terça-feira, 28 de abril de 2009

Apontamentos sobre a História de Lisboa (IV): Lisboa romana

Se quanto à origem e fundação de Lisboa subsistem muitas dúvidas, já sobre a presença dos romanos a informação, ainda que por vezes imperfeita, é bem mais rica.
Mas ainda antes de passarmos ao início da "romanização" de Lisboa, vale a pena tentar (e é mesmo tentar!) recontruir o cenário "pré-romano", aproveitando para tal alguns dos elementos anteriormente apresentados.

Há questões intrigantes que merecem atenção. Porque é que a cidade de Lisboa, aparentemente, terá sido uma das primeiras e principais aliadas dos romanos? Qual o papel de Lisboa nas Guerras Púnicas, que opuseram os romanos a cartagineses? Qual a caracterização de Lisboa no seio de um variado grupo de povos de diversas origens (Lusitanos, Túrdulos, Célticos, Cónios, Turdetanos, entre outros)?

Afinal, que Lisboa existia ao tempo da chegada dos romanos? Uma antiga colónia fenícia? Como já aqui apontámos, essa hipótese carece de sólidos fundamentos. À semelhança de outros casos, a Lisboa que recebia produtos mediterrânicos (fenícios, egípcios e até, a dada altura, gregos), e que em troca negociava matérias-primas do Norte da Península e do Norte da Europa (incluindo as Ilhas Britânicas) deverá ter sido uma cidade com um autonomia considerável, cosmopolita e - já então - ponto de encontro de diversos povos... mas não tantos como isso.

Analisando as fontes históricas, chegamos à conclusão que a parte Ocidental da Península Ibérica, ao tempo da chegada dos romanos, era praticamente desconhecida para estes. Para o efeito vale a pena recordar uma passagem de Políbio (geógrafo grego que vivia em Roma): "(...) a parte [da Península] que se estende junto ao Mar Externo ou Grande não tem denominação geral, porque não foi descoberta senão recentemente, e é habitada exclusivamente por várias tribos bárbaras, que são numerosas (...)". Isto por oposição à "Ibéria", que Políbio refere como sendo a parte "mediterrânica" da Península (entre o Ebro e o Estreito de Gibraltar), que era já bem conhecida.

De qualquer forma, apesar daquela introdução, Políbio descreveu aquilo que conhecia da zona, apontando singularidades da fauna e actividades humanas (mais que fornecer uma exaustiva descrição geográfica).
No entanto, é de assinalar que existe uma razão forte para que se dê crédito aos testemunhos de Políbio, uma vez que este acompanhou bem de perto as primeiras incursões romanas na região, a pretexto das lutas contra Cartago - lutas essas que foram o principal motivo que trouxe os romanos à Península Ibérica, precisamente.

Tendo em conta que a primeira incursão terá ocorrido cerca de 218 a.C., justifica-se assim a referência de Políbio a um conhecimento "recente" (de apenas algumas décadas, à época do autor). É certo que o mesmo não sucedia com os cartagineses, que conheciam bem a região, mas esses eram o "inimigo", e para além disso tinham mantido um acesso exclusivo à mesma durante quase três séculos, mediante sucessivos acordos com a República Romana.
As afirmações de Políbio atestam assim a eficácia da "proibição" cartaginesa.

Contudo, eram também conhecidas as viagens de exploradores gregos, alguns oriundos da colónia de Massália (Marselha). Como a de Píteas, ou a do anónimo autor do famoso "Périplo Massaliota" - que Avieno trataria de recuperar séculos depois. Políbio, conhecedor do relato de Píteas, revela-se bastante céptico quanto à sua veracidade. Deitou por terra, por exemplo, a hipótese de que o herói Ulisses (em grego, Odysseus) alguma vez tenha alcançado o Estreito de Gibraltar. Não seria o único.
E, hoje em dia, embora seja difícil contestar boa parte do périplo de Píteas (sobretudo as viagens a Norte), permanece duvidosa a parte respeitante à Península Ibérica. Alguns autores adiantam mesmo que Píteas terá partido da costa atlântica de França (depois de viajar por terra desde Marselha), "contornando" assim o bloqueio de Cartago.

De tudo isto podemos concluir (novamente!) que a presença dos gregos nas costas atlânticas da Ibéria terá sido, nas melhor das hipóteses, esporádica (e até furtiva). Não faz assim sentido considerar que tivessem existido colónias gregas ao longo da costa atlântica, como alguns querem fazer crer, suportados num único fundamento minimamente verosímil: achados de cerâmica de origem grega, que o mais natural é que tenham chegado através das rotas comerciais cartaginesas (como tantos outros produtos de diversas regiões do Mediterrâneo).
E com isto, voltamos a insistir, carece de fundamento a hipótese de uma Lisboa "grega".

Para lá da "muralha" cartaginesa (e fenícia, antes dela) ficava então a Lisboa "desconhecida". Embora não sejamos favoráveis às teses que defendem uma colonização fenícia ou cartaginesa da região de Lisboa, é inegável a influência que aqueles povos semitas tiveram (considerando-se inclusivé uma presença prematura de elementos hebraicos).
E parece difícil contrariar a idéia de que o nome de Lisboa se deve também aos fenícios. A teoria mais comum refere "Allis Ubbo", que supostamente significa "enseada amena". Se o topónimo se referia inicialmente ao estuário (ou ao esteiro da Baixa?) e posteriormente se passou a aplicar à cidade, é um dos assuntos questionáveis nesta interpretação. Bem mais atraente, embora (ainda) estranhamente circunscrita aos meios "académicos" é a teoria de que o primeiro nome de Lisboa era "Allis-ippo" (ou "Alliz-ippo"). Não é difícil encontrar "ippo" ou "ipo" (como prefixo ou sufixo) em nomes antigos de muitas localidades do Sudoeste Peninsular referidos pelos romanos, revelando toda uma área de influência com grande concentração no golfo de Cádis, seguindo pelo litoral português, em cidades costeiras ou com acesso privilegiado ao mar por via fluvial (como Collipo).
À partida, este facto confirma a situação de Lisboa no seu primeiro milénio, sob forte influência dos povos instalados no Sul da Península.
Na língua semita, "Allis", como se pode comprovar ainda no moderno hebraico (e poderá estar na origem do nome Alice!) significa feliz ou alegre. Aqui, o significado não difere em muito do entendido em "Allis Ubbo". "Allis-ippo" ou "Olisipo" (ao ouvido de um romano) seria então a "cidade feliz" ou "cidade alegre".
Ainda que se conteste a presença intensiva dos fenícios em Lisboa, o mais natural é que tenha sido o nome de baptismo que estes lhe deram aquele que passou a ser conhecido no Mediterrâneo. No entanto é curioso que a grande maioria dos locais onde encontramos "ippo"/"ipo" seja apenas na Península Ibérica (havia mais Fenícia e Cartago)... Por outro lado, também é verdade que, mesmo no Sul da Península, a "ocupação" efectiva por parte daqueles povos foi relativamente tardia.
Poderemos então considerar uma origem tartéssica ou cinética/cónia (aqui considerando uma forte afinidade entre estes dois povos, como autóctones e em maior ou menor grau fortemente influenciados pelo Oriente púnico - veja-se o caso das antigas escritas do Sul)? É possível.
Quanto ao "nome", não há certezas, mas creio que há hipóteses claramente descartáveis (embora continuem a ser "populares")... tal como há fortes "suspeitos"...

