação "divina" apenas alimentava mais desgraças para uns quantos infortunados.

Se a informação sobre os danos sofridos em 1531 não é tão completa como aquela que dispomos sobre o sismo de 1755, sabe-se no entanto que os impactos no interior (Ribatejo e Alentejo) foram mais significativos. Aliás o epicentro em 1531, segundo os estudos, terá sido entre Vila Franca de Xira e Azambuja, enquanto que em 1755 crê-se que estivesse localizado no oceano. Também é certo que os principais edifícios de Lisboa tiveram de ser parcialmente reconstruídos ou renovados. Não há notícia de maremoto ou de grandes incêndios em 1531, o que em parte pode explicar também um grau de destruição menos avassalador que em 1755. Como exemplo, o Hospital Real de Todos os Santos, já existente em 1531, só veio a desaparecer em 1755...

Para finalizar, em 1755 como seria lembrado o terramoto de 1531 (224 anos depois) e de que forma tal poderia contribuir (ou não) para uma melhor preparação? Já estaria suficientemente esquecido? E hoje, 250 anos depois do de 1755, estaremos avisados?

segunda-feira, 2 de janeiro de 2006

Apontamentos sobre a História de Lisboa (I): A Fundação

Ao que pudémos apurar nas nossas pesquisas não existem ainda certezas sobre a fundação da cidade de Lisboa (quando e por quem). Aliás as dúvidas e erros sobre o assunto são quase tão antigos como ela, dificultando e mesmo desviando o caminho de muitos dos que têm investigado ao longo dos séculos.

As primeiras evidências documentais (de entre as que chegaram até aos nossos dias) foram obra dos romanos (nalguns casos apoiando-se em textos gregos). Embora tivessem fornecido a primeira explicação para a origem da cidade, não deixaram de nos legar dúvidas... mas também preciosas indicações, por muito óbvias que nos pareçam. Desde logo ficámos a saber que Lisboa não foi fundada pelos próprios romanos... e que já existiria há bastante tempo antes da sua chegada.
Ao analisar a teoria "romana" para a fundação poderemos ir mais longe ainda. Largamente difundida e aceite até tempos muito recentes, a versão dos romanos apontava o herói grego Ulisses como tendo sido o fundador de Lisboa. Com que razões? Em primeiro lugar poder-se-ão ter baseado no facto (já confirmado) de que Lisboa, aquando da chegada dos romanos, já era uma cidade com fortes e antigos laços com outros povos do Mediterrâneo. É bastante provável que os romanos encontrassem assim alguns traços helenizantes (ou que os entendessem como tal), para além da existência de rotas comerciais onde não faltariam (e não faltaram, como está provado também) produtos oriundos de colónias gregas.
Em segundo lugar e aos olhos dos romanos a criação de um "mito" fundador com raízes helénicas - ainda que não entendessem como tal - era também uma forma de integrar perfeitamente a cidade no "mundo" greco-romano, excluindo assim a intervenção de povos considerados hostis ou indignos face à superioridade da sua civilização. Ao fazê-lo, como veremos, os romanos afastavam deliberadamente a influência de povos "bárbaros" bem como os antigos e acérrimos rivais do mesmo "mundo": fenícios e cartagineses (de origem fenícia).
Esta segunda ordem de motivos, alheia à objectividade e ao rigor histórico, levanta desde logo sérias suspeitas. E os factos conhecidos ajudam a deitar por terra esta teoria "romana", por muito tempo que esta tenha sobrevivido... sobretudo por ter sido (e é) tremendamente apelativa aos historiadores e não-historiadores "românticos" que se sucederam. Seria de facto uma bela lenda, mas é de facto uma lenda. Senão vejamos:
Em momento algum nos é indicado claramente que Lisboa, à data da chegada dos romanos, seria ela própria uma colónia grega ou sequer contasse com uma presença significativa de cidadãos gregos. Nem por outro lado deixaram os próprios gregos evidências nesse sentido. Aliás esta fragilidade permitir-nos-ia concluir que, mesmo pondo Ulisses de parte, também não tenham sido os gregos a fundar Lisboa de todo. Os achados arqueológicos - não só em Lisboa mas em toda a Península Ibérica - parecem confirmá-lo: não terá existido nenhuma colónia grega, inteiramente como tal, no actual território português. É um facto que existiram efectivamente colónias gregas na Península Ibérica mas, contrariando certas generalizações, estas e os seus territórios ter-se-ão limitado à costa mediterrânica. E tal deveu-se, em grande parte e precisamente, à concorrência do "mundo" fenício...
Também é um facto que, antes dos romanos, os navegadores/comerciantes gregos terão explorado e viajado com alguma frequência pelas costas ocidentais, como atestaria o "périplo massaliota" principal fonte do poema "Orla Marítima" (do romano Avieno). No entanto nada dos indica que se tratassem de algo mais que contactos pontuais ou meramente comerciais com a zona de influência da colónia grega de Massalia (Marselha, em França). E uma vez mais tudo isto terá ocorrido num espaço de tempo não muito considerável, desde a efectiva decadência do poder de Cartago no Sul e Ocidente da Península até à chegada dos romanos.
Ainda que ao se comprovar que Lisboa não terá sido "grega" possam permanecer algumas dúvidas, a própria lenda encerra ainda outras grandes imprecisões. Diz a mesma que Ulisses e os seus bravos soldados, depois de vencida a guerra de Tróia, teriam iniciado uma errática viagem pelo Mediterrâneo, fazendo descobertas e cometendo novas façanhas. Entre elas deduziu-se a fundação de Olisipo, que deveria o seu nome ao herói (Ulisses/Olisis - Ulisseia/Olisipo). Ora, para começar, pouco ou quase nada do que foi relatado sobre as próprias Guerras de Tróia e eventos relacionados (incluindo a existência de Ulisses) foi até hoje comprovado histórica e arqueologicamente. Aliás a Odisseia encontra-se impregnada de elementos claramente mítológicos e não verdadeiros, tal como hoje é possível destacá-los nos próprios Lusíadas, por exemplo, uma vez que o próprio Camões tomou por influência de forma e estilo, precisamente, os épicos gregos (sabemos que não existe nenhuma ilha dos amores, certo?).
Para além disso, há um pormenor (ou não) curioso. É que "Ulisses" trata-se da posterior designação latina. Em grego e originalmente o verdadeiro nome do herói era "Odysseus". Assim sendo seria muito estranho que Odysseus ou os gregos que se seguiram baptizassem a cidade de acordo com o nome romano...
Por fim e mesmo atendendo à cronologia normalmente proposta para aqueles eventos (considerando que em parte tenham sido verdade), chega-se à conclusão de que Ulisses, caso tivesse chegado a Lisboa, provavelmente já não a teria de fundar (já existia...).

