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quarta-feira, 15 de julho de 2009

Canja, Laranjas e as Descobertas (da China)

Se os árabes trouxeram a cultura da laranja para a Península Ibérica? É correcto (originária da Pérsia). Então como se explica que em grego, turco, em árabe e até mesmo em persa (!) a laranja comum seja conhecida como "portugal" ou "portuguesa" nas respectivas línguas?
Saiba-se que foram os portugueses que trouxeram a laranja doce da China, no tempo das Descobertas, tendo esta substituído em grande medida a laranja amarga, essa sim, já previamente conhecida em quase todo o Mediterrâneo. O mais fascinante é como turcos, persas e árabes, estando mais perto da China, não a conheciam. Para que se veja como foi revolucionária a viagem de Vasco de Gama...

E a mui portuguesa canja de galinha? Afinal também veio da China... e o nome, do chinês ("congee")!
Embora na Ásia possa ter mais ingredientes, e consistência variando entre a sopa e espessa papa, a base é a mesma (arroz cozido). Graças às Descobertas, um prato que seria exclusivamente asiático também se tornou "tradicional" em Portugal (e depois, no Brasil, por razão óbvia). Por outro lado, o uso da canja para retemperar e recuperar de convalescenças, também é igualzinho, em Portugal e na Ásia!

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Como disse? Oi?

Já aqui recomendei a edição portuguesa da revista Time Out. Quanto aos guias turísticos da mesma editora, mal os conheço, mas aparentam qualidade mínima. No entanto, num dos seus guias sobre Lisboa, neste caso em português - edição brasileira em colaboração com o famoso jornal Estadão (S. Paulo) - encontrei esta "dica" que me deixou verdadeiramente atordoado:

"Evite falar em espanhol com os portugueses. [não estou a ver para quê, mas está certo] É melhor arriscar um inglês ou francês [oi? de certeza?], ou mesmo o português. [????????]"

Recordo, o guia está em português, dirigido a leitores que falam o português (ainda que com outro sotaque e uma ou outra diferença mais). Afronta? Penso que não, terá sido apenas um caso (mais um) de tradução literal (e por isso descuidada) do inglês.
É certo que o nosso sotaque não é fácil, no início, mas também duvido que o inglês ou o francês sejam alternativa prática...

Fica a brincadeira e uma saudação para os nossos primos de além-Atlântico...

terça-feira, 17 de março de 2009

Qual é o sítio mais alto de Lisboa?

Qual é, na topografia da cidade (excluindo construções), o ponto mais alto de Lisboa?

Para muita gente (sobretudo turistas), será o Castelo de São Jorge. É verdade, mas só em parte. Provavelmente será o sítio mais alto... que alguma vez visitaram em toda a cidade.

Não tão conhecido e muito menos afamado (injustamente) é o Monte de S. Gens, onde está o Miradouro da Senhora do Monte (bem como a Capela ou Ermida da mesma invocação). Segundo as fontes que consultámos pela internet fora, este recôndito miradouro (com uma das melhores vistas, senão a melhor da cidade) supera a antiga "acrópole" em altura, e é mesmo o sítio mais alto... da parte histórica de Lisboa. E como tal - mas não só - será talvez o mais alto dos que vale a pena visitar...

Em sequência, mais adiante, temos a Penha de França, que parece-me superar os anteriores, mas também não é o ponto mais alto de Lisboa.


O sítio mais alto do Concelho de Lisboa, sem margem para discussão, é o alto de Monsanto... no local onde se encontra actualmente o Estabelecimento Prisional, antigo Forte de Monsanto. 227 metros de altitude, medida modesta no que a serras diz respeito, mas suficiente para o domínio de Lisboa.
Mercê da topografia da "serra", do parque florestal ali plantado, bem como da vizinhança de outra zona alta, no outro lado Vale de Alcântara (altos de Campolide, Campo de Ourique), as vistas são limitadas.


Talvez seja possível visitar o Centro Emissor de Monsanto (mas não tenho a certeza). De qualquer forma, para os apreciadores de vistas "em altura", posso garantir que a vista do cimo dos edifícios das Amoreiras (o "shopping" de Tomás Taveira) é deslumbrante, magnífica...

No "tecto" de Lisboa - O Forte de Monsanto no princípio do Século XX
Fontes:
Lisboa Interactiva - CML
Arquivo Municipal de Lisboa

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Restelo

Torre de Belém... ou Baluarte do Restelo


É graças à minha filiação "clubística" que nutro especial carinho por esta zona da cidade (embora nunca lá tenha vivido), ao estudo da qual já dediquei algumas linhas, noutro espaço.

Qual é a origem do nome? E afinal, o que é o Restelo? Será descabida esta última questão?

Desde há várias décadas que o Restelo é reconhecido – pelo menos aos olhos do cidadão “comum” – como sendo a zona a Norte e Oeste de Belém, ocupada maioritariamente por vivendas e condomínios, e por isso tida como “nobre” ou de “luxo” (actual ou datado). O Estádio do meu Belenenses, baptizado “do Restelo”, acaba por demarcar o extremo a sudoeste dessa zona. Abaixo e para nascente, seguindo a Rua de Belém, ninguém duvida que está Belém, frente ao Tejo, sobre antiga praia.
No fundo, a criação da Freguesia de São Francisco Xavier veio dar mais algum sentido a esta separação.

No entanto, se olharmos para a história – para a origem – nem tudo é assim tão claro. Que o nome de Belém se deve à invocação de Santa Maria de Belém, no e pelo Mosteiro dos Jerónimos, bem como pelo templo Henriquino que o precedeu, é facto que não merece muitas dúvidas. Mas, que a própria zona do actual Mosteiro, frente ao rio, era conhecida como “praia do Restelo”, também é facto, também antigo e bem documentado (entre outros, pelo grande Fernão Lopes).
Temos então que, se o Restelo e Belém não são afinal a mesma coisa, pelo menos Belém acabou por ser uma parte do Restelo que ganhou nome e fama próprios.
Se atendermos à hipótese mais conhecida e consensual quanto à origem daquela toponímia, faz-se um pouco mais de luz sobre esta “transição”.

Em página da Paróquia de Santa Maria de Belém podemos ler que:

“Em meados do século XV, o Infante D. Henrique mandou ampliar uma pequena ermida que tinha sido fundada, na zona do Restelo, junto ao Tejo, sob a invocação de Nossa Senhora da Estrela, protectora dos navegantes. Enriquecendo o sentido da primeira invocação, o Infante dedicou a nova Igreja a Santa Maria de Belém.”