Se Lisboa não era uma cidade fenícia, quem poderiam ser os lisboetas? Turdetanos e Túrdulos (frequentemente considerados como dois ramos do mesmo povo), como já referimos, poderiam ser bons candidatos. Vários escritores romanos reconhecem a influência fenícia sobre estes povos, considerados como os mais avançados da Península Ibérica. Independentemente da sua denominação e da sua "filiação" étnica ou política, o que parece merecer poucas dúvidas é que a cidade primitiva, sendo para todos os efeitos costeira, desde cedo esteve ligada ao mar e a dois grandes eixos, mediterrânico e (norte) atlântico. De certa forma as influências "continentais", marcantes em certas zonas do interior, diluiram-se neste extremo peninsular, numa aculturação precoce que, por sua vez, talvez justifique a relativa facilidade com que os lisboetas se sujeitaram (ou se entregaram) a nova aculturação, com a chegada dos romanos.

Vejamos agora um interessante - e relativamente recente - contributo para estas matérias em particular. Está em Castelhano mas creio que resume bem o estado da questão, não esquecendo os avanços de arqueólogos e historiadores de ambos os lados da Península:

REVISTA PORTUGUESA DE Arqueologia.volume 8.número 2.2005, p.193-213
MARIANO TORRES ORTIZ

¿Una colonización tartésica en el interfluvio Tajo-Sado durante la Primera Edad del hierro?

"(...) se puede afirmar que en la desembocadura de los ríos Tajo y Sado existen una serie de topónimos en -ipo que deben ser forzosamente relacionados con las poblaciones tartésicas del valle del Guadalquivir, lo que también viene demostrado tanto por la onomástica de los magistrados monetales presentes en las acuñaciones de Alcácer do Sal cómo por la consideración por Ptolomeo (II, 5, 2-4) de las ciudades de Salacia, Caetobriga, Myrtilis y Pax Iulia como turdetanas, y la mención a los oppida Turdulorum y los Turduli Veteres en esta zona por Plinio (Nat. hist. IV, 113) y Mela (de chor. III, 1, 6).
Igualmente, el análisis de la necrópolis de Alcácer muestra indudables paralelismos conotras del área tartésica, como la Cruz del Negro y Medellín, con dos fases sucesivas de enterramientos en urna y posteriormente en fosa de cremación individual, no documentándose las necrópolis de encachados tumulares tan comunes en el sur de Portugal. Esa misma matriz orientalizante y mediterránea se observa en los materiales excavados en el cerro del Castillo (Tavares da Silva et al., 1980-1981; Paixão, 2001), documentándose incluso exvotos de bronce similares a los hallados en Medellín y en barro en Bencarrón, en los Alcores de Carmona. Tanto en Alcácer do Sal como en Santarém se observa esa continuidad orientalizante hasta época romana republicana, lo que sugiere un ambiente cultural distinto entre esta zona y el resto del sur de Portugal, donde las penetraciones culturales meseteñas son evidentes desde fines del siglo V o inicios del IV a.C., un proceso igualmente bien documentado en Extremadura (Berrocal, 1992, p. 275 y ss., 1995, p. 168-176; Rodríguez Díaz, 1995).
Otras evidencias materiales, como las cerámicas de retícula bruñida, los grafitos en escritura paleohispánica, las fíbulas y los jarros de bronce piriformes y los braserillos también apuntan a la filiación cultural tartésica de las poblaciones asentadas en las desembocaduras de los ríos Tajo y Sado.
En consecuencia, se propone la hipótesis de que estas poblaciones son el pueblo que aparece mencionado en la Ora Maritima de Avieno con el nombre de Cempsos (O. M. 195-196, 200).
Éstos habían poseído anteriormente la isla de Cartare (O. M. 257), situada por todos los editores y comentaristas de Avieno en las costas del Lago Ligustino.

No obstante, siempre se les ha considerado, junto a los Sefes, tribus célticas o, más genéricamente, indoeuropeas, por su situación en la costa atlántica de la Península Ibérica y la mención de los Keltoi "más allá de" los Kynesioi por parte de Herodoto (II, 33), habiéndose buscado igualmente relacionar este etnónimo con otros de la Europa indoeuropea (Schulten, 1922, p. 29--30, 93; Bosch Gimpera, 1932, p. 503, 1942, p. 70-71, 74-75; Almagro Basch, 1966, p. 212, 214; Tovar, 1976, p. 195-196; Silva y Gomes, 1992, p. 168; Fabião, 1993, p. 156; Mangas y Plácido,1994, p. 73; Alarcão, 1996, p. 24).
Sin embargo, Alarcão (2001, p. 322) señala que si no fuese porque Lambrino sostiene que el etnónimo de los Sefes es indoeuropeo, se podría admitir un origen para este pueblo en el sur de la Península Ibérica donde, nótese bien, también habitaban los Cempsi, para los que Corrêa (1924, p. 88-89) señala que su celticidad no está demostrada, aunque no la descarta, y Berrocal (1992, p. 32) advierte que nada los define como célticos.
Así, lo que muestra el poema es que en la segunda mitad del siglo VI a.C. todavía se recordaba el origen en el área tartésica de este pueblo (para una fecha del siglo VI a.C. de parte del material de la Ora Marítima de Avieno, cf. Schulten, 1922; Antonelli, 1998), lo que coincide con la colonización tartésica de esta zona que se plantea en este trabajo en un momento que aún no se puede fechar con precisión pero que debe ascender como mínimo a fines del siglo VII a.C., si no ya a fines del VIII, cuando se fechan las evidencias orientalizantes más antiguas en Lisboa ySantarém (Arruda, 2002, p. 120, 185-186).
Este asentamiento de poblaciones de origen tartésico en las desembocaduras del Tajo y del Sado explica también la mención al camino que desde la península de Lisboa llevaba a las costas tartésicas en cuatro días (O. M. 179-180), una ruta que complementaba las comunicaciones en una zona donde el viaje por mar, aún siendo posible, es complicado ante la dificultad de doblar el cabo de San Vicente, además de proporcionar una ruta alternativa durante el invierno, época en la que se evitaba navegar en la Antigüedad.
La razón del establecimiento de estas poblaciones en la Península de Lisboa sería principalmente comercial, como una estrategia más por el dominio de las rutas que comercializaban el estaño y otros metales por parte de las entidades políticas ubicadas en el valle del Guadalquivir, razón aducida también para justificar el interés fenicio en la zona (Arruda, 1993, p. 207-208, 2002, p. 100, 223).
Sin embargo, otra razón hay que buscarla en la propia dinámica interna de las poblaciones tartésicas del bajo Guadalquivir y de la cuenca media del Guadiana, para las que se ha planteado que en el siglo VII a.C. se efectuaría una colonización agrícola de la tierra disponible dentro del marco de la aparición de núcleos verdaderamente urbanos en toda la zona, como sería el caso de Medellín en el curso medio del Guadiana, a causa de un proceso de marcado crecimiento demográfico (Almagro-Gorbea, 1990, p. 98-100, 1996, p. 67-68).
De hecho, podemos estar ante lo que Ruiz Zapatero (1995, p. 33-34) denomina "modelo
socioeconómico expansivo", definido por este investigador para explicar la expansión interna de los Campos de Urnas en la Península Ibérica. Así, la existencia de una nueva base subsistencial, que en la adaptación al área de Lisboa vendría dada por la adopción de introducción del cultivo de la vid y del olivo a la explotación agropecuaria del Bronce Final (Arruda, 2003, p. 208, 210, 215; Barros, Cardoso y Sabrosa, 1993, p. 166), una nueva organización social y un ritual funerario ligado al surgimiento de los primeros núcleos urbanos, como evidencian las necrópolis
de la Cruz del Negro y Medellín (Almagro-Gorbea, 1996, p. 64), y nuevos desarrollos tecnológicos, que aquí habría que vincular a la generalización de la metalurgia del hierro y, posiblemente, de la plata (Barros, Cardoso y Sabrosa, 1993, p. 159), serían lo suficientemente atractivas como para ser adoptadas por las poblaciones locales. Todo ello con un estímulo externo no necesariamente importante en términos demográficos, procedente desde el valle medio del Guadiana (vid. el siguiente párrafo), aunque la adopción de los topónimos en -ipo y de la escritura tartésica
en Alcácer do Sal sugiere incluso una sustitución lingüística que podría a su vez indicar un aporte demográfico importante.
Dentro de esta dinámica expansionista se efectuaría el poblamiento de la península de Lisboa desde el codo del Guadiana, a través de la zona de Beja hasta las desembocaduras de los ríos Tajo y Sado. En este sentido, el proceso recordaría mucho a la expansión vilanoviana y a la colonización etrusca de la llanura del Po por parte de los etruscos desde el siglo VI a.C. (Torelli, 1996, p. 44; Bartoloni, 2001; Bonghi Jovino, 2001; Sassatelli, 2001), en un proceso estructuralmente semejante de creación y consolidación de los núcleos urbanos.
De esta forma, se observa como sobre la población del Bronce Final caracterizada por las cerámicas con decoración bruñida propias de los estilos Lapa do Fumo y Alpiarça del valle del Tajo (Cardoso, 1995) se superpone ya en la Primera Edad del Hierro la llegada de un nuevo contingente demográfico, que tanto por su cultura material como por los topónimos usados deben ser consideradas tartésicas, que interaccionará con el sustrato local.
Así, se observa la discontinuidad entre las fases II y III del cerro del Castillo de Alcácer do Sal (Tavares da Silva et al., 1980-1981, p. 170 y ss., 210-211), donde a un horizonte de cerámicas a mano del Bronce Final se superpone a fines del siglo VII a.C. un numeroso conjunto de cerámicas orientalizantes tanto bícromas como de barniz rojo que muestran evidentes relaciones con las documentadas en Medellín y en el área onubense.
Esta cesura en el registro se observa igualmente en Almaraz, donde a un hábitat del Bronce Final con producciones cerámicas únicamente a mano se sobrepone otro con la misma cronología de inicio que Alcácer do Sal, fines del siglo VII a.C., con muestras evidentes de la llegada de una población alóctona a la zona considerada fenicia por Cardoso (1995, p. 52) pero que más bien habría que considera tartésica en función de la toponimia prerromana documentada en esta región portuguesa.
El panorama está menos claro en Santarém, aunque parecen existir evidencias de un nivel del Bronce Final en la Alcáçova sobre el que se superponen a fines del siglo VIII a.C. los niveles con materiales orientalizantes de tipología fenicia y a mano propios del bajo Guadalquivir (Arruda, 2002, p. 223), aunque aún es difícil comprender cuál ha sido la dinámica del proceso. En su conjunto, parece asistirse a un proceso de "colonización" tartésica en el que se asimilará la población
residente en la región en ese momento, dando lugar a la caracterización turdetana que va a poseer esta zona en las fuentes clásicas de los siglos I-II de la era.
Sin embargo, es difícil discernir si este proceso de colonización se efectúo por vía marítima a través de las costas atlánticas o, por el contrario, se produjo por vía terrestre a través del valle medio del Guadiana, que ya desde el Bronce Final presenta una notable homogeneidad de materiales con la baja Andalucía, como evidencian el lote cerámico hallado en el teatro romano de Medellín (del Amo, 1973; Almagro-Gorbea, 1977, p. 102-104, figs. 48-49) y por otros hallazgos en la actual provincia de Badajoz (Enríquez Navascués, 1990; Rodríguez Díaz y Enríquez Navascués,
2001, p. 112 y ss.).
No obstante, la vía terrestre constituye actualmente la hipótesis más económica, aunque debería ser confirmada por nuevos hallazgos en la franja de territorio portugués que se extiende entre la curva del Guadiana, precisamente frontera en el Bronce Final entre las cerámicas con decoración bruñida interna y externa (Enríquez Navascués, 1990, p. 76-77, figs. 2 y 5; Rodríguez Díaz y Enríquez Navascués, 2001, p. 116), y la península de Lisboa.

