domingo, 28 de maio de 2006

Feira do livro, festa do saber

Está a cidade ocupada por coloridas vacas, com "cidades" de música dentro de si (a do Rio, com "Rock", e a de uma conhecida marca cerveja), mas também temos mais do costume, ou antes diria... mais do bom costume. E é de facto um ritual indispensável a visita à Feira do Livro de Lisboa. Boa feira e boas leituras!

terça-feira, 2 de maio de 2006

Avenida de Ceuta

Mais uma tragédia, atropelamento e morte de uma criança de 8 anos. Colocam-se umas lombas, para além dos limitadores de velocidade que já existiam (mais uns sinais de controlo de velocidade que por si só, obviamente, nada controlam).
Das poucas vezes que lá costumo passar (1 vez ao mês) devo ter visto 2 ou 3 carros em respeito do limite de velocidade. Agora não deverá mudar muito, porque para a maioria o arranjo da suspensão na oficina não é nada comparado com a necessidade de acelerar e chegar 2 ou 3 minutos mais cedo ao destino.
Assim sendo, a moral da história é esta: o valor de uma vida humana anda mesmo por baixo.

Cuidem-se os peões! Quanto aos automobilistas, pensem bem. Pensem no crime. Façam contas aos míseros minutos que ganham arriscando acabar com uma vida.

quinta-feira, 27 de abril de 2006

Arrumações

Às visitas da casa informo que a coluna de ligações sofreu uma arrumaçãozita (não devendo ser a última).

Assim, se quiserdes passar a blogues e sítios não institucionais, todos relacionados com Lisboa, tendes um único ponto, com separação inferior entre blogues e sítios.
Abaixo desse tendes um novo ponto, com os espaços que não sendo sobre Lisboa (ou só sobre Lisboa), são-nos simpáticos e/ou tiveram a simpatia de nos recomendar, para além dos que são propriedade (intelectual, que seja) de amigos deste vosso anfitrião.

Quanto à ordem das ditas ligações, está feita à medida das ligações e visitas que nos chegam de cada espaço, como gentil retribuição.

Lá para o fundo da lista abrimos mui mundana secção, com ligações "desportivas". Também padeço dessa "doença" (e de uma maior dentro dessa, como poderão constatar). Mas que fiquem apenas como ligações, que não é intenção trazer para aqui discussões de futebol.

Posto isto, passem por favor aos "posts" abaixo, que são frescos, não deixando de solicitar as vossas contribuições no caso de acharem que estamos em falta para com algum espaço em matéria de ligações.

quarta-feira, 26 de abril de 2006

São Vicente, aqui e ali

Num recente passeio pela bela cidade espanhola de Valência deparei-me com algo intrigante. Constatei que São Vicente era o padroeiro da cidade, merecendo inúmeras referências (incluindo o nome de uma das ruas principais) e até que, como se anunciava, por lá estariam restos (se é que assim se pode falar) do seu corpo.
"Mas o que é isto", pensei eu, "então o pobre São Vicente não se encontra na Sé de Lisboa desde os tempos (e por ordem) de Afonso Henriques, depois da tal viagem desde Sagres, acompanhado pelos dois corvos?".

Na Catedral da cidade lá percebi um pouco melhor do que se tratava. Ali apresentam uma relíquia em particular, que afirmam ser um dos braços do Santo mártir. Não sei se será verdade ou não, até porque a questão das relíquias de São Vicente sempre foi controversa e cheia de elementos de lenda.

Estará assim um dos braços em Valência e o resto do corpo em Lisboa? E dado que em Paris, Le Mans e Saragoça, também reivindicam a posse de outras relíquias, afinal o que estará em Lisboa?

Não sei se valerá a pena saber o que é verdade ou não, até porque este macabro "retalhar" de relíquias não me parece nada dignificante.

Que fique no entanto para registo que São Vicente também é padroeiro de Valência...

quinta-feira, 20 de abril de 2006

Casino

Ora aí está o primo do velho Casino Lisboa de Macau, assente na cidade que lhe deu o nome.
Como cliente, nem é preciso dizer mais. Dificilmente lá entrarei.
Agora quanto à utilidade da coisa... uf!
Veja-se como um projecto como o da Expo, que podia resultar em tanta coisa engraçada, afinal...
Mas quem sou eu, se até a Ministra da Cultura lá foi benzer o sorvedouro de poupanças de miúdos (>18) e graúdos. O Sr. Ho, por sua vez, mostra que não perdeu o jeito de amealhar à pala do Estado português. Deve ser recorde!

terça-feira, 4 de abril de 2006

De novo

Acabaram-se as tais férias há muito, mas este blogue continuou em descanso. Aceitem as minhas desculpas e, logo abaixo, novo "post"!

Apontamentos sobre a História de Lisboa (II): A Fundação

Se bem se recordam, no post anterior desta série analisámos as informações que nos deixaram os romanos sobre a fundação de Lisboa. Estas permitiam concluir, em primeiro lugar, que Olissipo já existia aquando da sua chegada (facto este sem margem para dúvidas). Por outro lado, pondo em relevo as fragilidades da lenda que atribuía a fundação ao herói grego Ulisses, concluímos que muito dificilmente Lisboa teria sido fundada pelos gregos, mas também que os romanos (e gregos), afinal, não conheceriam a origem da cidade ou que, por alguma razão, não revelaram para a posteridade o que poderiam saber.