Assim se entende a ligação com a história da Natividade de Jesus Cristo, por intermédio da Estrela, a dos Reis Magos, mas também de Maria, mãe de Jesus, ela própria Estrela dos Mares, guia e protectora dos navegantes. Estes nomes e símbolos têm sido objecto de interpretação de várias correntes e “ciências”, ditas da “mística”, do “oculto”, na convicção de que escondem significados só acessíveis a uns. Sendo de interesse, são áreas do conhecimento que não domino minimamente – sobre as quais não posso elaborar muito, portanto.

Mas, no site da Agência Ecclesia, da Igreja Católica Portuguesa, encontramos mais elementos de interesse para a nossa questão:

“O nome deste lugar [Restelo], um povoado modesto mas estrategicamente vocacionado para (ante)porto de Lisboa, confunde-se com o desse primitivo santuário dedicado a Nossa Senhora da Estrela.

A interpretação mística é directa: Nossa Senhora era a luz para os navegantes que desejavam entrar sem perigo na barra de Lisboa; a Estrela evocava o misterioso astro que conduziu os Magos. E quando o Infante D. Henrique mandou edificar no Restelo essa igreja dedicada a Nossa Senhora de Belém, não foi o local do nascimento de Cristo que quis evocar – o presépio aonde acorreram os pastores e os anjos deram glória a Deus – mas antes o ponto de encontro das gentes com Cristo, Sacerdote, Profeta e Rei, para o qual se dirigiram aquelas três personagens míticas e ofereceram ouro, incenso e mirra.”

Esquecendo propositadamente as outras questões, encontramos agora e finalmente uma justificação, geralmente aceite, para o nome “Restelo”: surgiu por corrupção de Estrela (ou de “SenhoRa-Estrela”). Bem próxima anda outra hipótese, muito semelhante (por conotações marinheiras mas também espirituais), pela qual a origem se deve à palavra “Setestrelo”, que se refere à constelação da Ursa Maior, muito importante para quem queira encontrar a Estrela do Norte, guia dos navegantes (isto no Hemisfério Norte, obviamente).


Estádio do Restelo... casa d'Os Belenenses

Ninguém ou mesmo nada sou para pôr em causa aquela primeira hipótese (“Senhora da Estrela”), que é em quase todos os seus aspectos bem plausível e “encaixa” perfeitamente numa miríade de sentidos, mais claros ou mais obscuros. No entanto, creio que encontrei (ou redescobri?) uma alternativa, no mínimo, muito interessante.

A alternativa em questão pouco ou nada remete para o religioso ou espiritual, nem tão-pouco para as obras régias. Fica bem, isso sim, ao lado de uma Junqueira ou de Pedrouços, topónimos de fácil e óbvia interpretação. Por outro lado, a suposição de corrupção de uma outra palavra, ainda que possa ser também antiga (embora não tanto como a lenda de Ulisses em Lisboa), é algo que merece algumas reservas, sobretudo tratando-se de nomenclatura religiosa (será assim tão aceitável, passar de “Senhora da Estrela” para “Restelo”?).

Porque se dizia e escrevia “Rastelo” ou “Rastello”, palavra essa que tinha (e tem) outro significado em português… e que sobrevive, precisamente, na palavra “restelo”?

Vejamos o que nos diz este texto, sobre os famosos “12 trabalhos” do linho (Museu da Agricultura de Fermentões):

“(…) [sobre o acto de] assedar: depois de limpas as impurezas as fibras são separadas por cumprimentos e espessuras. As mais longas e finas formam o linho, as mais curtas e grosseiras, a estopa. Para isso usam-se os sedeiros, instrumentos com dentes de aço finos e serrados, nos quais se passam as estrigas de linho. A estopa que fica, antes de ser fiada tem que se submeter a outra operação. Em manadas a estopa é passada no restelo, uma espécie de pente largo de madeira com dentes de aço grandes e pontiagudos. Depois de ‘penteada’ a estopa está pronta a ser fiada.”

E agora, o que nos diz o dicionário Priberam:

Restelo: rastelo; azeitonas caídas no chão antes de varejadas, ou espalhadas por descuido dos ranchos [possível mas improvável, no nosso caso].
Rastelo: fieira de dentes de ferro por onde se passa o linho para se lhe tirar a estopa; grade com dentes de pau, para aplanar a terra lavrada;
Da mesma maneira existem os verbos “restelar” ou “rastelar”, cujo acto por sua vez dá origem ao substantivo “restelo” ou “rastelo”.

Note-se que, no Brasil, a palavra “restelo” surge muitas vezes associada ao significado acima referido para “rastelo”, como utensílio agrícola ou de jardinagem. Aliás, não é invulgar que o camoniano “Velho do Restelo” passe, ainda que só por sugestão… por jardineiro.

Ainda na área do português, ou melhor, do galego-português, encontramos também matéria interessante. Os significados que encontramos no português, relativos ao trabalho do linho, encontramo-los também no galego actual, em palavras semelhantes: “rastrelo” ou “restrelo”. Variações que, curiosa e precisamente, também chegaram a ser utilizadas pelos cronistas portugueses para designar o “nosso” Restelo.
Mas há mais ainda, falando da Galiza: também lá, na zona de Finisterra, há uma praia do Restrelo!

Ora, tendo o mesmo significado, não será a origem a mesma, ligada ao trabalho do linho?
Ou será a origem a mesma, mas a outra, se atendermos ao Campus Stellae (de Compostela)?

A segunda hipótese parece-me claramente arriscada, embora sedutora, sobretudo se enveredarmos pela descoberta de subtis e complexos significados (como os que se escondem nos mais elaborados traços dos Jerónimos, ao que parece).

Quanto à primeira hipótese, fica por explicar um aspecto essencial. Se o nome daquelas praias se deve ao linho… como e porquê?
É uma conjectura, mas com pistas promissoras: quer na região da Galiza em causa, quer no “nosso” Restelo, a plantação e tratamento do linho eram de facto actividades comuns, favorecidas pela proximidade de grandes massas de água (a humidade, ao que vim a saber, é factor importantíssimo). Para além disso, ainda hoje podemos encontrar, entre a Rua de Belém e a Rua Vieira Portuense, uma “Travessa das Linheiras” (fiel à tradição local de associar a toponímia a ofícios e indústrias – Travessa dos Ferreiros, Travessa das Galinheiras…)!
Considerando ainda que aquelas casas e ruas são, na sua grande maioria, quinhentistas, temos assim uma referência bem antiga, que por sua vez poderá remeter para épocas mais remotas (lembro por exemplo a popularidade do linho entre os árabes, bem como, por altura da sua ocupação, o facto de o Restelo ter sido uma zona eminentemente rural e agrícola).

E estariam então ali as linheiras, à vista da praia, a separar a estopa do linho… ocupadas com o seu “restelo”? E como poderiam não sabê-lo príncipes, clérigos e cronistas? Poderiam muito bem, penso eu, na mesma medida em que o próprio povo esqueceu e esquece a(s) origem(s).