En este sentido, una etapa intermedia entre la desembocadura del Tajo y la cuenca media de este río, y quizá con la Extremadura, tal vez vendría marcada por el horizonte de la Edad del Hierro del yacimiento de Cachouça, aunque el material reseñado tras la una ocupación del Bronce Final parece señalar ya a un momento muy avanzado de la Primera Edad del Hierro, hacia mediados del siglo VI a.C., como sugieren las cuentas oculadas de vidrio, un amphoriskos del mismo material, una terracota quizá en forma de ave, una fíbula de apéndice caudal (¿tipo Acebuchal?)
y los platos y cuencos de borde engrosado fabricados en cerámica gris a torno (Vilaça, 2000, p.175; Vilaça y Arruda, 2004, p. 23-24), lo que no permite enlazar con los materiales de los siglos VIII-VI A. C. excavados en Santarém, Almada y Lisboa.
Todo ello llevaría a discutir finalmente la propuesta de otros investigadores de una migración precisamente desde estas áreas, Extremadura y el occidente de Portugal, hacia la baja Andalucía, ya porque ésta se hallaría despoblada (Belén y Escacena, 1992, p. 71), ya por la atracción económica ejercida desde el núcleo tartésico y que se vería plasmada en el área de distribución de las estelas extremeñas (Celestino, 1998, 2001, p. 276, 293). El proceso que se propone aquí es el contrario, con una expansión desde el área nuclear tartésica del bajo Guadalquivir en una primera
fase hasta la baja Extremadura y, posteriormente, hasta las regiones del centro de Portugal seguramente con la intención tanto de aliviar las necesidades de una población en expansión como de controlar las rutas por las que se comercializaban los metales atlánticos.
Por último, una dinámica similar puede plantearse también en la zona del valle medio del Tajo, donde también se fundarían colonias de poblamiento en lugares estratégicos de las principales rutas comerciales y vías de comunicación, explicándose así los materiales orientalizantes procedentes de Talavera la Vieja (Jiménez Ávila y González Cordero, 1999; Martín Bravo, 1999, p. 93-96, figs. 33-34) y del Cerro de la Mesa (Ortega y del Valle, 2004, p. 176-179), ambos situados en sendos vados del Tajo en las rutas que se dirigen hacia los pasos del Sistema central. Se trataría de una dinámica muy similar a la propuesta por Algaze (1993) para la expansión de Uruk
en Mesopotamia durante el IV milenio a.C. con el control de las principales rutas de comunicación fuera del núcleo de las principales entidades políticas mediante puestos de avanzada que servirían como colonias de poblamiento y como lugar de control de los flujos comerciales, una táctica que se extiende a otras civilizaciones en el momento en que se está produciendo el surgimiento del estado (Algaze, 1993a).
En definitiva, creo que se presenta un panorama coherente para una mejor comprensión
de las dinámicas de las sociedades protohistóricas de la Primera Edad del Hierro del sudoeste de la Península Ibérica, que muestran un panorama mucho más integrado que el normalmente presentado y en el que se valora la iniciativa y las acciones de las poblaciones locales en un momento de intensa interacción con las poblaciones coloniales fenicias presentes en la zona desde un momento temprano del siglo IX a.C. o incluso anterior, según demuestran las nuevas evidencias documentadas en Huelva (González de Canales, Serrano y Llompart, 2004)."