Posto isto, resta-nos seguir uma outra hipótese que veio a ganhar mais força em tempos recentes. Embora não seja naturalmente suportada por qualquer documentação da época ou próxima (ou referência epigráfica, que seja - tenha-se em atenção que tratava-se da "alvorada" do uso da escrita), baseia-se em importantes achados arqueológicos e por consequência em deduções que, não sendo assim comprovadas por completo, apresentam uma solidez "científica" bem mais interessante. Trata-se da hipótese da fundação de Lisboa pelos fenícios.
Por competirem directamente pelo domínio do Mediterrâneo, sabemos que romanos e gregos não tinham especial gosto em realçar os feitos de um povo de origem semita, para mais protegido - a determinada altura - pelos egípcios. Mas sabemos também que Lisboa existia e comunicava já desde há muito com povos do Mediterrâneo oriental ou, pelo menos, com intermediários fortemente ligados e influenciados pelos mesmos.

Ao longo de toda a costa portuguesa descobriram-se vestígios/artefactos de origem fenícia, oriental ou orientalizante. Por outro lado existem fortes indícios de que os fenícios terão navegado com alguma frequência bem para além do Estreito de Gibraltar, atingindo a costa atlântica de França, possivelmente as Ilhas Britâncias e até mesmo a Escandinávia. Aliás pode mesmo afirmar-se que em matéria de engenharia naval gregos e romanos pouco vieram acrescentar ao notável e revolucionário legado dos fenícios, só comparável ao que árabes e portugueses conseguiriam séculos mais tarde.

A juntar a tudo isto, sabemos também que os fenícios estabeleceram uma série de entrepostos e colónias em boa parte do Mediterrâneo, incluindo a Península Ibérica, sendo que a situação e topografia dos locais escolhidos seguia um padrão interessante para a nossa questão. Começando logo pela própria origem, podemos verificar que as "cidades-mãe" fenícias de Tiro e Sídon, por exemplo, situavam-se em saliências costeiras com boa protecção, não só face a ameaças marítimas, mas também face ao interior (no caso de Tiro, até foi durante muito tempo uma ilha).
Não muito diferente estava Cartago (do fenício Kart-Hadash, hoje em Tunis, na Tunísia), uma das primeiras e principais (senão a principal) colónias "ultramarinas" dos Fenícios, instalada numa península ladeada por uma grande e abrigada baía. Gadir (Cádiz), por sua vez, era a maior colónia "ibérica" e encontrava-se numa ilha de forma alongada e paralela à costa (também só posteriormente ligada ao continente, no seu extremo oriental).
Por aqui poderemos imaginar uma Lisboa fenícia, abrigada do mar junto a uma grande enseada (o estuário do Tejo), protegida do lado interior por colinas e serranias. Uma cidade que seria ponto de escala perfeito (e raro) na difícil costa atlântica, a caminho dos mares do Norte. Uma cidade na foz do maior rio da península, cuja navegabilidade ao tempo permitia - associada com o domínio do Guadiana e do Guadalquivir - fazer fluir trocas comerciais com quase todo o interior.
Chamaram-na, supõe-se agora, "Allis Ubbo", a tal "enseada amena".

No entanto, mesmo que o referido acima tenha muita lógica, outros dados "baralham" significativamente a questão. Se é certo que os fenícios e os seus produtos chegaram a Lisboa, não existem indícios que permitam afirmar que Lisboa tivesse sido fundada como cidade, colónia ou até como mero entreposto fenício. Pelo contrário, grande número de especialistas argumenta que no actual território português não terão existido quaisquer colónias fenícias, mas sim povoados ou cidades fortemente relacionados e/ou influenciados pelas colónias de Gadir e Cartago.

A expansão terriorial fenícia (como a Cartaginesa ou púnica) nunca terá tido grande expressão no nosso território. E mesmo a importância de Lisboa como ponto fundamental de uma intensa navegação atlântica poderá não passar de uma conjectura. Apesar de terem sido marinheiros exímios e criadores revolucionárias embarcações, a valia dos fenícios terá sido mais evidente no próprio Mediterrâneo. Com isto não se invalidam os relatos que apontam para uma pioneira e vasta exploração das costas atlânticas (de Europa e África). Poderão e deverão ser verdadeiros. No entanto poderão não ter passado disso mesmo, viagens de exploração, pontuais e sempre arriscadas. Os fenícios (bem como os romanos, gregos, por muitos séculos depois) nunca terão conseguido dominar suficientemente as águas do Atlântico por forma a estabelecer rotas marítimas regulares. Navegavam à vista da costa, o que, em caso de violentas tormentas (como são vulgares), impossibilitava progressos fáceis.

Por outro lado existem provas significativas de que o comércio de Gadir com os territórios do Atlântico Norte era feito sobretudo por via terrestre, com a intermediação de povos indígenas. Uma das rotas, que se manteve até ao tempo dos romanos, cruzava precisamente o Guadiana até chegar à costa norte de Espanha, onde por sua vez desembarcavam os produtos trazidos pelos povos da costa europeia do Atlântico Norte e das Ilhas Britânicas. O comércio com a Lisboa de então, que de facto existia, também seria em grande parte realizado por via terrestre, seguindo uma rota que entroncava dessa rota principal, atravessava o actual Alentejo e terminava na outra "banda" do Rio Tejo.

Apesar de preterida, também haveria a rota marítima, ao que parece, mas mesmo assim não suporta a hipótese de uma Lisboa fenícia. Invocando de novo os dados arqueológicos obtidos até à data, é bem mais provável que um assentamento fenício, a existir, fosse localizado... na península de Setúbal. O melhor "candidato" a essa condição até hoje descoberto (embora, repetimos, não infalivelmente comprovado) é o antigo povoamento de Abul, a norte de Alcácer do Sal. Situava-se em pleno estuário do Sado e estava protegido pela península de Tróia, bem ao "estilo" dos fenícios.
Outro local de referência, de estudo mais recente e ainda mais próximo de Lisboa, é a Quinta de Almaraz (em Almada). Tendo em conta as preferências dos fenícios, a sua situação parece-nos mais perfeita ainda. É até possível que já nessa época a zona adjacente de Cacilhas fosse local privilegiado para reparações navais, como se mantém ainda hoje. Dali também se dominava o estuário do Tejo, para além de ser mais fácil a ligação terrestre ao Sul da Península, à rota "alentejana" com Gadir (seria ali que terminava?).