Fontes:
Priberam
Paróquia de Santa Maria de Belém
Agência Ecclesia
Museu Agrícola de Fermentões

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Como isto anda...

Estamos em Julho e isto não parece mesmo nada Julho. As malditas alterações climáticas... mais a consciência ecológica à pressa...
Ontem li um artigo sobre carros a hidrogénio e, mesmo que tivesse alguma imprecisão (parece tudo bom demais), fechei os olhos e sonhei.
Sem o ruído dos motores, água pura a pingar dos escapes...

segunda-feira, 25 de junho de 2007

O homem que inventou o "Multibanco"

O site da BBC online é dos poucos que visito com frequência diária, por considerar que tem qualidade e riqueza de informação (com o tradicional rigor). Também tem, todos os dias, algo que faça sorrir.
É o caso deste artigo, que nos fala do senhor que inventou as caixas "Multibanco", em 1967. Ficamos também a saber que o PIN tem quatro dígitos porque a esposa do senhor disse que era melhor assim, à conversa na cozinha. Tudo "very British", no sentido mais simpático possível:

http://news.bbc.co.uk/2/hi/business/6230194.stm

quarta-feira, 14 de março de 2007

Os "grandes portugueses" e Lisboa (1ª parte)

Não vou discutir os fundamentos e a legitimidade que assiste à eleição promovida pela RTP, sobre os "Grandes Portugueses". Da mesma forma evitarei tomar qualquer partido. O objectivo do presente é tão só evidenciar a ligação de cada um dos 10 "Grandes Portugueses" eleitos para a fase final com a cidade de Lisboa, que por ser capital de Portugal, está naturalmente presente na biografia de todos.

Comecemos por saber quem daqueles dez era "alfacinha": dois poetas e dois reis.

Desses quatro, aquele que poderá ser considerado o mais "alfacinha" de todos é Fernando Pessoa, não só porque nasceu e morreu nesta cidade - obviamente - mas por toda a sua vivência e obra, ao ponto de existir uma "Lisboa Pessoana" (que é sem dúvida uma das mais fascinantes, senão a mais fascinante de todas as Lisboas alguma vez concebidas).
Nasceu num prédio no Largo de São Carlos, foi baptizado na Igreja dos Mártires, no Chiado e faleceu no Hospital de São Luís dos Franceses.
Como se não bastasse, ficou a sua figura para sempre "presa" a Lisboa no corpo da famosa estátua que existe no Chiado, n'A Brasileira, que é especialmente popular para fotografias de pose de quase toda a turistada que passa, muita dela porventura sem fazer a mínima idéia de quem se trata. Seria engraçado conhecer a opinião de Pessoa sobre o assunto!
Em Lisboa existe também a casa-museu Fernando Pessoa (Rua Coelho da Rocha), promotora de frequentes actividades culturais e dotada de espólio diverso, onde se incluem pinturas de autores com Almada Negreiros. De referir que, exceptuando a traça exterior e o último quarto onde viveu o poeta, todo o restante do edifício é de arquitectura moderna.

O outro poeta é Luís Vaz de Camões, embora neste caso não haja certeza quanto ao facto de ter nascido em Lisboa, embora seja a naturalidade normalmente sugerida. Certeza há que morreu em Lisboa.
Viveu em pleno a época das Descobertas, tendo viajado por meio mundo em variadas peripécias. Essa vastidão de horizontes justificou a grandeza da sua obra em todos os aspectos, a par do excelente conhecimento das obras de autores clássicos.
Em contrapartida, as estadias de Camões em Lisboa foram sempre atribuladas, entre os píncaros e a miséria, granjeando pelo meio fama de inveterado boémio.
Camões entrou para a toponímia lisboeta já nos finais do século XIX, quando foi inaugurada a sua estátua (magnífica, por sinal) no largo que tem hoje o seu nome, no coração fervilhante daquela parte da cidade (reconhecível até no cinema, como no clássico "O Pai Tirano"). O largo passou mesmo a ser conhecido apenas como "o Camões".
Mais recentemente chegou a estar "o Camões" (isto é, a estátua) fora do lugar, para que se procedesse à construção de um parque de estacionamento subterrâneo (com tanto lugar...). Com as obras descobriram-se vestígios do que já se sabia ter ali existido, como as ruínas do Palácio do Marquês de Marialva, que foi destruído e parcialmente soterrado devido ao terramoto de 1755, e até vestígios de ocupação romana.
É também em Lisboa que está sediado o Instituto Camões, dedicado ao ensino e divulgação da língua portuguesa no Mundo. Lembra o Instituto Cervantes espanhol, mas com uma diferença importante: é que Camões esteve mesmo na maior parte dos sítios onde a língua portuguesa chegou há 500 anos atrás (que ele também a levou!).

(continua)

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

Era em... Alcântara


É a resposta à questão colocada no anterior post: a fotografia apresentada, com data aproximada do ano 1912, é do vale de Alcântara e da antiga ribeira hoje "encanada". Ao fundo vê-se a "Ponte Nova", que por certo seria bem mais recente que a antiga (embora nenhuma delas exista hoje em dia) que deu nome ao lugar. Porque Alcântara vem do árabe Al Qantarah, que siginica, precisamente, a ponte. Pelo menos já desde o tempo dos árabes que ali deveria existir uma.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

Era assim... onde?

Por entre casario velho e rústico serpenteia uma ribeira onde as lavadeiras lavam a roupa. Era assim, era em Lisboa? Onde?

segunda-feira, 17 de julho de 2006

Alfama


Voltamos a assuntos de toponímia, desta vez contemplando um dos mais antigos bairros de Lisboa, Alfama. Que o nome terá origem árabe, parece óbvio. E é.

Alfama deriva de "Al-Hama" (ou "al-hamma"), designação que surge de forma mais fiel e com expressiva abundância na vizinha Espanha. De facto, são inúmeras as "Alhamas" do outro lado da fronteira. Estranhamente, em Portugal, apenas se conhece a "Alfama" alfacinha (?)...

O que significa "al-hama"? Segundo apurámos, significa fonte termal ou de águas tépidas. Numa interpretação mais lata e adaptada, poderá significar também "banhos" (ou "banhos termais"). São inúmeros os locais em Espanha em que a associação do nome "Alhama" é justificada precisamente por aquelas circunstâncias.