Adicionalmente, novos trabalhos e pesquisas têm vindo a revelar novos dados, não sem algumas surpresas igualmente interessantes. A quem interesse, creio ser indispensável a sua leitura:

Novos dados sobre a ocupação pré-romana da cidade de Lisboa: as ânforas da sondagem n.º 2 da Rua de São João da Praça (2005) - JOÃO PIMENTA, MARCO CALADO, MANUELA LEITÃO:
http://www.ipa.min-cultura.pt/pubs/RPA/v8n2/folder/313-334.pdf

Fenicios en el Extremo Occidente: conflicto y violencia en el contexto
colonial arcaico - CARLOS G. WAGNER (2005):
http://www.ipa.min-cultura.pt/pubs/RPA/v8n2/folder/177-192.pdf

Os mais recentes achados epigráficos do Castelo de S. Jorge, Lisboa - Amílcar Guerra (2006):
http://www.ipa.min-cultura.pt/pubs/RPA/v9n2/folder/271-298.pdf

As ânforas romanas do Castelo de São Jorge (Lisboa) - João Pimenta/IPPAR (2005?):
http://www.ipa.min-cultura.pt/pubs/TA/folder/41/

A IMPORTAÇÃO DE ÂNFORAS DE PREPARADOS PÍSCICOLAS EM OLISIPO (SÉCULOS II-I A.C.). - João Pimenta/IPPAR (2006?):
http://ceipac.gh.ub.es/biblio/Data/A/0517.pdf

Olisipo pré-romana. Um ponto da situação - Marco Calado (2006):
http://br.monografias.com/trabalhos3/olisipo-pre-romana/olisipo-pre-romana2.shtml

Os portos na origem dos centros urbanos: contributo para a arqueologia das cidades marítimas e flúvio-marítimas em Portugal - Maria Luísa Pinheiro Blot:
http://www.ipa.min-cultura.pt/pubs/TA/folder/28

sábado, 25 de abril de 2009

La liberté éclairant le monde


Alemanha, 1989


Itália, 1945


França, 1944


África do Sul, 1990


Roménia, 1989


Portugal, 1974


quarta-feira, 15 de abril de 2009

Como disse? Oi?

Já aqui recomendei a edição portuguesa da revista Time Out. Quanto aos guias turísticos da mesma editora, mal os conheço, mas aparentam qualidade mínima. No entanto, num dos seus guias sobre Lisboa, neste caso em português - edição brasileira em colaboração com o famoso jornal Estadão (S. Paulo) - encontrei esta "dica" que me deixou verdadeiramente atordoado:

"Evite falar em espanhol com os portugueses. [não estou a ver para quê, mas está certo] É melhor arriscar um inglês ou francês [oi? de certeza?], ou mesmo o português. [????????]"

Recordo, o guia está em português, dirigido a leitores que falam o português (ainda que com outro sotaque e uma ou outra diferença mais). Afronta? Penso que não, terá sido apenas um caso (mais um) de tradução literal (e por isso descuidada) do inglês.
É certo que o nosso sotaque não é fácil, no início, mas também duvido que o inglês ou o francês sejam alternativa prática...

Fica a brincadeira e uma saudação para os nossos primos de além-Atlântico...

sexta-feira, 10 de abril de 2009

De Lisboa no Destak

Foi na edição do passado dia 30 de Março que o jornal Destak deu destaque a este modesto espaço, em rubrica dedicada aos blogues de Lisboa (recomenda-se):

Obrigado!

segunda-feira, 23 de março de 2009

Igrejas de Lisboa (II): Igreja Paroquial de S. José ou da Anunciada

Dois anos depois, retomo a projectada série de artigos sobre as Igrejas de Lisboa, até hoje resumida a uma entrada apenas, da Igreja de São José dos Carpinteiros. Desta vez passo a outra Igreja da mesma freguesia (relacionada com a anterior, como veremos), não muito longe da primeira, ao Largo da Anunciada.

Trata-se de uma Igreja relativamente "recente" (final do Século XIX), não classificada (ao que sei), e sobre a qual o interessante "sítio" da Junta de Freguesia de S. José é praticamente o único que nos oferece informação:

Construída pela irmandade do Santíssimo Sacramento para sede da paróquia que desde 1567 estivera na igreja de S. José dos Carpinteiros. A sua construção iniciou-se em 1863, ficando concluída em 1883. De um projecto de Tomás da Fonseca, e alterado em 1868 por Domingos Parente, é uma igreja sem nave. A Parente se deve a fachada lateral de três corpos sobre a Rua de S. José. A partir de 1881 a obra passou para a direcção de José Monteiro até à sua conclusão. O resultado final tem pouco a ver com o projecto original.


(...)

A igreja foi construída no local onde estivera o mosteiro dos frades Agostinhos, que em 1539 o cederam por troca às freiras Dominicanas da Nossa Senhora da Anunciada, que se transferiram para este local da sua primitiva fundação na Costa do Castelo, e que ficou completamente arruinado pelo terramoto de 1755.

Com a instalação das freiras Dominicanas de Nossa Senhora da Anunciada, o nome destas passou ao local onde se situava o mosteiro, e à rua que junto dele seguia.

Esse local foi marcado, no Plano de divisão das freguesias de 1770, no sítio da arruinada igreja do mosteiro e como o terreno pertencia às freiras deste mosteiro, que, tendo-se transferido depois do terramoto para o convento de Sta. Joana, formando com outras a comunidade de freiras desta invocação, a irmandade do S. Sacramento, erecta na freguesia de S. José comprou-o às freiras, por escritura de 25 de Maio de 1765.

(...)

A Igreja foi projectada em 1793, tendo o arquitecto António Fernandes Rodrigues feito um aparatoso projecto que não se executou por demandar grandes despesas. Fez-se depois um novo projecto, que não sendo tão custoso, era contudo elegante.

Começou-se então a construção da nova igreja, mas as obras caminharam com tão pequeno entusiasmo durante todo um século que só em 1862 ou 1863, segundo consta, é que receberam maior impulso, sem que todavia lograssem a conclusão do templo.

Em 1883, apesar dos trabalhos não estarem concluídos, pois faltava ainda construir o corpo da igreja e o coro, foi benzida em 12 de Agosto e para ali se transferiu a freguesia a 15 de Agosto do referido ano de 1883, ficando a antiga igreja de S. José entregue à sua irmandade, continuando ali a exercer-se o culto. Parece que divergências que se deram entre esta irmandade e do Santíssimo abreviaram a mudança da Freguesia.
Como pontos de interesse, ficamos a saber que no local já teriam existido outros edifícios religiosos, primeiro de frades Agostinhos, depois das Irmãs Dominicanas da Nossa Senhora da Anunciada - invocação que sobreviveria, ficando o mosteiro completamente arruinado pelo terramoto de 1755. Dos Agostinhos Descalços de Santo Antão ficou a evocação deste último Santo, no nome da Porta (da Cerca Fernandina) que existiu, mais abaixo (uma vez que, à saída da muralha, no Século XV, o mosteiro era o primeiro e solitário edifício, como se pode ver em gravuras da época), bem como na actual rua (já que, das Portas, pouco resta).

Porta chamada de Santo Antão, para além da qual estão as hortas... e, embora não assinalado nas diversas vistas da cidade (esta, a editada por G. Braun), muito provavelmente, o mosteiro de Santo Antão (ao centro no topo da imagem)...

Ainda em época pombalina passou o terreno para a posse da Irmandade do Santíssimo Sacramento, sendo no entanto necessários cerca de 120 anos para a abertura ao culto da Igreja para ali pensada e desejada. À primeira vista parecerá intrigante e misterioso, mas a própria reconstrução pombalina (sob a qual a reconstrução de muitas igrejas teria de ser custeada pelas paróquias e seus fiéis), as invasões francesas, a Guerra Civil e o Liberalismo... explicam em boa medida o atraso.