Refutada assim a versão romana para a fundação de Lisboa, ainda assim, ficam algumas certezas... pela negativa: os romanos não faziam idéia (ou não queriam fazer) de quem teria fundado Olisipo nem de qual a origem do próprio nome; Olisipo não era uma colónia grega; Olisipo já seria, ao tempo chegada dos romanos, uma cidade antiga e de importância considerável, tendo aqueles adoptado o nome pelo qual os próprios habitantes conheciam a sua cidade, transmitido ao longo de séculos (e assim conhecido por gerações sucessivas de navegadores de diferentes origens).

Sendo assim, antes de romanos e gregos, quem teria fundado Lisboa? Os "suspeitos" que se seguem são os povos que antes daqueles deixaram as suas marcas na Península: Fenícios e Cartagineses (de origem fenícia). Terão sido eles? Fica para próximo artigo... porém adiantamos que, em nossa opinião, Lisboa também não nasceu como "Allis Ubbo", cidade fenícia...

sexta-feira, 16 de dezembro de 2005

A origem de Lisboa

Dentro de alguns dias iremos iniciar uma série de apontamentos (por ordem cronológica) sobre a história de Lisboa. Naturalmente, o primeiro tema será a origem/fundação da cidade. Já temos algo preparado (e concluído), mas aproveitamos para lançar as seguintes questões aos leitores:

Quem fundou Lisboa?

- Ulisses
- Os Fenícios
- Os Gregos (depois de Ulisses)
- Os Lusitanos
- Os Romanos
- Algum outro povo

Quando foi fundada?

- Antes do Século XII a.C.
- No Século XII a.C.
- No Século IX a.C.
- No Século VIII a.C.
- No Século VII a.C.
- No Século I a.C.

Qual a origem do nome?