Então o nome da Alfama lisboeta também se deve à existência de nascentes de águas termais? Hoje em dia, poderá parecer estranho. Mas há algumas décadas atrás, ainda no Séc. XX, seria mais fácil de entender. Com efeito existiam ali várias nascentes (e existem ainda, se bem que soterradas e com menor caudal) das quais brotava água a temperaturas acima do normal e, nalguns casos, com propriedades terapêuticas reconhecidas. Até ao início do século passado existiam mesmo "banhos públicos" para aproveitamento dessas águas. Contudo, dada a precaridade dessas explorações bem como a progressiva contaminação das águas, tais estabelecimentos desapareceram.

De assinalar que há poucos anos (2002) surgiu um projecto para reaproveitamento dessas nascentes, não ignorando até o seu potencial como fonte de energia alternativa (calorífera). Não sabemos como está esse projecto, mas é bem interessante.

Assim sendo, o nome "Alfama" não corresponde ao de bairro ou reduto de densa aglomeração, como alguns defendem.

Como nota final, existe uma "Al-Hamma" em territórios disputados pela Síria e Israel (que a ocupou nos anos 50 do século passado), reputada... pelos seus banhos termais.

quarta-feira, 26 de abril de 2006

São Vicente, aqui e ali

Num recente passeio pela bela cidade espanhola de Valência deparei-me com algo intrigante. Constatei que São Vicente era o padroeiro da cidade, merecendo inúmeras referências (incluindo o nome de uma das ruas principais) e até que, como se anunciava, por lá estariam restos (se é que assim se pode falar) do seu corpo.
"Mas o que é isto", pensei eu, "então o pobre São Vicente não se encontra na Sé de Lisboa desde os tempos (e por ordem) de Afonso Henriques, depois da tal viagem desde Sagres, acompanhado pelos dois corvos?".

Na Catedral da cidade lá percebi um pouco melhor do que se tratava. Ali apresentam uma relíquia em particular, que afirmam ser um dos braços do Santo mártir. Não sei se será verdade ou não, até porque a questão das relíquias de São Vicente sempre foi controversa e cheia de elementos de lenda.

Estará assim um dos braços em Valência e o resto do corpo em Lisboa? E dado que em Paris, Le Mans e Saragoça, também reivindicam a posse de outras relíquias, afinal o que estará em Lisboa?

Não sei se valerá a pena saber o que é verdade ou não, até porque este macabro "retalhar" de relíquias não me parece nada dignificante.

Que fique no entanto para registo que São Vicente também é padroeiro de Valência...

quarta-feira, 30 de novembro de 2005

Restauração da Independência

Celebra-se amanhã mais um aniversário da Restauração da Independência (1640). A cidade de Lisboa, como capital do País, teve naturalmente um papel fundamental, não só como palco da revolta em si mas também em anos (séculos) posteriores, sempre que foi necessário reafirmar e celebrar a Independência de Portugal. Aqui fica uma súmula dos acontecimentos relevantes:

25 de Agosto de 1580 - Tomada de Lisboa pelo exército castelhano, liderado pelo Duque de Alba, após derrotar o exército português liderado por D. António (prior do Crato e aclamado Rei de Portugal em Junho) na Batalha de Alcântara. Forçado ao exílio, D. António tentaria posteriormente o regresso e reconquista do trono de Portugal com o auxílio de ingleses e franceses, sem sucesso. Viria a falecer em Paris a 25 de Agosto de 1595. Depois da morte de D. Sebastião em Alcácer-Quibir (1578) e do seu tio D. Henrique (1580), chegava ao fim a dinastia de Avis, quase 200 anos depois de Aljubarrota. Felipe II de Espanha tornava-se Filipe I de Portugal, mantendo-se assim no plano formal a separação dos reinos.

1 de Dezembro de 1640 - Após 60 anos em que a verdadeira independência e os interesses dos portugueses foram sendo cada vez mais postos em causa, levantou-se um movimento de conjurados (desde 1638-39) com vista à deposição do poder filipino e coroação de um novo Rei de Portugal. D. João, Duque de Bragança, afigurava-se como o mais provável e legítimo candidato, pelo que os conjurados cedo tentaram conseguir que assim se assumisse e desse o seu apoio a uma revolta. O Duque de Bragança, porém, sujeito a um rigoroso controlo por parte da coroa espanhola, hesitava num mar de dúvidas no seu Paço de Vila Viçosa. Ainda assim desobedeceu e furtou-se hábil e discretamente a várias ordens do Governo de Madrid que procuravam afastá-lo de Portugal, sendo mais significativa a sua recusa em reunir tropas para ajudar a pôr fim à revolta da Catalunha. Perante tais condicionantes, não desamimaram nem desarmaram os conjurados, que prosseguiram os seus intentos sempre dando conta dos mesmos ao Duque, sempre que possível. Após algumas reuniões em Outubro nas quais se preparava já a revolta, foi finalmente durante o dia 30 de Novembro e madrugada fora do dia 1 de Dezembro de 1640 que os conspiradores, oriundos de várias classes e possuidores de variados estatutos, se reuniram no Palácio dos Condes de Almada (ao Rossio) para dar início ao plano. Na manhã desse Sábado (dia 1) dirigiram-se ao Paço da Ribeira (Terreiro do Paço), dissimulados e em número aproximado de 40 elementos (!). Dividindo-se em grupos venceram pela surpresa as guarnições ali existentes. Um dos grupos encontrou finalmente Miguel de Vasconcellos, o odiado Secretário de Estado que governava efectivamente o país à vontade e submissão da coroa espanhola, que desde então e para sempre teve o seu nome eleito como símbolo de traição ao país. Foi morto e defenestrado, para contentamento não só dos conjurados mas ao que parece da própria Vice-Rainha, Margarida de Sabóia (Duquesa de Mântua), que apesar do seu estatuto pouco ou nada governava (em detrimento de Miguel de Vasconcellos). Porém e para concluir com sucesso a revolta foi também presa a Duquesa bem como a quase totalidade da fidalguia espanhola instalada em Lisboa, que por sorte estava presente no Paço (facilitando assim a tarefa dos conspiradores). Restavam as guarnições do Castelo de São Jorge e das fortificações da barra do Tejo, enquanto o povo, jubilante, aderia plenamente à revolta e se encarregava do resto, tomando o Senado de Lisboa e para si a bandeira da cidade. Não resistiram muito as ditas guarnições, sendo todas as fortificações tomadas pelos conspiradores e pelo povo sem grandes dificuldades.
Com 40 homens e, ao que se sabe, apenas 3 mortes (do lado pró-espanhol), se libertou assim o país do jugo da poderosa Espanha.
As notícias depressa chegaram a Vila Viçosa, onde se encontrava o Rei aclamado, bem como ao resto do país, onde foram recebidas com tal júbilo e apoio que mais parecia que o domínio filipino havia durado um só dia. Reconquistou-se Portugal, estava reconquistada a independência.