Como arquitectos são referidos Domingos Parente e José Monteiro, nomes que encontramos associados a um outro edifício da cidade, mais afamado: o da Câmara Municipal de Lisboa, inaugurado três anos antes (após destruição por incêndio do edifício de Eugénio dos Santos, em 1863).

quinta-feira, 19 de março de 2009

Fototipias - Exposição no Arquivo Fotográfico Municipal

O Arquivo Municipal de Lisboa - Arquivo Fotográfico inaugura no próximo dia 24 de Março, às 18:30, a exposição Fototipias, com o trabalho inédito do fotógrafo amador António Machado de Mendia (1880-1933), 27 paisagens, na sua maioria realizadas no País Basco (colecção particular). São igualmente expostos trabalhos de vários fotógrafos do espólio Eduardo Portugal (1900-1958) doado ao Arquivo em 1991: Domingos Alvão, Silva Nogueira, Francesco Rochinni e outros, em actividade no final do século XIX e primeira metade do século XX, que utilizaram a fototipia como processo de impressão dos seus trabalhos e na realização de edições e exposições.
A fototipia foi um processo de impressão fotomecânico, comercializado a partir de 1868, que permite imprimir muitas provas a partir da mesma matriz, com excelente reprodução dos meios-tons, detalhe minucioso nas sombras e a aparência de fotografias reais. A rede deste processo fotomecânico, irregular, é dificilmente perceptível à vista desarmada, pelo que a semelhança com as provas fotográficas é notável.
A exposição tem também uma componente didáctica, em que são apresentados ao público outros processos de impressão fotomecânicos, materiais e processos de fabrico, suas características técnicas e pistas para a sua identificação.

Marcação de visitas guiadas
Serviço educativo: Paula Figueiredo: paula.cunca@cm-lisboa.pt Alexandra Nunes: alexandra.nunes@cm-lisboa.pt

Horário:
De terça-feira a sexta-feira, das 10. 00h às 18.30h - 1.º e 3.º Sábados de cada mês das 10.00h às 17.15h
Encerrado: segundas, domingos e feriados

Como chegar:
Arquivo Municipal de Lisboa/Arquivo Fotográfico
Rua da Palma, 246

Metro - Martim Moniz/Intendente Autocarro - 708, 40
Eléctrico - 28
No Arquivo Municipal de Lisboa

terça-feira, 17 de março de 2009

Qual é o sítio mais alto de Lisboa?

Qual é, na topografia da cidade (excluindo construções), o ponto mais alto de Lisboa?

Para muita gente (sobretudo turistas), será o Castelo de São Jorge. É verdade, mas só em parte. Provavelmente será o sítio mais alto... que alguma vez visitaram em toda a cidade.

Não tão conhecido e muito menos afamado (injustamente) é o Monte de S. Gens, onde está o Miradouro da Senhora do Monte (bem como a Capela ou Ermida da mesma invocação). Segundo as fontes que consultámos pela internet fora, este recôndito miradouro (com uma das melhores vistas, senão a melhor da cidade) supera a antiga "acrópole" em altura, e é mesmo o sítio mais alto... da parte histórica de Lisboa. E como tal - mas não só - será talvez o mais alto dos que vale a pena visitar...

Em sequência, mais adiante, temos a Penha de França, que parece-me superar os anteriores, mas também não é o ponto mais alto de Lisboa.


O sítio mais alto do Concelho de Lisboa, sem margem para discussão, é o alto de Monsanto... no local onde se encontra actualmente o Estabelecimento Prisional, antigo Forte de Monsanto. 227 metros de altitude, medida modesta no que a serras diz respeito, mas suficiente para o domínio de Lisboa.
Mercê da topografia da "serra", do parque florestal ali plantado, bem como da vizinhança de outra zona alta, no outro lado Vale de Alcântara (altos de Campolide, Campo de Ourique), as vistas são limitadas.


Talvez seja possível visitar o Centro Emissor de Monsanto (mas não tenho a certeza). De qualquer forma, para os apreciadores de vistas "em altura", posso garantir que a vista do cimo dos edifícios das Amoreiras (o "shopping" de Tomás Taveira) é deslumbrante, magnífica...

No "tecto" de Lisboa - O Forte de Monsanto no princípio do Século XX
Fontes:
Lisboa Interactiva - CML
Arquivo Municipal de Lisboa

quinta-feira, 12 de março de 2009

Reabertura do Lagartagis


Mais uma razão para (re)visitar o Jardim Botânico de Lisboa: após algumas dificuldades, vai reabrir o Borboletário - Lagartagis!

É este programa, para o dia 21 de Março (Sábado):

Reabertura Lagartagis
Borboletas de volta a Lisboa!!

Reabertura Lagartagis
21 de Março 2009
Dia Aberto no Lagartagis

Programa
Encontro na Escadaria Principal do Jardim Botânico, 15h

A PARTIR DAS 15H ATÉ ÀS 17H
Inauguração do Stand «Como fazer um Jardim de Borboletas»
(venda de plantas envasadas e «instruções a seguir»)

ANIMAÇÕES PARA CRIANÇAS E BORBOLETAS
a) Pinturas Faciais
b) Pinturas com Aguarelas e Sal

VISITAS GUIADAS À ESTUFA (a partir das 15h30, de 15' em 15')

LANCHE «Comida de Borboletas»
a) Espetadas de Fruta
b) Chá frio adocicado com Mel

Como se vê, será uma boa alternativa para as crianças passarem uma boa tarde de Sàbado. Não as deixe em casa!

Ligações:
Borboletas na Web - Lagartagis
Tagis - Centro de Conservação das Borboletas de Portugal
Jardim Botânico de Lisboa

segunda-feira, 9 de março de 2009

São Vicente, a polémica

Não é de agora a polémica em título. Em boa verdade, tem mais de 800 anos e há muito que estaria esquecida, não fosse pelos documentos... e por quem a eles se dedica, como o faz Pedro Picoito no artigo A Trasladação de S. Vicente.
Consenso e Conflito na Lisboa do século XII
, publicado no nº 4 da revista Medievalista.

Uma vez mais uma leitura atenta, numa nova perspectiva, revela "surpresas".
Os lisboetas, moçárabes, antes hispano-romanos, depois da dominação de árabes e visigodos, conhecem um novo dominador. É Portugal que chega... (parece publicidade a um novo livro, é bem verdade que daria um dos bons).

A Medievalista é publicada pelo Instituto de Estudos Medievais, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, sob a direcção de José Mattoso. O artigo que referimos não é, obviamente, o único a merecer atenção.

terça-feira, 3 de março de 2009

São Vicente, Lisboa e Valência

Foi em 2006 que aqui publiquei uma curta referência sobre a(s) lenda(s) de S. Vicente, após ter visitado a agradabilíssima cidade de Valência (Espanha). Já naquela ocasião surgiram comentários oportunos (sublinhando por exemplo a incompreensível falta de "aproveitamento" a vários níveis, em Lisboa, relativamente a São Vicente). Há dias poucos dias atrás, porém, recebi este outro, de manifesto interesse:

La Asociación VIA VICENTIUS VALENTIAE , que presido , está recuperando un camino histórico de Roda de Isábena a Valencia que rememora los pasos de San Vicente Mártir , patrón de Lisboa y Valencia, cuando en el siglo IV fue apresado en Zaragoza junto al Obispo Valero por los soldados romanos enviados por el Cónsul Daciano y trasladado a Valencia para sufrir martirio ante la negativa a renunciar a su fe. Así la difusión del conocimiento de este hecho provocó en los siglos siguientes una corriente de peregrinaciones desde toda Europa hasta Valencia para visitar los restos del mártir en San Vicente de la Roqueta , convirtiéndose este fenómeno en algo muy anterior a las peregrinaciones medievales a Santiago de Compostela.