- Desconhecida, indígena
- Allis Ubbo, fenício
- Alis-ippo, fenício
- Ulisseia/Ulissipo, grego
- Olisipo, latim

sexta-feira, 2 de dezembro de 2005

Restauração da Independência - II

No seguimento do post anterior, aqui fica uma breve nota sobre o monumento existente em Lisboa, erigido pela mesma Comissão Central do 1ª de Dezembro de 1640 através de subscrição pública (em Portugal e no Brasil):


A meu ver, um dos mais bonitos e harmoniosos monumentos da cidade.
Na base do obelisco estão duas figuras alegóricas, uma representando a Vitória e outra a Liberdade. No cimo encontram-se inscritos os nomes das vitórias consideradas decisivas: Linhas de Elvas, Ameixial, Castelo Rodrigo e Montes Claros. Por debaixo, um parque de estacionamento, mas é velhinho e ele próprio já com alguma história...

quarta-feira, 30 de novembro de 2005

Restauração da Independência

Celebra-se amanhã mais um aniversário da Restauração da Independência (1640). A cidade de Lisboa, como capital do País, teve naturalmente um papel fundamental, não só como palco da revolta em si mas também em anos (séculos) posteriores, sempre que foi necessário reafirmar e celebrar a Independência de Portugal. Aqui fica uma súmula dos acontecimentos relevantes:

25 de Agosto de 1580 - Tomada de Lisboa pelo exército castelhano, liderado pelo Duque de Alba, após derrotar o exército português liderado por D. António (prior do Crato e aclamado Rei de Portugal em Junho) na Batalha de Alcântara. Forçado ao exílio, D. António tentaria posteriormente o regresso e reconquista do trono de Portugal com o auxílio de ingleses e franceses, sem sucesso. Viria a falecer em Paris a 25 de Agosto de 1595. Depois da morte de D. Sebastião em Alcácer-Quibir (1578) e do seu tio D. Henrique (1580), chegava ao fim a dinastia de Avis, quase 200 anos depois de Aljubarrota. Felipe II de Espanha tornava-se Filipe I de Portugal, mantendo-se assim no plano formal a separação dos reinos.

1 de Dezembro de 1640 - Após 60 anos em que a verdadeira independência e os interesses dos portugueses foram sendo cada vez mais postos em causa, levantou-se um movimento de conjurados (desde 1638-39) com vista à deposição do poder filipino e coroação de um novo Rei de Portugal. D. João, Duque de Bragança, afigurava-se como o mais provável e legítimo candidato, pelo que os conjurados cedo tentaram conseguir que assim se assumisse e desse o seu apoio a uma revolta. O Duque de Bragança, porém, sujeito a um rigoroso controlo por parte da coroa espanhola, hesitava num mar de dúvidas no seu Paço de Vila Viçosa. Ainda assim desobedeceu e furtou-se hábil e discretamente a várias ordens do Governo de Madrid que procuravam afastá-lo de Portugal, sendo mais significativa a sua recusa em reunir tropas para ajudar a pôr fim à revolta da Catalunha. Perante tais condicionantes, não desamimaram nem desarmaram os conjurados, que prosseguiram os seus intentos sempre dando conta dos mesmos ao Duque, sempre que possível. Após algumas reuniões em Outubro nas quais se preparava já a revolta, foi finalmente durante o dia 30 de Novembro e madrugada fora do dia 1 de Dezembro de 1640 que os conspiradores, oriundos de várias classes e possuidores de variados estatutos, se reuniram no Palácio dos Condes de Almada (ao Rossio) para dar início ao plano. Na manhã desse Sábado (dia 1) dirigiram-se ao Paço da Ribeira (Terreiro do Paço), dissimulados e em número aproximado de 40 elementos (!). Dividindo-se em grupos venceram pela surpresa as guarnições ali existentes. Um dos grupos encontrou finalmente Miguel de Vasconcellos, o odiado Secretário de Estado que governava efectivamente o país à vontade e submissão da coroa espanhola, que desde então e para sempre teve o seu nome eleito como símbolo de traição ao país. Foi morto e defenestrado, para contentamento não só dos conjurados mas ao que parece da própria Vice-Rainha, Margarida de Sabóia (Duquesa de Mântua), que apesar do seu estatuto pouco ou nada governava (em detrimento de Miguel de Vasconcellos). Porém e para concluir com sucesso a revolta foi também presa a Duquesa bem como a quase totalidade da fidalguia espanhola instalada em Lisboa, que por sorte estava presente no Paço (facilitando assim a tarefa dos conspiradores). Restavam as guarnições do Castelo de São Jorge e das fortificações da barra do Tejo, enquanto o povo, jubilante, aderia plenamente à revolta e se encarregava do resto, tomando o Senado de Lisboa e para si a bandeira da cidade. Não resistiram muito as ditas guarnições, sendo todas as fortificações tomadas pelos conspiradores e pelo povo sem grandes dificuldades.
Com 40 homens e, ao que se sabe, apenas 3 mortes (do lado pró-espanhol), se libertou assim o país do jugo da poderosa Espanha.
As notícias depressa chegaram a Vila Viçosa, onde se encontrava o Rei aclamado, bem como ao resto do país, onde foram recebidas com tal júbilo e apoio que mais parecia que o domínio filipino havia durado um só dia. Reconquistou-se Portugal, estava reconquistada a independência.