6 de Dezembro de 1640 - O novo rei D. João IV entrou finalmente em Lisboa, em perfeita apoteose. Daí em diante tratou de recuperar o Império até então gravemente em desleixo. As possessões na Ásia, salvo raras excepções, já haviam sido irremediavelmente perdidas em massa para ingleses, franceses e holandeses (todos inimigos dos espanhóis). Em África idem, embora o caso mais grave fosse a perda de Ceuta, arduamente conquistada 225 anos antes sob as ordens de D. João I, Mestre de Avis vitorioso de Aljubarrota. Já plenamente controlada e dominada pelos espanhóis, a cidade optou pela fidelidade ao país vizinho, embora mantendo no seu escudo e até hoje as armas de Portugal. En contrapartida, o fiel Brasil, cada vez mais "jóia da coroa", assim se manteve, mas como jóia da coroa portuguesa.

24 de Maio de 1861 - Foi fundada a Comissão Central do 1º de Dezembro de 1640, que mais tarde viria a dar origem à Sociedade Histórica da Independência de Portugal. Desde a Restauração de 1640 tinham-se sucedido outros episódios que haviam feito perigar a independência do país.
Logo nas três décadas seguintes a Espanha, inconformada, prosseguiu uma guerra contra a coroa portuguesa, só se dando por vencida 28 anos depois de 1640.
Mais tarde, em 1807, dão-se as invasões francesas. Deposta a monarquia espanhola em favor de Napoleão, França e Espanha planeiam a captura e derrota de Portugal e a subsequente partilha do território português e suas colónias. D. João VI, Rei de Portugal, opta por embarcar rumo ao Brasil, procurando assim salvaguardar, para além da sua vida e a dinastia, a maior colónia do Império. Em 1814, derrotada a França, Portugal poderia receber de novo o seu rei. Este, no entanto, demora ainda, enquanto no Brasil o movimento para a respectiva independência ganha cada vez mais força.
Sucedem-se a independência efectiva do Brasil e a cruenta Guerra Civil em Portugal, opondo liberais e absolutistas.
Em 1861 vive-se a paz, mas o que resta do país e do seu império já nada tem a ver com as glórias passadas. São tempos conturbados e de agitação latente. No meio da proliferação de idéias e movimentos "político-intelectuais", surge uma corrente chamada "iberista", que evoca com saudade a época filipina e advoga uma nova união das coroas como melhor caminho para Portugal. É então que se juntam de novo pessoas de diferentes condições (e até convicções políticas), que unidos sob um fervor patriótico e nacionalista resolvem fundar a Comissão Central do 1º de Dezembro de 1640. De novo Lisboa é o palco, sendo a sede o mesmo Palácio dos Condes de Almada, futuro Palácio da Independência (até hoje). Os comissários de então apelam ao povo para que demonstrasse o seu patriotismo e repúdio pelo "iberismo", ali mesmo, junto ao Palácio onde tudo havia começado 221 anos antes. É posteriormente elaborado um manifesto para ser distribuido pelo país inteiro, visando grandiosa e adequada celebração da Restauração. Na redacção desse manifesto tomaram parte "o historiador Alexandre Herculano, o orador José Estevão Coelho de Magalhães, e os escritores Dr. Gomes de Abreu, lente da Universidade de Coimbra, e António da Silva Túlio" (site da SHIP). Aqui reproduzimos aquela fervorosa e admirável exortação:

"A commissão eleita pelos cidadãos lisbonenses que se reuniram no histórico palacio dos Condes de Almada, para prescrever o modo por que na capital se há de dar maior solemnidade ao anniversário da revolução de 1640, que restituiu a Portugal os fóros de nação independente, de que fôra esbulhada por Filippe II de Castella em 1580, julgou conveniente, antes de tomar qualquer arbítrio, expor aos seus eleitores e a todo o reino a interpretação que dá mandato com que foi honrada derivando essa interpretação não só dos termos em que elle é concebido, mas também do pensamento que attribue ao povo portuguez, na commemoração solemne que, tanto em Lisboa como n’outras terras do reino, deliberou fazer no dia 1.º de Dezembro próximo.
O povo portuguez, seguro da sua existencia nacional, e conscio dos imprescríptiveis direitos em que ella assenta, sem ter esquecido as heroicas acções com que seus antepassados conquistaram e mantiveram a independência da patria, havia quasi apagado, pelo, pelo seu caracter humano e pacifico, a recordação publica de cruentas pelejas, que foram mais um desengano, entre tantos que a historia accumula, de que a força e a ambição, por si sós, não lograram no mundo triumphos duradouros.
Depois que a Hespanha perdeu Portugal, por essa lei immutavel que em differentes periodos, mas com o mesmo rigor, tem posto por terra todos os senhorios creados sómente pela violencia, os dois povos da peninsula, constituidos em nacionalidades separadas, tem corrido a mesma sorte, tanto nas contendas internas como na grande lucta européa, em que batalharam pelo mesmo principio, alcançando dos seus triumphos, não a sujeição de um ao outro, mas a independencia de ambos.
A França, com inteira abnegação, depoz no archivo das suas glorias militares o mappa das conquistas que fizera; e, convencida de que a sorte das armas fôra a sentença da rasão e da justiça, nem hoje, que tão crescida está em poder e tão voltada às suas recordações guerreiras, se julga com direito aos dominios que perdeu, nem tão pouco se mostra propensa a empregar os seus exercitos para os reconquistar á face da Europa.
A Hespanha, seguindo este exemplo, não se humilha; antes fôra mais para lhe estranhar a ella o intento de avassallar Portugal, do que á França o designio de retomar os estados que out'ora formaram o seu ephemero e revolto imperio.