Completando o panorama, alguns estudiosos afirmam que Lisboa era de facto um centro importante à época dos fenícios, mas seria habitada por outros povos, que embora habituados ao contacto com o "mundo" mediterrânico (com fortes ligações à pretensa feitoria instalada na outra margem), teriam uma origem não-mediterrânica.
Esta hipótese, até mais ver, parece-nos a mais credível.

Quem seriam? E desde quando?
É o que vamos tentar ver noutros artigos, mas dispomos de muito pouca informação.
Em bom rigor, talvez nunca saibamos exactamente quem e quando fundou Lisboa. Com inúmeros terremotos e variadas ocupações, talvez nem a própria arqueologia alguma vez nos possa providenciar uma chave ou elo perdido. Afinal de contas, a zona (incluindo sítios da cidade actual) foi ocupada desde a pré-história...

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2006

Pequenas Férias

O blog tem estado meio parado nas últimas semanas... como tal, uma semana de férias pouca diferença deveria fazer. Mas faz. Vamos "recarregar baterias" e depois volta à carga o De Lisboa!

Até já!

quinta-feira, 26 de janeiro de 2006

O Grande Terramoto... de 1531

Arrancou este blogue no dia em que se lembraram (e lembrámos nós também) os 250 anos volvidos sobre a ocorrência do grande terramoto de 1755. Pois bem, na data de hoje e embora muitos o não saibam (ou não sejam recordados, nomeadamente através da comunicação social) cumprem-se 475 anos sobre a ocorrência de um outro terramoto que destruíu Lisboa, o de 1531.

Acontece que esse sismo em pouco ou nada ficou a dever em termos de destruição e mortandade em relação ao de 1755, 224 anos depois (segundo algumas fontes até terá sido mais devastador ainda), sendo que entre uma e outra data se registaram outros sismos de importância considerável.
Porque é que são menos conhecidos os impactos de 1531? Desde logo, pela sua maior distância no tempo, não sendo de menosprezar também a maior facilidade com que a tragédia de 1755 foi difundida por esse mundo fora (considerando uma comunidade estrangeira em maior número ainda).
No entanto e curiosamente o género de impactos até nem foi muito diferente. Já em 1531 houve quem explicasse a tragédia como sendo um castigo "divino". E se podemos pensar que na altura - e ao contrário do sucedido num "enlightened" 1755 - tal tese passou aceite sem reservas, desenganem-se. Nem mais nem menos que o nosso Gil Vicente tomou a iniciativa de refutar (com a "razão", o seu talento e o beneplácito régio) o alarde de um grupo de frades de Santarém que acusava a presença dos judeus em Portugal como motivo da ira de Deus. Este facto não deixa de ser também curioso, uma vez que a expulsão dos judeus, logo transformada em conversão forçada, havia sido decretada 35 anos antes. Eram então perseguidos como "cristãos-novos", pelos vistos ainda em comunidades numerosas (assim foi a versão portuguesa da sua expulsão)...
Ora se em 1531 Deus castigava Lisboa pela impureza dos semitas, em 1755 condenava-se o deboche e liberalidades importadas de Itália ou França. Seria claro de ver, ainda antes de quaisquer avanços sensíveis em sismologia, que a explicação "divina" apenas alimentava mais desgraças para uns quantos infortunados.

Se a informação sobre os danos sofridos em 1531 não é tão completa como aquela que dispomos sobre o sismo de 1755, sabe-se no entanto que os impactos no interior (Ribatejo e Alentejo) foram mais significativos. Aliás o epicentro em 1531, segundo os estudos, terá sido entre Vila Franca de Xira e Azambuja, enquanto que em 1755 crê-se que estivesse localizado no oceano. Também é certo que os principais edifícios de Lisboa tiveram de ser parcialmente reconstruídos ou renovados. Não há notícia de maremoto ou de grandes incêndios em 1531, o que em parte pode explicar também um grau de destruição menos avassalador que em 1755. Como exemplo, o Hospital Real de Todos os Santos, já existente em 1531, só veio a desaparecer em 1755...

Para finalizar, em 1755 como seria lembrado o terramoto de 1531 (224 anos depois) e de que forma tal poderia contribuir (ou não) para uma melhor preparação? Já estaria suficientemente esquecido? E hoje, 250 anos depois do de 1755, estaremos avisados?

sexta-feira, 20 de janeiro de 2006

Causa (tristemente) perdida

No seguimento do post anterior, já só nos resta constatar - uma vez mais - que a voracidade das escavadoras em prol dos grandes desígnios imobliários é mais forte que a defesa do património.
Fica o exemplo de admirável luta - esta inglória - do Cidadania Lisboa, com a promessa e o desejo que as lutas vindouras não sejam para perder. Senão perdemos nós, perde Lisboa e o País.
Três hurras para os condomínios de luxo... de luto a memória por Garrett.

terça-feira, 10 de janeiro de 2006

Casa de Garrett: tarde (?)