Todos los detalles del Camino de San Vicente Mártir, que discurre desde Roda de Isábena, hasta Traiguera, donde enlaza con la antigua Via Augusta hasta llegar a Valencia en un camino de unos 750 km , y multitud de aspectos históricos y leyendas del santo pueden consultarse en las webs que la asociación ha creado en Internet: http://www.caminodesanvicentemartir.es y http://viavicentius.blogspot.com. En ellas, junto a la información práctica como mapas y perfiles de la ruta, el peregrino puede acceder a consejos para caminantes, un foro especializado y abundantes datos sobre la biografía de San Vicente Mártir y el arte o la arquitectura dedicados al Santo, además de consultar la Carta Vicentina y el Libro de Peregrinos, e incluso obtener la Credencial Vicentina. Asimismo realizamos reportajes , videos y artículos que pretenden difundir la historia del santo. Se insiste particularmente en la idea de que este es un gran proyecto de recuperación histórica que queda al servicio de la sociedad con aspectos tan maravillosos como son las peregrinaciones ,el senderismo , el cicloturismo y la recuperación del tránsito por pueblos olvidados y de la misma Via Augusta como parte de su trayecto. Quedo a vuestra más absoluta disposición para aportar nuestro granito de arena en el conocimiento de nuestra historia . Un saludo afectuoso.
Salvador Raga Navarro PRESIDENTE Asociación VIA VICENTIUS VALENTIAE - VIA ROMANA

http://www.caminodesanvicentemartir.es
http://viavicentius.blogspot.com/

É de referir que não naqueles espaços vizinhos não faltam referências ao "vicentismo" da nossa cidade!

domingo, 1 de março de 2009

Time Out

Nasceu há 40 anos como pequeno guia da vida cultural da cidade de Londres. Hoje, para além de dezenas de guias para o turista, é revista com versões para 24 outras cidades do Mundo, entre as quais Lisboa. O formato é importado, bem como o nome, mas vem ganhando leitores assíduos. Já sou um deles.
Há questões de gosto, mas pelo menos em termos de informação sobre a vida cultural e de lazer da cidade de Lisboa, penso que é uma publicação que já fazia falta a cidade. Falo da Time Out Lisboa, revista semanal que na sua versão online ("beta") apregoa assim: "Descubra o que fazer em Lisboa. Incluindo Teatro, Cinema, Arte, Musica, Desporto, Festivais, Atracções, Restaurantes, Bares e Discotecas".

sábado, 28 de fevereiro de 2009

O DL recomenda: Museu José Malhoa

Não fica em Lisboa, mas está a um "salto". Reabriu em Dezembro de 2008, renovado e com novo espólio. Vale bem a pena visitar o "novo" Museu José Malhoa, nas Caldas da Rainha.
Bravo!

O DL recomenda: Museu de História Natural

Visitei, gostei:



Encontrarão mais informações no sítio do Museu de História Natural. Não esquecer os Museus ali alojados e o Jardim Botânico, a não falhar na visita (como não falhei). Quando por lá estiver, entre vegetação exótica, verdes recantos... não se esqueça onde verdadeiramente está - em plena cidade!
É património que merece o melhor apoio - o do público.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Restelo

Torre de Belém... ou Baluarte do Restelo


É graças à minha filiação "clubística" que nutro especial carinho por esta zona da cidade (embora nunca lá tenha vivido), ao estudo da qual já dediquei algumas linhas, noutro espaço.

Qual é a origem do nome? E afinal, o que é o Restelo? Será descabida esta última questão?

Desde há várias décadas que o Restelo é reconhecido – pelo menos aos olhos do cidadão “comum” – como sendo a zona a Norte e Oeste de Belém, ocupada maioritariamente por vivendas e condomínios, e por isso tida como “nobre” ou de “luxo” (actual ou datado). O Estádio do meu Belenenses, baptizado “do Restelo”, acaba por demarcar o extremo a sudoeste dessa zona. Abaixo e para nascente, seguindo a Rua de Belém, ninguém duvida que está Belém, frente ao Tejo, sobre antiga praia.
No fundo, a criação da Freguesia de São Francisco Xavier veio dar mais algum sentido a esta separação.

No entanto, se olharmos para a história – para a origem – nem tudo é assim tão claro. Que o nome de Belém se deve à invocação de Santa Maria de Belém, no e pelo Mosteiro dos Jerónimos, bem como pelo templo Henriquino que o precedeu, é facto que não merece muitas dúvidas. Mas, que a própria zona do actual Mosteiro, frente ao rio, era conhecida como “praia do Restelo”, também é facto, também antigo e bem documentado (entre outros, pelo grande Fernão Lopes).
Temos então que, se o Restelo e Belém não são afinal a mesma coisa, pelo menos Belém acabou por ser uma parte do Restelo que ganhou nome e fama próprios.
Se atendermos à hipótese mais conhecida e consensual quanto à origem daquela toponímia, faz-se um pouco mais de luz sobre esta “transição”.

Em página da Paróquia de Santa Maria de Belém podemos ler que:

“Em meados do século XV, o Infante D. Henrique mandou ampliar uma pequena ermida que tinha sido fundada, na zona do Restelo, junto ao Tejo, sob a invocação de Nossa Senhora da Estrela, protectora dos navegantes. Enriquecendo o sentido da primeira invocação, o Infante dedicou a nova Igreja a Santa Maria de Belém.”

Assim se entende a ligação com a história da Natividade de Jesus Cristo, por intermédio da Estrela, a dos Reis Magos, mas também de Maria, mãe de Jesus, ela própria Estrela dos Mares, guia e protectora dos navegantes. Estes nomes e símbolos têm sido objecto de interpretação de várias correntes e “ciências”, ditas da “mística”, do “oculto”, na convicção de que escondem significados só acessíveis a uns. Sendo de interesse, são áreas do conhecimento que não domino minimamente – sobre as quais não posso elaborar muito, portanto.

Mas, no site da Agência Ecclesia, da Igreja Católica Portuguesa, encontramos mais elementos de interesse para a nossa questão:

“O nome deste lugar [Restelo], um povoado modesto mas estrategicamente vocacionado para (ante)porto de Lisboa, confunde-se com o desse primitivo santuário dedicado a Nossa Senhora da Estrela.

A interpretação mística é directa: Nossa Senhora era a luz para os navegantes que desejavam entrar sem perigo na barra de Lisboa; a Estrela evocava o misterioso astro que conduziu os Magos. E quando o Infante D. Henrique mandou edificar no Restelo essa igreja dedicada a Nossa Senhora de Belém, não foi o local do nascimento de Cristo que quis evocar – o presépio aonde acorreram os pastores e os anjos deram glória a Deus – mas antes o ponto de encontro das gentes com Cristo, Sacerdote, Profeta e Rei, para o qual se dirigiram aquelas três personagens míticas e ofereceram ouro, incenso e mirra.”

Esquecendo propositadamente as outras questões, encontramos agora e finalmente uma justificação, geralmente aceite, para o nome “Restelo”: surgiu por corrupção de Estrela (ou de “SenhoRa-Estrela”). Bem próxima anda outra hipótese, muito semelhante (por conotações marinheiras mas também espirituais), pela qual a origem se deve à palavra “Setestrelo”, que se refere à constelação da Ursa Maior, muito importante para quem queira encontrar a Estrela do Norte, guia dos navegantes (isto no Hemisfério Norte, obviamente).


Estádio do Restelo... casa d'Os Belenenses

Ninguém ou mesmo nada sou para pôr em causa aquela primeira hipótese (“Senhora da Estrela”), que é em quase todos os seus aspectos bem plausível e “encaixa” perfeitamente numa miríade de sentidos, mais claros ou mais obscuros. No entanto, creio que encontrei (ou redescobri?) uma alternativa, no mínimo, muito interessante.

A alternativa em questão pouco ou nada remete para o religioso ou espiritual, nem tão-pouco para as obras régias. Fica bem, isso sim, ao lado de uma Junqueira ou de Pedrouços, topónimos de fácil e óbvia interpretação. Por outro lado, a suposição de corrupção de uma outra palavra, ainda que possa ser também antiga (embora não tanto como a lenda de Ulisses em Lisboa), é algo que merece algumas reservas, sobretudo tratando-se de nomenclatura religiosa (será assim tão aceitável, passar de “Senhora da Estrela” para “Restelo”?).

Porque se dizia e escrevia “Rastelo” ou “Rastello”, palavra essa que tinha (e tem) outro significado em português… e que sobrevive, precisamente, na palavra “restelo”?