A dominação estrangeira gera sempre rancores que se transmittem de geração a geração, e que só o decurso do tempo póde apagar; sobretudo quando esse dominio pesou duramente sobre uma nação altiva e generosa.
Ha quasi tres seculos que nossos avós caíram na servidão estranha. A Providencia punia talvez com esse castigo uma epocha de lastimosa decadencia moral. Sessenta annos de oppressão reanimaram pela dôr de crueis padecimentos, as virtudes publicas esmorecidas, e os brios heroicos de um povo de soldados. A gente portugueza quebrou então o jugo, e combateu. Deus abençoou os seus esforços. Suppunham que Portugal se ia dissolvendo no tumulo; e elle, como Lazaro, ergueu-se á voz do Senhor!
A lucta foi longa, e ainda hoje. n'esta terra da pátria, que é santa para nós, como esperamos que a seja para nossos netos, ha vestigios do que nos custou a independencia e a liberdade.
A geração que combateu, a geração que lavou com sangue o seu testamento politico nos campos de batalha ou nos muros rotos das povoações incendiadas, legou aos filhos uma herança de odio vingativo. Aquelles tempos não eram como estes nossos: e que o fossem se essa ruim paixão póde ter desculpa, é quando se enraiza no coração do que é ou do que foi servo contra os seus oppressores.
Os annos volveram, a civilisação caminhou; a razão publica esc1areceu-se: e d'esses rancores antigos não restava, entre o nosso povo, senão uma desconfiança que tinha a sua plena jnstificação na historia. 0 que fôra odio implacavel, e depois repugnancia tenaz, começou a converter-se, entre as classes mais cultas, n'uma sympathia propria de bons visinhos, e digna de povos civilisados e christãos.
Infelizmente houve quem tomasse esta transformação, que não é mais que indicio de progresso e de brandura nos costumes, como symptoma de indifferença pela propria nacionalidade. Houve quem pensasse, que seguindo o exemplo do nosso velho alliado dos tempos heroicos, o guerreiro Aragão, cujo elmo de bronze, dourado pelo sol de cem batalhas, jaz caido ao lado do leão de Castella, não nos repugnaria ver enxerir as quinas a um canto do escudo hespanhol! Era um d'aquelles equivocos que fazem sorrir mudamente; mas n'este caso, a mudez interpretou-se como indifferença, talvez como approvação.
Parte da imprensa periodica de Madrid suppoz que havia em Portugal quem estivesse enfadado de ser portuguez, e insinuou que, se nos unissemos á Hespanha, podiamos realisar altas phantasias de poder e engrandecimento, de que uma nação não precisa para ser feliz, nem aproveitar mais à civilisação commum para a qual todos os estados, pequenos e grandes, podem concorrer.
Porque deixámos passar sem constestação esses devaneios, pouco faltou para que tudo quanto constitue o nervo de uma nação, que os representantes de todas as actividades d'esta terra, os representantes da imprensa, da tribuna, da propriedade, do capital, do commercio, da milicia, do sacerdocio e da magistratura, fossem declarados ibericos! Pintavam um verdadeiro 1580.
Estas dissertações da imprensa interessada, e por isso incompetente, passaram as raias da peninsula, e acharam echo n'outra imprensa alem dos Pyrenéos, que tem a seu favor a presumpção de imparcialidade. Não affirmamos que o facto fosse fortuito e gratuito; o que sabemos só é que a poesia tornou-se doutrina, a utopia systema, e que depois d'isto não é permitido silencio.
Precisavamos, portanto, expor claramente a opinião unanime do povo portuguez, e assegurar aos homens e aos governos que se interessam no melhor regimento da familia européa, que é animo e deliberação nossa defender a integridade do territorio que possuimos, não acceitando aggregações incongruentes com o caracter e tradições nacionais, e que nos empenhamos, quanto cabe em nossas faculdades e no-lo permittem os obstaculos da governação que todos os povos tem encontrado nos aperfeiçoamentos sociaes, por sermos dignos de fazer parceria com as nações civilisadas, tanto pelos nossos feitos passados como pela nossa vida contemporanea.
Nenhuma rasão politica, moral ou economica, em beneficio commum da Europa, exige que Hespanha e Portugal formem um só estado; e o direito publico europeu, reconhecendo n'estes ultimos tempos, para todas as annexações e transacções politicas, como condição indispensavel, a vontade manifesta dos povos, não permitte que se constranja uma nação, por mais pequena que seja, a abdicar o seu nome, o seu passado, a sua autonomia.

Portugal, avivando e celebrando com mais solemnidade o anniversario da reconquista da sua Independencia em 1640, nem pretende ferir o pundonor da briosa nação hespanhola, nossa amiga e alliada, nem resuscitar os odios que outr'ora inimisaram os dois povos convisinhos.
Não quer repta-la. Não leva a mão á espada. Unicamente aponta para o seu direito, e diz á Europa que está decidido a defendel-o.
Nenhum outro motivo inspirou aos portuguezes a idéa de manifestar o seu patriotismo, determinando sem insinuação nem concerto prévio, na capital, nas provincias, em cidades e aldeias, repor na memoria nacional, com a devida solemnidade, o anniversario da Restauração da nossa Independencia em 1640.
O modo mais adequado de celebrar este anniversario, pareceu-nos ser aquelle mesmo que estabeleceram os nossos libertadores, com o addicionamento que a nossa gratidão lhes deve.
Na circular que junta com este manifesto, dirigimos ás commissões já instituidas, e ás que se houverem de crear, vão indicados os alvitres que adoptamos.
O sentimento publico, assim como se moveu, de por si, a esta manifestação, ha de realisa-la com sisudeza, sem ostentações vãs, e com a circumspecção que demanda tal solemnidade.

Lisboa, 25 de Agosto de 1861."

Brilhante texto, de uma actualidade impressionante!
Na sequência deste e de outros apelos daquela que se viria a tornar na Sociedade Histórica da Independência de Portugal, consagrou-se então a celebração do 1º de Dezembro, feriado nacional.

28 de Abril de 1886 - Foram inaugurados em Lisboa (Av. da Liberdade) o monumento e praça dos Restauradores. O monumento, cujo primeira pedra havia sido lançada em 1875.

Celebre-se então a nossa independência! Aqui fica a ligação para a Sociedade Histórica da Independência de Portugal, onde poderão ser consultadas as iniciativas e os festejos previstos para a nossa cidade.

segunda-feira, 21 de novembro de 2005

Vox Populi

Rossio e Terreiro do Paço, obstinada e comodamente lhes chamam o povo de Lisboa. O primeiro é nome seguramente mais antigo enquanto a sua designação "oficial" (Praça D. Pedro IV) é relativamente mais recente (a partir de 1836). Quanto ao Terreiro do Paço, assim ficou a ser conhecido pela importância do Palácio Real (Paço) que D. Manuel ali decidiu instalar em 1511. Com o terramoto de 1755 e a reconstrução pombalina mudou-se o Paço para outras paragens (Ajuda) e surgiu a Praça do Comércio... mas não desapareceu da voz do povo a denominação antiga.

Por curiosidade, não se pense então que Lisboa afinal não tem um Rossio. Tem (mais) três! A saber: o Rossio de Palma (ali para os lados da Palma de Baixo) e os novíssimos Rossio dos Olivais (em pleno Parque das Nações, junto ao Pavilhão Atlântico) e Rossio do Levante (também na "nova" zona oriental - Moscavide).