À laia de advertência, saiba-se que este autor é bastante prudente no que possa dizer respeito aos limites e oportunidades de preservação "física" da memória (seja da vida grandes homens e mulheres da história). A minha "balança" pende quase sempre em favor da defesa do património, não está isso em causa, mas sim uma definição razoável do que pode ou não ser considerado "património". Já lá vamos.
Por outro lado e abordando já mais directamente o assunto em título, também não sou cego entusiasta de certa "defesa" do património que mais não faça do que adiar a sua degradação, preservando-o mas escondendo-o ou até mesmo desvirtuando-o e sacrificando-o à "cultura para os cultos" ou à "preservação de fachada". Por outras palavras, o ter "casas-museu" que não sejam nem uma coisa nem outra (sim, porque ainda se fôrem habitadas mas cuidadas, do mal o menos), não sei muito bem que benefícios (tangíveis ou não) trará aos cidadãos e à cidade. Esporádicos actos de remorso de consciência em vez da preservação e divulgação contínuas?

Apesar do que o acima escrito possa deixar entender, sou contra a demolição da casa onde viveu e faleceu Almeida Garrett. No entanto é bem possível que a fragilidade e considerável incipiência permanente de certas soluções comuns possam ter feito pender a "balança" da CML para o lado contrário. Vem-me à razão outro caso actual, o da Casa Fernando Pessoa. Não me vou alongar sobre o mesmo, mas para certos autarcas poderá ser um descanso que não se descrubram casas, cafés ou bancos de jardim (e afins) por onde tenham passado os ilustres, sob o risco de lá terem de dispender mais umas quantas verbas em nome apenas das paredes antigas (ou só mesmo fachadas).
Isto não conforma apenas uma simples denúncia da ganância pelo vil metal (que o condomínio de luxo, muito obviamente, satisfará de imediato) nem justifica ou desculpa a Câmara Municipal de Lisboa (pelo contrário). O que me intriga e perturba é a inexistência de vontade e capacidade para, após reabilitação, valorizar e divulgar o património cultural associado. Por outra, fazendo bem a coisa, haverá dúvidas entre o valor absoluto e duradouro do dito património e o valor do condomínio? Outra coisa que me faz confusão é que se permita que este tipo de património possa chegar - nas mãos dos seus proprietários - a um estado de degradação tal que não permita senão o seu fim. Não tenho dúvidas que o proprietário, tendo de escolher entre uma oferta da Câmara Municipal e uma dos promotores privados, dificilmente não se decidirá pela dos segundos. Isto se estiver apenas o "encaixe" financeiro em causa. Porque coisas como ordenamento urbano ou preservação da harmonia arquitectónica - mesmo já sem considerar a história subjacente - afinal, de que valem? Porquê valorizar uma rua/zona inteira com património cultural? Cultura, isso come-se?
São os tempos em que vivemos. Cinzentos! Mas há dinheiro para fazer estádios de futebol (e só de futebol - atente-se)...

segunda-feira, 2 de janeiro de 2006

Apontamentos sobre a História de Lisboa (I): A Fundação

Ao que pudémos apurar nas nossas pesquisas não existem ainda certezas sobre a fundação da cidade de Lisboa (quando e por quem). Aliás as dúvidas e erros sobre o assunto são quase tão antigos como ela, dificultando e mesmo desviando o caminho de muitos dos que têm investigado ao longo dos séculos.

As primeiras evidências documentais (de entre as que chegaram até aos nossos dias) foram obra dos romanos (nalguns casos apoiando-se em textos gregos). Embora tivessem fornecido a primeira explicação para a origem da cidade, não deixaram de nos legar dúvidas... mas também preciosas indicações, por muito óbvias que nos pareçam. Desde logo ficámos a saber que Lisboa não foi fundada pelos próprios romanos... e que já existiria há bastante tempo antes da sua chegada.
Ao analisar a teoria "romana" para a fundação poderemos ir mais longe ainda. Largamente difundida e aceite até tempos muito recentes, a versão dos romanos apontava o herói grego Ulisses como tendo sido o fundador de Lisboa. Com que razões? Em primeiro lugar poder-se-ão ter baseado no facto (já confirmado) de que Lisboa, aquando da chegada dos romanos, já era uma cidade com fortes e antigos laços com outros povos do Mediterrâneo. É bastante provável que os romanos encontrassem assim alguns traços helenizantes (ou que os entendessem como tal), para além da existência de rotas comerciais onde não faltariam (e não faltaram, como está provado também) produtos oriundos de colónias gregas.
Em segundo lugar e aos olhos dos romanos a criação de um "mito" fundador com raízes helénicas - ainda que não entendessem como tal - era também uma forma de integrar perfeitamente a cidade no "mundo" greco-romano, excluindo assim a intervenção de povos considerados hostis ou indignos face à superioridade da sua civilização. Ao fazê-lo, como veremos, os romanos afastavam deliberadamente a influência de povos "bárbaros" bem como os antigos e acérrimos rivais do mesmo "mundo": fenícios e cartagineses (de origem fenícia).
Esta segunda ordem de motivos, alheia à objectividade e ao rigor histórico, levanta desde logo sérias suspeitas. E os factos conhecidos ajudam a deitar por terra esta teoria "romana", por muito tempo que esta tenha sobrevivido... sobretudo por ter sido (e é) tremendamente apelativa aos historiadores e não-historiadores "românticos" que se sucederam. Seria de facto uma bela lenda, mas é de facto uma lenda. Senão vejamos:
Em momento algum nos é indicado claramente que Lisboa, à data da chegada dos romanos, seria ela própria uma colónia grega ou sequer contasse com uma presença significativa de cidadãos gregos. Nem por outro lado deixaram os próprios gregos evidências nesse sentido. Aliás esta fragilidade permitir-nos-ia concluir que, mesmo pondo Ulisses de parte, também não tenham sido os gregos a fundar Lisboa de todo. Os achados arqueológicos - não só em Lisboa mas em toda a Península Ibérica - parecem confirmá-lo: não terá existido nenhuma colónia grega, inteiramente como tal, no actual território português. É um facto que existiram efectivamente colónias gregas na Península Ibérica mas, contrariando certas generalizações, estas e os seus territórios ter-se-ão limitado à costa mediterrânica. E tal deveu-se, em grande parte e precisamente, à concorrência do "mundo" fenício...
Também é um facto que, antes dos romanos, os navegadores/comerciantes gregos terão explorado e viajado com alguma frequência pelas costas ocidentais, como atestaria o "périplo massaliota" principal fonte do poema "Orla Marítima" (do romano Avieno). No entanto nada dos indica que se tratassem de algo mais que contactos pontuais ou meramente comerciais com a zona de influência da colónia grega de Massalia (Marselha, em França). E uma vez mais tudo isto terá ocorrido num espaço de tempo não muito considerável, desde a efectiva decadência do poder de Cartago no Sul e Ocidente da Península até à chegada dos romanos.
Ainda que ao se comprovar que Lisboa não terá sido "grega" possam permanecer algumas dúvidas, a própria lenda encerra ainda outras grandes imprecisões. Diz a mesma que Ulisses e os seus bravos soldados, depois de vencida a guerra de Tróia, teriam iniciado uma errática viagem pelo Mediterrâneo, fazendo descobertas e cometendo novas façanhas. Entre elas deduziu-se a fundação de Olisipo, que deveria o seu nome ao herói (Ulisses/Olisis - Ulisseia/Olisipo). Ora, para começar, pouco ou quase nada do que foi relatado sobre as próprias Guerras de Tróia e eventos relacionados (incluindo a existência de Ulisses) foi até hoje comprovado histórica e arqueologicamente. Aliás a Odisseia encontra-se impregnada de elementos claramente mítológicos e não verdadeiros, tal como hoje é possível destacá-los nos próprios Lusíadas, por exemplo, uma vez que o próprio Camões tomou por influência de forma e estilo, precisamente, os épicos gregos (sabemos que não existe nenhuma ilha dos amores, certo?).
Para além disso, há um pormenor (ou não) curioso. É que "Ulisses" trata-se da posterior designação latina. Em grego e originalmente o verdadeiro nome do herói era "Odysseus". Assim sendo seria muito estranho que Odysseus ou os gregos que se seguiram baptizassem a cidade de acordo com o nome romano...
Por fim e mesmo atendendo à cronologia normalmente proposta para aqueles eventos (considerando que em parte tenham sido verdade), chega-se à conclusão de que Ulisses, caso tivesse chegado a Lisboa, provavelmente já não a teria de fundar (já existia...).