Vejamos o que nos diz este texto, sobre os famosos “12 trabalhos” do linho (Museu da Agricultura de Fermentões):

“(…) [sobre o acto de] assedar: depois de limpas as impurezas as fibras são separadas por cumprimentos e espessuras. As mais longas e finas formam o linho, as mais curtas e grosseiras, a estopa. Para isso usam-se os sedeiros, instrumentos com dentes de aço finos e serrados, nos quais se passam as estrigas de linho. A estopa que fica, antes de ser fiada tem que se submeter a outra operação. Em manadas a estopa é passada no restelo, uma espécie de pente largo de madeira com dentes de aço grandes e pontiagudos. Depois de ‘penteada’ a estopa está pronta a ser fiada.”

E agora, o que nos diz o dicionário Priberam:

Restelo: rastelo; azeitonas caídas no chão antes de varejadas, ou espalhadas por descuido dos ranchos [possível mas improvável, no nosso caso].
Rastelo: fieira de dentes de ferro por onde se passa o linho para se lhe tirar a estopa; grade com dentes de pau, para aplanar a terra lavrada;
Da mesma maneira existem os verbos “restelar” ou “rastelar”, cujo acto por sua vez dá origem ao substantivo “restelo” ou “rastelo”.

Note-se que, no Brasil, a palavra “restelo” surge muitas vezes associada ao significado acima referido para “rastelo”, como utensílio agrícola ou de jardinagem. Aliás, não é invulgar que o camoniano “Velho do Restelo” passe, ainda que só por sugestão… por jardineiro.

Ainda na área do português, ou melhor, do galego-português, encontramos também matéria interessante. Os significados que encontramos no português, relativos ao trabalho do linho, encontramo-los também no galego actual, em palavras semelhantes: “rastrelo” ou “restrelo”. Variações que, curiosa e precisamente, também chegaram a ser utilizadas pelos cronistas portugueses para designar o “nosso” Restelo.
Mas há mais ainda, falando da Galiza: também lá, na zona de Finisterra, há uma praia do Restrelo!

Ora, tendo o mesmo significado, não será a origem a mesma, ligada ao trabalho do linho?
Ou será a origem a mesma, mas a outra, se atendermos ao Campus Stellae (de Compostela)?

A segunda hipótese parece-me claramente arriscada, embora sedutora, sobretudo se enveredarmos pela descoberta de subtis e complexos significados (como os que se escondem nos mais elaborados traços dos Jerónimos, ao que parece).

Quanto à primeira hipótese, fica por explicar um aspecto essencial. Se o nome daquelas praias se deve ao linho… como e porquê?
É uma conjectura, mas com pistas promissoras: quer na região da Galiza em causa, quer no “nosso” Restelo, a plantação e tratamento do linho eram de facto actividades comuns, favorecidas pela proximidade de grandes massas de água (a humidade, ao que vim a saber, é factor importantíssimo). Para além disso, ainda hoje podemos encontrar, entre a Rua de Belém e a Rua Vieira Portuense, uma “Travessa das Linheiras” (fiel à tradição local de associar a toponímia a ofícios e indústrias – Travessa dos Ferreiros, Travessa das Galinheiras…)!
Considerando ainda que aquelas casas e ruas são, na sua grande maioria, quinhentistas, temos assim uma referência bem antiga, que por sua vez poderá remeter para épocas mais remotas (lembro por exemplo a popularidade do linho entre os árabes, bem como, por altura da sua ocupação, o facto de o Restelo ter sido uma zona eminentemente rural e agrícola).

E estariam então ali as linheiras, à vista da praia, a separar a estopa do linho… ocupadas com o seu “restelo”? E como poderiam não sabê-lo príncipes, clérigos e cronistas? Poderiam muito bem, penso eu, na mesma medida em que o próprio povo esqueceu e esquece a(s) origem(s).

Fontes:
Priberam
Paróquia de Santa Maria de Belém
Agência Ecclesia
Museu Agrícola de Fermentões

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Maravilha sobre Alcântara


Quando foi erguido, não faltaram vozes críticas... em particular quanto o seu estilo, considerado como demasiado retrógrado para a época (o que, em boa medida, até era verdade, se só de estilo se tratasse). Com o passar dos anos, porém, a antiguidade assumiu o seu posto e este monumento é hoje um dos símbolos de Lisboa.

Recorde-se que aquela imponente obra de engenharia, com o maior arco em pedra do mundo... e embora assentando sobre a falha sísmica do Vale de Alcântara... resistiu ao Terramoto de 1755!

Também não se pode esquecer que o "aqueduto" é muito mais que a arcaria de Alcântara, numa discreta mas extensíssima rede que sobrevive, malgrado algumas mutilações e o sufoco da construção. Para os mais familiarizados, será passatempo curioso seguir o seu percurso através do Google Earth:



Nota: A primeira fotografia encontra-se no Arquivo Municipal de Lisboa. Data das primeias décadas do Século XX, como se pode comprovar pela inexistência da floresta de Monsanto, bem como do bairro da Serafina.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Obras em curso

Este blogue vai ter "cara lavada", mas mais que isso importa informar que vai voltar a ter actividade. Mais intensa, embora seguindo o seu rumo de sempre (regularmente incerto). Afinal, um diário de bordo em rede (weblog) de uma vida em Lisboa...

Muito Obrigado pelas visitas

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

O que se ouve na TV

Uma conhecida marca de fraldas faz alarde no seu último anúncio televisivo - nos canais portugueses, atenção - de que os seus produtos terão sido testados pela Sociedade Espanhola de Pediatria.
Espanhola?

Vamos lá a ver, não tenho qualquer fobia e considero que, se há povo parecido com o nosso, é o espanhol... logo a seguir aos romanos (ah, Roma...).
Mas aí está. Se são parecidos, não haverá por aí qualquer instituição "tuga" que possa dar o seu crédito à coisa?
Ou se é para dar mesmo crédito, à séria, não prefeririam a chancela de uma Sociedade Alemã de Pediatria, de uma "British Association" ou coisa do género? As ditas fralditas, em vez de de meros contentores dos descuidos natais, até passariam a ser algo que "dá saúde e faz crescer".

Bem sei que para certas marcas e certas empresas fazer publicidade em Portugal por estes dias passa por traduzir anúncios de "nuestros hermanos". Mas deixem lá estar as associações deles. Já bastam as calinadas nas traduções e senhores cuja boca não se vê falar o que se lhe ouve.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

A Guerra Colonial

Assisti ontem ao programa "Prós e Contras" da RTP, onde o tema principal era a Guerra Colonial portuguesa de 1961-74.
Como é habitual naquele programa, a bem das audiências, perde-se demasiado tempo com intervenções "bombásticas", normalmente muito pouco rigorosas e muito parciais. Velhos "ajustes de contas" entre partidários de ideologias obsoletas.

No entanto, também houve algo que valesse a pena (e que "pena" por vezes foi). Embora dificilmente se possa dizer que qualquer um dos intervenientes fosse o mais objectivo ou o mais politicamente neutral (em favor de um maior rigor histórico, quero dizer), confesso que fiquei agradavelmente surpreendido com os contributos do Coronel Matos Gomes. Surpreendido, obviamente, porque nunca li obra sua nem me recordo de alguma vez o ter ouvido.
Mas para um interessado pela História, como eu, foi de facto um prazer imenso ouvir quem tanto sabe sobre o assunto em questão, tanto como eu julgava não ser possível.
Foi, sem dúvida, o melhor do programa.

Debruçando-me agora sobre o assunto em debate, creio que muito terá ficado por dizer. Sobretudo para esclarecimento dos mais jovens (o mesmo é dizer, em termos de lições para o futuro). Infelizmente, como já referi, sobressaíram velhos ódios e rancores que as sucessivas gerações obstinadamente inculcam nas gerações seguintes, ansiando talvez por vinganças definitivas, desejando quebrar para sempre os ciclos da História pela força, como se tal fosse possível, muito menos desejável.