Mas se a voz do povo é teimosa, outros casos existem em que terão vingado os novos baptismos. Trago-vos um exemplo relativamente recente e abrangente: a Palhavã. A maior parte de nós ainda saberá perfeitamente onde fica a zona da Palhavã, mas quando alguém nos pergunta... é Praça de Espanha. Ironicamente este nome deve-se à presença da Embaixada de Espanha... instalada no antigo Palácio da Palhavã (e em bom rigor este ainda se deveria chamar assim). Contudo o golpe final deverá ter sido desferido pelo Metropolitano de Lisboa, que só muito recentemente rebaptizou a respectiva estação, de Palhavã para Praça de Espanha. Não deixou de ser a voz do povo, é certo... mas o povo mudou de idéias. Onde pára a Palhavã (e a antiga estrada da Palhavã)?

Mais recente ainda - e para finalizar, outro caso de "resistência". Se calhar todos sabem onde é a Praça do Aeroporto, mas para mim continuará a ser a Rotunda do Relógio, mesmo que o dito relógio de ponteiros tenha entretanto desaparecido!

Terreiro do Paço sem terreiro e sem paço, Palhavã sem palha, Rotunda do Relógio sem o velho relógio... e esta, hein? É a voz dos tempos!

segunda-feira, 14 de novembro de 2005

Borratém... e a figueira

Depois do "post" sobre Maximiliano no Rossio e do subsequente "desafio" de Paulo Ferrero (do recomendadíssimo Cidadania Lx) passei à Rua da Betesga (ver abaixo).
Hoje e para não ir muito mais longe detenho-me na vizinha Rua do Poço do Borratém, que da Praça da Figueira e bordejando a encosta parte em busca do actual Martim Moniz.

A actual Rua do Poço do Borratém, ao que consegui apurar e um pouco em contrário do resto da Baixa, não difere muito em percurso (talvez mesmo nada) da rua ali existente antes do Terramoto de 1755. Aliás olhando para o mapa da zona parece que esta e a Rua da Madalena fazem de fronteira entre a baixa de "régua e esquadro" (a pombalina, a ocidente) e a encosta de ruas sinuosas e casario diverso.
Se é arriscado para mim avançar com a época exacta em que se fez a rua (fora da "cerca moura", salvo erro), parece-me mais seguro, depois de alguma investigação (embora algo superficial), avançar sobre qual a origem do seu nome.

Quanto ao poço, claro, não haverá que dar mais voltas. Existiu e, ao que sei, existe ainda o Poço do Borratém, embora hoje "escondido" dentro de um edíficio de origem "pombalina" (onde hoje é um hotel, no nº4). Uma das mais conhecidas referências ao poço (e das mais antigas, penso) encontra-se no Pranto de Maria Parda, de Gil Vicente. Ali a pobre Maria lamenta-se da escassez de vinho na cidade (que efectivamente terá ocorrido em ano vinícola bastante mau - 1522), andando a pedinchar, pranteando, por uma taça do dito. E numa das tentativas recebe a resposta "Muyta agoa há em Boratém", lembrando que a água lhe mataria bem a viciada sede. Ficando assim a saber que já em 1522 era afamado o poço, sigo agora com algumas pistas sobre a origem do termo "Borratém".

Sem grande surpresa (até pela sua fonética) encontrei elementos que apontam para a sua origem árabe... ou hebraica. Parece-me de esquecer alguma outra ingénua e fácil tentação, como tantas que há por aí, de fazer associar a palavra a "borra-tem".
"Bir" significa poço em árabe, enquanto em hebraico se diz "bor" (mesmo em árabe a pronúncia assemelha-se a esta). Quanto ao resto... "at-tin" significa figueira em árabe. Pelo que "bir-at-tin" significa "poço da figueira". Por sua vez em hebraico (e em virtude da origem comum), poderíamos ter "bor-a-te'enah" ("poço da figueira") ou até mesmo "bor-a-te'enim" ("poço das figueiras").
E aqui, inesperadamente para mim, passo a envolver a história outro local emblemático, a Praça da Figueira. Nas explicações que conheço para justificar o nome da praça é referida, obviamente, uma figueira. Com todos estes elementos é difícil duvidar que na zona existiria pelo menos uma! No entanto refere-se com frequência que a árvore não estaria bem ali mas sim perto do antigo Paço dos Estaus (lado norte do Rossio), onde supostamente seria a última visão para os condenados da Inquisição que pouco depois conheciam o seu destino fatal. Teria vindo daí o nome da praça, contruída depois de 1755. A hipótese que emerge, quanto a mim, é a de que ainda antes dessa época e - sobretudo - antes da construção do Hospital Real de Todos os Santos (1501) poderá já ter existido uma praça da figueira... junto ao "poço da figueira". Em comum, a figueira, embora o nome do poço se quedasse com a versão árabe ou judaica.

Poderá então ter surgido uma praça e o poço da figueira ainda aquando da ocupação árabe? Ali, no meio do casario que se já aninhava contra o exterior das muralhas, não muito longe da Porta da Alfofa? Salvo melhor opinião (e é uma opinião, note-se), creio que não. Até à reconquista cristã corria ainda a céu aberto a ribeira, pelo que não vejo muito sentido nisso. Pelo contrário, creio que tal deverá ter sido após o subsequente estabelecimento da Mouraria (e de uma judiaria também, ao que parece).

De qualquer forma, ali havia uma figueira (uma, pelo menos!)...

sexta-feira, 11 de novembro de 2005

Meter o Rossio na Betesga

Recebi o prazenteiro desafio de aqui trazer a célebre expressão "meter o Rossio na Betesga". À partida não tenho qualquer conhecimento privilegiado senão o da utilização corrente - embora cada vez menos - da própria expressão (por vezes hoje utilizada numa forma que creio já ser adaptada: "meter o Rossio na Rua da Betesga"), o saber onde ficam o Rossio e a Rua da Betesga e qual o seu significado.

Independentemente da origem precisa e correcta, o significado da expressão ainda hoje se pode comprovar in loco, com maior ou menor evidência do que em tempos idos. Querer meter o Rossio, grande praça lisboeta (durante muito tempo a maior da cidade), na rua que hoje liga esta mesma praça à Praça da Figueira, é algo difícil ou impossível (e/ou desproporcionado). É como querer passar um camelo pelo buraco de uma agulha, para citar a Bíblia.

A questão seguinte é: porquê a Rua da Betesga? Não sei ao certo porquê, como tal toda a ajuda dos leitores será bem-vinda. No entanto posso adiantar algumas hipóteses, sendo que uma delas, salvo melhor opinião, parece-me a mais plausível.
Antes de enunciar cada uma convém esclarecer qual é o significado de "betesga". Consultando um dicionário ficamos a saber que é sinónimo de "rua estreita", "beco sem saída" ou "viela". Desde logo salta à vista o facto de a "Rua da Betesga" poder ser uma redundância (como "Rua da rua estreita") ou então fazer referência a uma outra rua. Como veremos, esta última possibilidade é a que me parece mais apropriada, até porque por esse país fora (e também no Brasil) existem muitas "betesgas" e, ao que saiba, mais nenhuma "Rua da Betesga".