Refutada assim a versão romana para a fundação de Lisboa, ainda assim, ficam algumas certezas... pela negativa: os romanos não faziam idéia (ou não queriam fazer) de quem teria fundado Olisipo nem de qual a origem do próprio nome; Olisipo não era uma colónia grega; Olisipo já seria, ao tempo chegada dos romanos, uma cidade antiga e de importância considerável, tendo aqueles adoptado o nome pelo qual os próprios habitantes conheciam a sua cidade, transmitido ao longo de séculos (e assim conhecido por gerações sucessivas de navegadores de diferentes origens).

Sendo assim, antes de romanos e gregos, quem teria fundado Lisboa? Os "suspeitos" que se seguem são os povos que antes daqueles deixaram as suas marcas na Península: Fenícios e Cartagineses (de origem fenícia). Terão sido eles? Fica para próximo artigo... porém adiantamos que, em nossa opinião, Lisboa também não nasceu como "Allis Ubbo", cidade fenícia...

quinta-feira, 22 de dezembro de 2005

Feliz Natal!

Desejamos um Feliz Natal a todos os que visitam o blogue De Lisboa!

sexta-feira, 16 de dezembro de 2005

A origem de Lisboa

Dentro de alguns dias iremos iniciar uma série de apontamentos (por ordem cronológica) sobre a história de Lisboa. Naturalmente, o primeiro tema será a origem/fundação da cidade. Já temos algo preparado (e concluído), mas aproveitamos para lançar as seguintes questões aos leitores:

Quem fundou Lisboa?

- Ulisses
- Os Fenícios
- Os Gregos (depois de Ulisses)
- Os Lusitanos
- Os Romanos
- Algum outro povo

Quando foi fundada?

- Antes do Século XII a.C.
- No Século XII a.C.
- No Século IX a.C.
- No Século VIII a.C.
- No Século VII a.C.
- No Século I a.C.

Qual a origem do nome?

- Desconhecida, indígena
- Allis Ubbo, fenício
- Alis-ippo, fenício
- Ulisseia/Ulissipo, grego
- Olisipo, latim

segunda-feira, 5 de dezembro de 2005

Rossio Moscovita

Porque aqui no blogue De Lisboa prometi desde o início dar também atenção ao património, aqui fica a estreia.

Quem passar no Rossio por estes dias dificilmente poderá não reparar nuns escritos em "graffiti" que "adornam" a base de pelo menos uma das fontes da praça (a que se encontra defronte do Teatro Nacional D. Maria II). O que lá está escrito denuncia a origem do autor, uma vez que está em russo (alfabeto cirílico). Não, não se trata de qualquer sinal de ocupação dos russófonos. Pelo menos permanente. Tratam-se sim de frases de apoio ao clube de futebol CSKA de Moscovo. O que não é menos brilhante. Já se passou mais de meio ano sobre a estadia daquele clube e dos seus adeptos na nossa cidade (para a final da Taça UEFA no Estádio Alvalade XXI - frente ao Sporting Clube de Portugal) e ainda ninguém se encarregou de fazer a respectiva limpeza.