A minha opinião pessoal é fundada o mais possível nos factos históricos mas também temperada pelo enorme privilégio de conhecer ou ter conhecido - sendo familiar ou amigo - pessoas que viveram o período em causa de maneiras diferentes. Pessoas com convicções diferentes e sortes diversas, que muito estimo ou estimava (muitos já faleceram, infelizmente).
Que penso eu da Guerra Colonial? Ou, mais amplamente, da tentativa de estabelecimento de um império colonial - territorial, entenda-se - em meados do século passado? Simplesmente, foi um erro tremendo. Simplesmente, prejudicou milhões de pessoas e, mais importante para nós, portugueses, o futuro do nosso País durante décadas.

Dito aquilo, convém esclarecer alguns aspectos (que raiam as ideologias, mas vou tentar manter a distância). Ao considerar um erro, faço-o porque penso que, mesmo vivendo sob um regime fascista ou ditatorial (independentemente agora se era mau ou bom, brando ou radical), o nosso País poderia ter seguido outro rumo. Não por ser ou estar de um lado (neste caso, da "esquerda").
Não só isso como posso enumerar boas opções e excelentes obras que o regime de Salazar realizou, sobretudo nas primeiras décadas de existência. Com efeito, quando olho para as décadas de 30 e 40 do século passado, torna-se difícil compreender, por exemplo, como a Espanha conseguiu ganhar-nos tanto avanço (mais significativo nas últimas décadas, é certo - afinal de contas também estiveram na "cauda" da Europa). Enquanto no País vizinho travava-se uma guerra civil cruenta e devastadora, o governo português empenhou-se seriamente no desenvolvimento do País, nomeadamente com a construção de inúmeras infra-estruturas servindo fins diversos, de inquestionável utilidade social.

Tudo isso realça ainda mais o erro, porque foi sem dúvida uma inflexão clara e desastrosa. A partir de certo momento, abrandou ou cessou a construção de escolas, hospitais, estradas ou barragens, em território nacional - inquestionavelmente o nosso território "europeu" e as ilhas atlânticas por nós povoadas. Com flagrante impacto no Interior e na Madeira e Açores, o tempo voltou a parar, pura e simplesmente.
Que foi feito então aos que habitavam essas regiões? Os que puderam emigrar para outros países da Europa ou para a América, fizeram-no. Nos anos 50 teve lugar o maior êxodo da nossa História. Mais de 1 Milhão e meio de portugueses (e bem portugueses!) foram ajudar a enriquecer países terceiros com a sua tenacidade e afinco no trabalho. É justo dizer: que desperdício para Portugal! (e não fossem as remessas...).
Aos restantes, os que ficaram, foi então prometido um futuro de abundância em territórios longínquos, dispersos por este mundo, cujo conhecimento - o necessário e adequado para tal empresa - era ainda deveras deficiente.
Como se não bastasse, todos esses territórios eram habitados (nalguns casos, ao que parece, desde o início da Humanidade) por milhões de autóctones (é verdade, eram milhões), "naturalizados" portugueses não havia muito e, concerteza, com as suas expectativas e anseios relativamente aos seus novos governantes.
É verdade que a realidade era diversa, de território para território, mas sobretudo entre as faixas litorais (com contacto há muito mais tempo - séculos, nalguns casos) e o interior. No entanto, fazendo as contas à vastidão reconhecida e "conquistada" em meados do século passado, não deixava de ser uma realidade nova e perigosa, deixando-nos em verdadeira igualdade de "vantagens" (políticas ou culturais) com qualquer outro país europeu.

Os resultados de tal risco poderiam ser imprevisíveis. Mas o mais trágico é que nem imprevisíveis foram, precisamente porque países com uma capacidade económica e militar muitíssimo e inquestionavelmente superiores à nossa estavam, na mesma altura em que "colonizávamos" em força, a retirar. E a retirar, nalguns casos, após guerras sangrentas e exaustantes, ainda sem a intervenção tão activa que as potências da "Guerra Fria" vieram a ter na nossa guerra colonial - o que obviamente complicou o nosso "caso" e de que maneira.
Ora, mesmo sem apelar a conhecimentos de índole militar (que não os tenho), o que a História nos diz, hoje, é que tudo ou quase tudo se estaria a compôr para um desastre sem igual desde, talvez, Alcácer-Quibir.

[Claro que haverá quem, lembrando Alcácer-Quibir, afinal encontre nesta comparação a justificação de uma coisa boa (um grande acto de bravura ou coisa do género). Não peço para que me expliquem porque terá sido Alcácer-Quibir uma coisa acertada (????), mas ao menos porque não havia coisa mais acertada para fazer...]

Dito aquilo, não esgota porém tudo o que se pode e deve dizer sobre as acções militares ou, mais concretamente, sobre o patriotismo e a valia dos que responderam à chamada. Aliás, até digo, com a bravura demonstrada, dificilmente teríamos perdido a guerra em termos militares, tivesse ela continuado. Nisto concordo com quem não concordo em quase nada.
O problema é que o nosso patriotismo padeceu do que padeceu a Pátria, obviamente. De nação europeia com uma história grandiosa (que éramos e somos) quis-se o estabelecimento de um império à escala mundial, em distâncias tão longínquas, territórios tão diversos, sobre povos tão diversos...
Acaso não sabíamos, mesmo os que viveram (e nasceram) nas colónias, que a Pátria afinal era e é "aqui" e não "lá"?

Mas, se dificilmente teríamos perdido, é-me igualmente óbvio que, após 13 anos de guerra e salvo nalgum ou noutro local, dificilmente ganharíamos a guerra. Os factos da História encarregaram-se de demonstrar, infelizmente, que a guerra perdurou, sobretudo em Angola e Moçambique, durante quase mais 30 anos!
Não digo que, caso prosseguíssemos em guerra, levássemos esses 30 anos entre as balas e minas do MPLA, da UNITA, da RENAMO, da FRELIMO, etc. Mas sem dúvida teria morrido muito mais gente e, muito mais importante, a "saída" não deixava de ser uma: o fim da guerra por via diplomática.

Esse era o fim inevitável de um tremendo erro.
Quanto ao como acabou e tudo o mais, é outra história (outros erros, infelizmente).

Já aqui o referi, mais de 1 Milhão e meio de portugueses emigrados, mais meio milhão de portugueses que, aliciados pelas ilusões de uns, tiveram de deixar as suas vidas que construíram em África. Mais de 8 a 9 mil mortos entre militares do lado português e desconhecidos milhares entre civis (incluindo portugueses) e militares das outras facções em contenda (não sei a quem agradam mortes que se podem e devem evitar!). Milhares de ex-combatentes que foram arrancados das suas terras, sobretudo das regiões que já referi (onde os esperava a emigração ou a pobreza), que ainda hoje sofrem as consequências.
E não posso também de referir o aspecto económico, igualmente desastroso, como é fácil de concluir. E aqui relembro de novo a Espanha, que se desenvolveu sem "Ultramar", desenvolvendo a Catalunha, o País Basco, etc. E se o dinheiro de Cahora-Bassa, de escolas, hospitais, fábricas, igrejas, investido no "Ultramar", tivesse sido investido em Portugal - no verdadeiro Portugal?
Será que muitas pessoas fazem idéia do como eram certas regiões do País há 40 anos? (como eu vi, por exemplo, a Madeira de então!) Se ainda hoje algumas vivem com dificuldades, imaginem então...
[Quem queira entender, basta olhar para os números. Compare, a taxa de analfabetismo, a esperança média de vida, o número de escolas, de hospitais e postos de saúde, de universidades, de automóveis, televisões e frigoríficos por habitante, o PIB per capita, etc.]

terça-feira, 21 de agosto de 2007