6 de Dezembro de 1640 - O novo rei D. João IV entrou finalmente em Lisboa, em perfeita apoteose. Daí em diante tratou de recuperar o Império até então gravemente em desleixo. As possessões na Ásia, salvo raras excepções, já haviam sido irremediavelmente perdidas em massa para ingleses, franceses e holandeses (todos inimigos dos espanhóis). Em África idem, embora o caso mais grave fosse a perda de Ceuta, arduamente conquistada 225 anos antes sob as ordens de D. João I, Mestre de Avis vitorioso de Aljubarrota. Já plenamente controlada e dominada pelos espanhóis, a cidade optou pela fidelidade ao país vizinho, embora mantendo no seu escudo e até hoje as armas de Portugal. En contrapartida, o fiel Brasil, cada vez mais "jóia da coroa", assim se manteve, mas como jóia da coroa portuguesa.

24 de Maio de 1861 - Foi fundada a Comissão Central do 1º de Dezembro de 1640, que mais tarde viria a dar origem à Sociedade Histórica da Independência de Portugal. Desde a Restauração de 1640 tinham-se sucedido outros episódios que haviam feito perigar a independência do país.
Logo nas três décadas seguintes a Espanha, inconformada, prosseguiu uma guerra contra a coroa portuguesa, só se dando por vencida 28 anos depois de 1640.
Mais tarde, em 1807, dão-se as invasões francesas. Deposta a monarquia espanhola em favor de Napoleão, França e Espanha planeiam a captura e derrota de Portugal e a subsequente partilha do território português e suas colónias. D. João VI, Rei de Portugal, opta por embarcar rumo ao Brasil, procurando assim salvaguardar, para além da sua vida e a dinastia, a maior colónia do Império. Em 1814, derrotada a França, Portugal poderia receber de novo o seu rei. Este, no entanto, demora ainda, enquanto no Brasil o movimento para a respectiva independência ganha cada vez mais força.
Sucedem-se a independência efectiva do Brasil e a cruenta Guerra Civil em Portugal, opondo liberais e absolutistas.
Em 1861 vive-se a paz, mas o que resta do país e do seu império já nada tem a ver com as glórias passadas. São tempos conturbados e de agitação latente. No meio da proliferação de idéias e movimentos "político-intelectuais", surge uma corrente chamada "iberista", que evoca com saudade a época filipina e advoga uma nova união das coroas como melhor caminho para Portugal. É então que se juntam de novo pessoas de diferentes condições (e até convicções políticas), que unidos sob um fervor patriótico e nacionalista resolvem fundar a Comissão Central do 1º de Dezembro de 1640. De novo Lisboa é o palco, sendo a sede o mesmo Palácio dos Condes de Almada, futuro Palácio da Independência (até hoje). Os comissários de então apelam ao povo para que demonstrasse o seu patriotismo e repúdio pelo "iberismo", ali mesmo, junto ao Palácio onde tudo havia começado 221 anos antes. É posteriormente elaborado um manifesto para ser distribuido pelo país inteiro, visando grandiosa e adequada celebração da Restauração. Na redacção desse manifesto tomaram parte "o historiador Alexandre Herculano, o orador José Estevão Coelho de Magalhães, e os escritores Dr. Gomes de Abreu, lente da Universidade de Coimbra, e António da Silva Túlio" (site da SHIP). Aqui reproduzimos aquela fervorosa e admirável exortação:

"A commissão eleita pelos cidadãos lisbonenses que se reuniram no histórico palacio dos Condes de Almada, para prescrever o modo por que na capital se há de dar maior solemnidade ao anniversário da revolução de 1640, que restituiu a Portugal os fóros de nação independente, de que fôra esbulhada por Filippe II de Castella em 1580, julgou conveniente, antes de tomar qualquer arbítrio, expor aos seus eleitores e a todo o reino a interpretação que dá mandato com que foi honrada derivando essa interpretação não só dos termos em que elle é concebido, mas também do pensamento que attribue ao povo portuguez, na commemoração solemne que, tanto em Lisboa como n’outras terras do reino, deliberou fazer no dia 1.º de Dezembro próximo.
O povo portuguez, seguro da sua existencia nacional, e conscio dos imprescríptiveis direitos em que ella assenta, sem ter esquecido as heroicas acções com que seus antepassados conquistaram e mantiveram a independência da patria, havia quasi apagado, pelo, pelo seu caracter humano e pacifico, a recordação publica de cruentas pelejas, que foram mais um desengano, entre tantos que a historia accumula, de que a força e a ambição, por si sós, não lograram no mundo triumphos duradouros.
Depois que a Hespanha perdeu Portugal, por essa lei immutavel que em differentes periodos, mas com o mesmo rigor, tem posto por terra todos os senhorios creados sómente pela violencia, os dois povos da peninsula, constituidos em nacionalidades separadas, tem corrido a mesma sorte, tanto nas contendas internas como na grande lucta européa, em que batalharam pelo mesmo principio, alcançando dos seus triumphos, não a sujeição de um ao outro, mas a independencia de ambos.
A França, com inteira abnegação, depoz no archivo das suas glorias militares o mappa das conquistas que fizera; e, convencida de que a sorte das armas fôra a sentença da rasão e da justiça, nem hoje, que tão crescida está em poder e tão voltada às suas recordações guerreiras, se julga com direito aos dominios que perdeu, nem tão pouco se mostra propensa a empregar os seus exercitos para os reconquistar á face da Europa.
A Hespanha, seguindo este exemplo, não se humilha; antes fôra mais para lhe estranhar a ella o intento de avassallar Portugal, do que á França o designio de retomar os estados que out'ora formaram o seu ephemero e revolto imperio.