Se já estão no sítio os enfeites de Natal, com o D. Pedro IV "engaiolado" (pode ser que de noite fique bonito, mas de dia...), porque não tratar dos enfeites/efeitos indesejados da presença moscovita?

sexta-feira, 2 de dezembro de 2005

Restauração da Independência - II

No seguimento do post anterior, aqui fica uma breve nota sobre o monumento existente em Lisboa, erigido pela mesma Comissão Central do 1ª de Dezembro de 1640 através de subscrição pública (em Portugal e no Brasil):


A meu ver, um dos mais bonitos e harmoniosos monumentos da cidade.
Na base do obelisco estão duas figuras alegóricas, uma representando a Vitória e outra a Liberdade. No cimo encontram-se inscritos os nomes das vitórias consideradas decisivas: Linhas de Elvas, Ameixial, Castelo Rodrigo e Montes Claros. Por debaixo, um parque de estacionamento, mas é velhinho e ele próprio já com alguma história...

quarta-feira, 30 de novembro de 2005

Restauração da Independência

Celebra-se amanhã mais um aniversário da Restauração da Independência (1640). A cidade de Lisboa, como capital do País, teve naturalmente um papel fundamental, não só como palco da revolta em si mas também em anos (séculos) posteriores, sempre que foi necessário reafirmar e celebrar a Independência de Portugal. Aqui fica uma súmula dos acontecimentos relevantes:

25 de Agosto de 1580 - Tomada de Lisboa pelo exército castelhano, liderado pelo Duque de Alba, após derrotar o exército português liderado por D. António (prior do Crato e aclamado Rei de Portugal em Junho) na Batalha de Alcântara. Forçado ao exílio, D. António tentaria posteriormente o regresso e reconquista do trono de Portugal com o auxílio de ingleses e franceses, sem sucesso. Viria a falecer em Paris a 25 de Agosto de 1595. Depois da morte de D. Sebastião em Alcácer-Quibir (1578) e do seu tio D. Henrique (1580), chegava ao fim a dinastia de Avis, quase 200 anos depois de Aljubarrota. Felipe II de Espanha tornava-se Filipe I de Portugal, mantendo-se assim no plano formal a separação dos reinos.

1 de Dezembro de 1640 - Após 60 anos em que a verdadeira independência e os interesses dos portugueses foram sendo cada vez mais postos em causa, levantou-se um movimento de conjurados (desde 1638-39) com vista à deposição do poder filipino e coroação de um novo Rei de Portugal. D. João, Duque de Bragança, afigurava-se como o mais provável e legítimo candidato, pelo que os conjurados cedo tentaram conseguir que assim se assumisse e desse o seu apoio a uma revolta. O Duque de Bragança, porém, sujeito a um rigoroso controlo por parte da coroa espanhola, hesitava num mar de dúvidas no seu Paço de Vila Viçosa. Ainda assim desobedeceu e furtou-se hábil e discretamente a várias ordens do Governo de Madrid que procuravam afastá-lo de Portugal, sendo mais significativa a sua recusa em reunir tropas para ajudar a pôr fim à revolta da Catalunha. Perante tais condicionantes, não desamimaram nem desarmaram os conjurados, que prosseguiram os seus intentos sempre dando conta dos mesmos ao Duque, sempre que possível. Após algumas reuniões em Outubro nas quais se preparava já a revolta, foi finalmente durante o dia 30 de Novembro e madrugada fora do dia 1 de Dezembro de 1640 que os conspiradores, oriundos de várias classes e possuidores de variados estatutos, se reuniram no Palácio dos Condes de Almada (ao Rossio) para dar início ao plano. Na manhã desse Sábado (dia 1) dirigiram-se ao Paço da Ribeira (Terreiro do Paço), dissimulados e em número aproximado de 40 elementos (!). Dividindo-se em grupos venceram pela surpresa as guarnições ali existentes. Um dos grupos encontrou finalmente Miguel de Vasconcellos, o odiado Secretário de Estado que governava efectivamente o país à vontade e submissão da coroa espanhola, que desde então e para sempre teve o seu nome eleito como símbolo de traição ao país. Foi morto e defenestrado, para contentamento não só dos conjurados mas ao que parece da própria Vice-Rainha, Margarida de Sabóia (Duquesa de Mântua), que apesar do seu estatuto pouco ou nada governava (em detrimento de Miguel de Vasconcellos). Porém e para concluir com sucesso a revolta foi também presa a Duquesa bem como a quase totalidade da fidalguia espanhola instalada em Lisboa, que por sorte estava presente no Paço (facilitando assim a tarefa dos conspiradores). Restavam as guarnições do Castelo de São Jorge e das fortificações da barra do Tejo, enquanto o povo, jubilante, aderia plenamente à revolta e se encarregava do resto, tomando o Senado de Lisboa e para si a bandeira da cidade. Não resistiram muito as ditas guarnições, sendo todas as fortificações tomadas pelos conspiradores e pelo povo sem grandes dificuldades.
Com 40 homens e, ao que se sabe, apenas 3 mortes (do lado pró-espanhol), se libertou assim o país do jugo da poderosa Espanha.
As notícias depressa chegaram a Vila Viçosa, onde se encontrava o Rei aclamado, bem como ao resto do país, onde foram recebidas com tal júbilo e apoio que mais parecia que o domínio filipino havia durado um só dia. Reconquistou-se Portugal, estava reconquistada a independência.

6 de Dezembro de 1640 - O novo rei D. João IV entrou finalmente em Lisboa, em perfeita apoteose. Daí em diante tratou de recuperar o Império até então gravemente em desleixo. As possessões na Ásia, salvo raras excepções, já haviam sido irremediavelmente perdidas em massa para ingleses, franceses e holandeses (todos inimigos dos espanhóis). Em África idem, embora o caso mais grave fosse a perda de Ceuta, arduamente conquistada 225 anos antes sob as ordens de D. João I, Mestre de Avis vitorioso de Aljubarrota. Já plenamente controlada e dominada pelos espanhóis, a cidade optou pela fidelidade ao país vizinho, embora mantendo no seu escudo e até hoje as armas de Portugal. En contrapartida, o fiel Brasil, cada vez mais "jóia da coroa", assim se manteve, mas como jóia da coroa portuguesa.