A primeira hipótese, a mais óbvia e simples, associaria o ditado à actual Rua da Betesga. Para assim ser, "Rua da Betesga" seria uma designação redundante e a dita rua teria de ser efectivamente considerada como estreita ou sem saída. Ora, desde que foi aberta, na sequência do terramoto de 1755, a rua em causa nunca foi especialmente estreita e muito menos sem saída. É certo que sofreu alguns alargamentos e que após a demolição do Mercado da Praça da Figueira (ou a praça propriamente dita, em 1949) se reabriu a desafogada praça actual. Mas sinceramente, creio que não basta. Quando muito admitiria a possibilidade de se referir à Rua da Betesga porque a mesma faz a comunicação entre o Rossio e a Praça da Figueira e a passagem de um lado para outro, em dias de multidão, ser facilmente congestionável.

A segunda hipótese, sequência natural da primeira, faria assentar a razão do ditado naquela que foi a rua antecessora da Rua da Betesga. Como esta, partia do Rossio, mas ladeava o Hospital Real de Todos os Santos, que já não existe (foi destruído pelo terramoto de 1755 e sobre parte das suas ruínas se abriu a Praça da Figueira). É possível verificar qual o traçado dessa antiga rua recorrendo a alguns mapas antigos e até mesmo a mapas actuais que nos mostram a sobreposição dos arruamentos, antes e depois do terramoto. É o caso da figura que apresento em seguida, abusivamente retirada do Pequeno blogue do Grande Terramoto, cuja visita recomendo vivamente.
Como se pode ver, a actual Rua da Betesga não coincide exactamente com a rua anterior e esta não se chamava formalmente “Rua da Betesga” (não vos consigo apontar qual era o seu nome exacto pois está pouco legível num dos mapas que consultei – mas não era esse). No entanto e compreensivelmente uma ficou herdeira da outra. Seria então aquela a rua demasiado estreita para lá querer meter o Rossio? Pelos mapas que consultei a rua era muito provavelmente mais estreita que a actual, no entanto não me parece que fosse especialmente estreita, sobretudo tendo em conta os padrões da época (e já desde o tempo da ocupação árabe). Porém encontramos um pouco mais de lógica para a designação “Rua da Betesga”, se considerarmos que betesga era a antiga rua e que a actual a lhe faz referência. Não fosse existir mais um dado importante, esta hipótese teria o meu “voto”.

Chegamos então à terceira hipótese, para cuja sustentação vale a pena observar de novo a figura com as antigas ruas. Se repararem, no meio da antiga rua havia de facto uma ruela sem saída. Uma betesga, pois. Estou assim em crer que foi o povo de Lisboa que terá baptizado informalmente a antiga rua como “rua da bestega” devido à já identificada betesga que ficava no meio da dita. A nova rua, pós-1755, terá então recebido a designação da antiga que entretanto já era comum. Quanto à expressão, poderá ter surgido assim já antes de 1755 (quiçá até por volta de 1500, quando se acabava a contrução do Hospital Real, ou até antes?), quando a betesga lá estava e de tal forma era evidente o disparate de lá querer meter o Rossio.
Entretanto a betesga desapareceu, surgiu uma Rua da Betesga sem betesga, mas a memória do povo encarregou-se de manter a associação. Ainda que anos depois gerações “orfãs” da betesga tenham por vezes adaptado a expressão para “o Rossio na Rua da Betesga”, menos correcta e fiel ao original, mas que na prática… vai dar ao mesmo. Não tentem meter o Rossio na actual Rua da Betesga!

terça-feira, 8 de novembro de 2005

D. Pedro IV ou Maximiliano do México?

MaximilianoÉ uma das pequenas mas famosas historietas do anedotário lisboeta, a de que a estátua de D. Pedro IV de Portugal existente na praça do Rossio não será a do rei português mas sim de Maximiliano, Imperador do México. Como alguns outros contos de duvidosa e não comprovada veracidade, esta lenda sobreviveu, difundiu-se e instalou-se mesmo no ideário alfacinha, a que não escaparam sequer as letras (exemplo de José Cardoso Pires). Terá sido por maldade politiqueira ou simplesmente fruto do fácil - estranhamente entranhado e até acarinhado - sentido de auto-ridicularização dos portugueses? À falta de algo mais para rir, talvez...
A lenda vive desde o dia em que a estátua ocupou o seu lugar no pedestal (lá no alto inacessível aos comuns transeuntes, note-se).

Não alheio a essa paródia não se pode ignorar um precedente também caricato, mas este sim verídico: inicialmente foi erguido apenas um pedestal e aí se manteve por muito tempo sem que lá fosse colocada qualquer estátua. Os lisboetas, achando graça, baptizaram a aberração como o "galheteiro". Daí que, quando o bom D. Pedro IV finalmente subiu às alturas do Rossio, qualquer solenidade se desse por perdida.

Para cúmulo, existe mais que uma versão a defender (ou pelo menos perpetuar) que o desgraçado Maximiliano, depois de fuzilado no México, ficou com vista eterna sobre a Baixa. D. PedroUma delas conta que teria havido confusão de encomendas, tendo sido trocadas as estátuas (sendo assim que a de D. Pedro teria seguido caminho para o México). Imaginativa mas desprovida de qualquer sentido, até porque qualquer estátua que houvesse de Maximiliano (ou de D. Pedro em vez dele) seguramente já não seria aceite no México. Outra versão, mais elaborada e irónica quanto ao proverbial e tosco "desenrascanço" nacional, conta que estaria em trânsito no porto de Lisboa uma estátua de Maximiliano, que entretanto morrera. Ficando assim sem destino, teria então sido aproveitada como solução barata e imediata para a falta da estátua de D. Pedro no Rossio. O povo, esse, não daria conta, até porque os Imperadores eram algo parecidos de rosto e na habitual fardamenta - o que até era em parte verdade, decorrente das "modas" régias europeias de então. No entanto, nunca nada nisto se provou senão como boato.

Provada sim está a planificação e execução da figura de D. Pedro IV, reforçada por constatações mais recentes de que as insígnias na estátua são de facto de Portugal e não do México ou dos Habsburgos. No dia em que se chegou lá ao alto com maior facilidade, morreu a lenda. Perdeu-se a caricatura e a controvérsia de um estranho inquilino do Rossio, mas D. Pedro IV lá recuperou alguma da solenidade que o monumento deveria inspirar. É "só" um nosso soberano (e o primeiro do Brasil) e não o infeliz Maximiliano, a que nenhum outro nobre gabaria a bizarra sorte (quanto mais ser parte de uma sórdida galhofa alfacinha).