A dominação estrangeira gera sempre rancores que se transmittem de geração a geração, e que só o decurso do tempo póde apagar; sobretudo quando esse dominio pesou duramente sobre uma nação altiva e generosa.
Ha quasi tres seculos que nossos avós caíram na servidão estranha. A Providencia punia talvez com esse castigo uma epocha de lastimosa decadencia moral. Sessenta annos de oppressão reanimaram pela dôr de crueis padecimentos, as virtudes publicas esmorecidas, e os brios heroicos de um povo de soldados. A gente portugueza quebrou então o jugo, e combateu. Deus abençoou os seus esforços. Suppunham que Portugal se ia dissolvendo no tumulo; e elle, como Lazaro, ergueu-se á voz do Senhor!
A lucta foi longa, e ainda hoje. n'esta terra da pátria, que é santa para nós, como esperamos que a seja para nossos netos, ha vestigios do que nos custou a independencia e a liberdade.
A geração que combateu, a geração que lavou com sangue o seu testamento politico nos campos de batalha ou nos muros rotos das povoações incendiadas, legou aos filhos uma herança de odio vingativo. Aquelles tempos não eram como estes nossos: e que o fossem se essa ruim paixão póde ter desculpa, é quando se enraiza no coração do que é ou do que foi servo contra os seus oppressores.
Os annos volveram, a civilisação caminhou; a razão publica esc1areceu-se: e d'esses rancores antigos não restava, entre o nosso povo, senão uma desconfiança que tinha a sua plena jnstificação na historia. 0 que fôra odio implacavel, e depois repugnancia tenaz, começou a converter-se, entre as classes mais cultas, n'uma sympathia propria de bons visinhos, e digna de povos civilisados e christãos.
Infelizmente houve quem tomasse esta transformação, que não é mais que indicio de progresso e de brandura nos costumes, como symptoma de indifferença pela propria nacionalidade. Houve quem pensasse, que seguindo o exemplo do nosso velho alliado dos tempos heroicos, o guerreiro Aragão, cujo elmo de bronze, dourado pelo sol de cem batalhas, jaz caido ao lado do leão de Castella, não nos repugnaria ver enxerir as quinas a um canto do escudo hespanhol! Era um d'aquelles equivocos que fazem sorrir mudamente; mas n'este caso, a mudez interpretou-se como indifferença, talvez como approvação.
Parte da imprensa periodica de Madrid suppoz que havia em Portugal quem estivesse enfadado de ser portuguez, e insinuou que, se nos unissemos á Hespanha, podiamos realisar altas phantasias de poder e engrandecimento, de que uma nação não precisa para ser feliz, nem aproveitar mais à civilisação commum para a qual todos os estados, pequenos e grandes, podem concorrer.
Porque deixámos passar sem constestação esses devaneios, pouco faltou para que tudo quanto constitue o nervo de uma nação, que os representantes de todas as actividades d'esta terra, os representantes da imprensa, da tribuna, da propriedade, do capital, do commercio, da milicia, do sacerdocio e da magistratura, fossem declarados ibericos! Pintavam um verdadeiro 1580.
Estas dissertações da imprensa interessada, e por isso incompetente, passaram as raias da peninsula, e acharam echo n'outra imprensa alem dos Pyrenéos, que tem a seu favor a presumpção de imparcialidade. Não affirmamos que o facto fosse fortuito e gratuito; o que sabemos só é que a poesia tornou-se doutrina, a utopia systema, e que depois d'isto não é permitido silencio.
Precisavamos, portanto, expor claramente a opinião unanime do povo portuguez, e assegurar aos homens e aos governos que se interessam no melhor regimento da familia européa, que é animo e deliberação nossa defender a integridade do territorio que possuimos, não acceitando aggregações incongruentes com o caracter e tradições nacionais, e que nos empenhamos, quanto cabe em nossas faculdades e no-lo permittem os obstaculos da governação que todos os povos tem encontrado nos aperfeiçoamentos sociaes, por sermos dignos de fazer parceria com as nações civilisadas, tanto pelos nossos feitos passados como pela nossa vida contemporanea.
Nenhuma rasão politica, moral ou economica, em beneficio commum da Europa, exige que Hespanha e Portugal formem um só estado; e o direito publico europeu, reconhecendo n'estes ultimos tempos, para todas as annexações e transacções politicas, como condição indispensavel, a vontade manifesta dos povos, não permitte que se constranja uma nação, por mais pequena que seja, a abdicar o seu nome, o seu passado, a sua autonomia.

Portugal, avivando e celebrando com mais solemnidade o anniversario da reconquista da sua Independencia em 1640, nem pretende ferir o pundonor da briosa nação hespanhola, nossa amiga e alliada, nem resuscitar os odios que outr'ora inimisaram os dois povos convisinhos.
Não quer repta-la. Não leva a mão á espada. Unicamente aponta para o seu direito, e diz á Europa que está decidido a defendel-o.
Nenhum outro motivo inspirou aos portuguezes a idéa de manifestar o seu patriotismo, determinando sem insinuação nem concerto prévio, na capital, nas provincias, em cidades e aldeias, repor na memoria nacional, com a devida solemnidade, o anniversario da Restauração da nossa Independencia em 1640.
O modo mais adequado de celebrar este anniversario, pareceu-nos ser aquelle mesmo que estabeleceram os nossos libertadores, com o addicionamento que a nossa gratidão lhes deve.
Na circular que junta com este manifesto, dirigimos ás commissões já instituidas, e ás que se houverem de crear, vão indicados os alvitres que adoptamos.
O sentimento publico, assim como se moveu, de por si, a esta manifestação, ha de realisa-la com sisudeza, sem ostentações vãs, e com a circumspecção que demanda tal solemnidade.

Lisboa, 25 de Agosto de 1861."

Brilhante texto, de uma actualidade impressionante!
Na sequência deste e de outros apelos daquela que se viria a tornar na Sociedade Histórica da Independência de Portugal, consagrou-se então a celebração do 1º de Dezembro, feriado nacional.

28 de Abril de 1886 - Foram inaugurados em Lisboa (Av. da Liberdade) o monumento e praça dos Restauradores. O monumento, cujo primeira pedra havia sido lançada em 1875.

Celebre-se então a nossa independência! Aqui fica a ligação para a Sociedade Histórica da Independência de Portugal, onde poderão ser consultadas as iniciativas e os festejos previstos para a nossa cidade.