24 de Maio de 1861 - Foi fundada a Comissão Central do 1º de Dezembro de 1640, que mais tarde viria a dar origem à Sociedade Histórica da Independência de Portugal. Desde a Restauração de 1640 tinham-se sucedido outros episódios que haviam feito perigar a independência do país.
Logo nas três décadas seguintes a Espanha, inconformada, prosseguiu uma guerra contra a coroa portuguesa, só se dando por vencida 28 anos depois de 1640.
Mais tarde, em 1807, dão-se as invasões francesas. Deposta a monarquia espanhola em favor de Napoleão, França e Espanha planeiam a captura e derrota de Portugal e a subsequente partilha do território português e suas colónias. D. João VI, Rei de Portugal, opta por embarcar rumo ao Brasil, procurando assim salvaguardar, para além da sua vida e a dinastia, a maior colónia do Império. Em 1814, derrotada a França, Portugal poderia receber de novo o seu rei. Este, no entanto, demora ainda, enquanto no Brasil o movimento para a respectiva independência ganha cada vez mais força.
Sucedem-se a independência efectiva do Brasil e a cruenta Guerra Civil em Portugal, opondo liberais e absolutistas.
Em 1861 vive-se a paz, mas o que resta do país e do seu império já nada tem a ver com as glórias passadas. São tempos conturbados e de agitação latente. No meio da proliferação de idéias e movimentos "político-intelectuais", surge uma corrente chamada "iberista", que evoca com saudade a época filipina e advoga uma nova união das coroas como melhor caminho para Portugal. É então que se juntam de novo pessoas de diferentes condições (e até convicções políticas), que unidos sob um fervor patriótico e nacionalista resolvem fundar a Comissão Central do 1º de Dezembro de 1640. De novo Lisboa é o palco, sendo a sede o mesmo Palácio dos Condes de Almada, futuro Palácio da Independência (até hoje). Os comissários de então apelam ao povo para que demonstrasse o seu patriotismo e repúdio pelo "iberismo", ali mesmo, junto ao Palácio onde tudo havia começado 221 anos antes. É posteriormente elaborado um manifesto para ser distribuido pelo país inteiro, visando grandiosa e adequada celebração da Restauração. Na redacção desse manifesto tomaram parte "o historiador Alexandre Herculano, o orador José Estevão Coelho de Magalhães, e os escritores Dr. Gomes de Abreu, lente da Universidade de Coimbra, e António da Silva Túlio" (site da SHIP). Aqui reproduzimos aquela fervorosa e admirável exortação:

"A commissão eleita pelos cidadãos lisbonenses que se reuniram no histórico palacio dos Condes de Almada, para prescrever o modo por que na capital se há de dar maior solemnidade ao anniversário da revolução de 1640, que restituiu a Portugal os fóros de nação independente, de que fôra esbulhada por Filippe II de Castella em 1580, julgou conveniente, antes de tomar qualquer arbítrio, expor aos seus eleitores e a todo o reino a interpretação que dá mandato com que foi honrada derivando essa interpretação não só dos termos em que elle é concebido, mas também do pensamento que attribue ao povo portuguez, na commemoração solemne que, tanto em Lisboa como n’outras terras do reino, deliberou fazer no dia 1.º de Dezembro próximo.
O povo portuguez, seguro da sua existencia nacional, e conscio dos imprescríptiveis direitos em que ella assenta, sem ter esquecido as heroicas acções com que seus antepassados conquistaram e mantiveram a independência da patria, havia quasi apagado, pelo, pelo seu caracter humano e pacifico, a recordação publica de cruentas pelejas, que foram mais um desengano, entre tantos que a historia accumula, de que a força e a ambição, por si sós, não lograram no mundo triumphos duradouros.
Depois que a Hespanha perdeu Portugal, por essa lei immutavel que em differentes periodos, mas com o mesmo rigor, tem posto por terra todos os senhorios creados sómente pela violencia, os dois povos da peninsula, constituidos em nacionalidades separadas, tem corrido a mesma sorte, tanto nas contendas internas como na grande lucta européa, em que batalharam pelo mesmo principio, alcançando dos seus triumphos, não a sujeição de um ao outro, mas a independencia de ambos.
A França, com inteira abnegação, depoz no archivo das suas glorias militares o mappa das conquistas que fizera; e, convencida de que a sorte das armas fôra a sentença da rasão e da justiça, nem hoje, que tão crescida está em poder e tão voltada às suas recordações guerreiras, se julga com direito aos dominios que perdeu, nem tão pouco se mostra propensa a empregar os seus exercitos para os reconquistar á face da Europa.
A Hespanha, seguindo este exemplo, não se humilha; antes fôra mais para lhe estranhar a ella o intento de avassallar Portugal, do que á França o designio de retomar os estados que out'ora formaram o seu ephemero e revolto imperio.

A dominação estrangeira gera sempre rancores que se transmittem de geração a geração, e que só o decurso do tempo póde apagar; sobretudo quando esse dominio pesou duramente sobre uma nação altiva e generosa.
Ha quasi tres seculos que nossos avós caíram na servidão estranha. A Providencia punia talvez com esse castigo uma epocha de lastimosa decadencia moral. Sessenta annos de oppressão reanimaram pela dôr de crueis padecimentos, as virtudes publicas esmorecidas, e os brios heroicos de um povo de soldados. A gente portugueza quebrou então o jugo, e combateu. Deus abençoou os seus esforços. Suppunham que Portugal se ia dissolvendo no tumulo; e elle, como Lazaro, ergueu-se á voz do Senhor!
A lucta foi longa, e ainda hoje. n'esta terra da pátria, que é santa para nós, como esperamos que a seja para nossos netos, ha vestigios do que nos custou a independencia e a liberdade.
A geração que combateu, a geração que lavou com sangue o seu testamento politico nos campos de batalha ou nos muros rotos das povoações incendiadas, legou aos filhos uma herança de odio vingativo. Aquelles tempos não eram como estes nossos: e que o fossem se essa ruim paixão póde ter desculpa, é quando se enraiza no coração do que é ou do que foi servo contra os seus oppressores.
Os annos volveram, a civilisação caminhou; a razão publica esc1areceu-se: e d'esses rancores antigos não restava, entre o nosso povo, senão uma desconfiança que tinha a sua plena jnstificação na historia. 0 que fôra odio implacavel, e depois repugnancia tenaz, começou a converter-se, entre as classes mais cultas, n'uma sympathia propria de bons visinhos, e digna de povos civilisados e christãos.
Infelizmente houve quem tomasse esta transformação, que não é mais que indicio de progresso e de brandura nos costumes, como symptoma de indifferença pela propria nacionalidade. Houve quem pensasse, que seguindo o exemplo do nosso velho alliado dos tempos heroicos, o guerreiro Aragão, cujo elmo de bronze, dourado pelo sol de cem batalhas, jaz caido ao lado do leão de Castella, não nos repugnaria ver enxerir as quinas a um canto do escudo hespanhol! Era um d'aquelles equivocos que fazem sorrir mudamente; mas n'este caso, a mudez interpretou-se como indifferença, talvez como approvação.
Parte da imprensa periodica de Madrid suppoz que havia em Portugal quem estivesse enfadado de ser portuguez, e insinuou que, se nos unissemos á Hespanha, podiamos realisar altas phantasias de poder e engrandecimento, de que uma nação não precisa para ser feliz, nem aproveitar mais à civilisação commum para a qual todos os estados, pequenos e grandes, podem concorrer.
Porque deixámos passar sem constestação esses devaneios, pouco faltou para que tudo quanto constitue o nervo de uma nação, que os representantes de todas as actividades d'esta terra, os representantes da imprensa, da tribuna, da propriedade, do capital, do commercio, da milicia, do sacerdocio e da magistratura, fossem declarados ibericos! Pintavam um verdadeiro 1580.
Estas dissertações da imprensa interessada, e por isso incompetente, passaram as raias da peninsula, e acharam echo n'outra imprensa alem dos Pyrenéos, que tem a seu favor a presumpção de imparcialidade. Não affirmamos que o facto fosse fortuito e gratuito; o que sabemos só é que a poesia tornou-se doutrina, a utopia systema, e que depois d'isto não é permitido silencio.
Precisavamos, portanto, expor claramente a opinião unanime do povo portuguez, e assegurar aos homens e aos governos que se interessam no melhor regimento da familia européa, que é animo e deliberação nossa defender a integridade do territorio que possuimos, não acceitando aggregações incongruentes com o caracter e tradições nacionais, e que nos empenhamos, quanto cabe em nossas faculdades e no-lo permittem os obstaculos da governação que todos os povos tem encontrado nos aperfeiçoamentos sociaes, por sermos dignos de fazer parceria com as nações civilisadas, tanto pelos nossos feitos passados como pela nossa vida contemporanea.
Nenhuma rasão politica, moral ou economica, em beneficio commum da Europa, exige que Hespanha e Portugal formem um só estado; e o direito publico europeu, reconhecendo n'estes ultimos tempos, para todas as annexações e transacções politicas, como condição indispensavel, a vontade manifesta dos povos, não permitte que se constranja uma nação, por mais pequena que seja, a abdicar o seu nome, o seu passado, a sua autonomia.

Portugal, avivando e celebrando com mais solemnidade o anniversario da reconquista da sua Independencia em 1640, nem pretende ferir o pundonor da briosa nação hespanhola, nossa amiga e alliada, nem resuscitar os odios que outr'ora inimisaram os dois povos convisinhos.
Não quer repta-la. Não leva a mão á espada. Unicamente aponta para o seu direito, e diz á Europa que está decidido a defendel-o.
Nenhum outro motivo inspirou aos portuguezes a idéa de manifestar o seu patriotismo, determinando sem insinuação nem concerto prévio, na capital, nas provincias, em cidades e aldeias, repor na memoria nacional, com a devida solemnidade, o anniversario da Restauração da nossa Independencia em 1640.
O modo mais adequado de celebrar este anniversario, pareceu-nos ser aquelle mesmo que estabeleceram os nossos libertadores, com o addicionamento que a nossa gratidão lhes deve.
Na circular que junta com este manifesto, dirigimos ás commissões já instituidas, e ás que se houverem de crear, vão indicados os alvitres que adoptamos.
O sentimento publico, assim como se moveu, de por si, a esta manifestação, ha de realisa-la com sisudeza, sem ostentações vãs, e com a circumspecção que demanda tal solemnidade.

Lisboa, 25 de Agosto de 1861."

Brilhante texto, de uma actualidade impressionante!
Na sequência deste e de outros apelos daquela que se viria a tornar na Sociedade Histórica da Independência de Portugal, consagrou-se então a celebração do 1º de Dezembro, feriado nacional.

28 de Abril de 1886 - Foram inaugurados em Lisboa (Av. da Liberdade) o monumento e praça dos Restauradores. O monumento, cujo primeira pedra havia sido lançada em 1875.

Celebre-se então a nossa independência! Aqui fica a ligação para a Sociedade Histórica da Independência de Portugal, onde poderão ser consultadas as iniciativas e os festejos previstos para a nossa cidade.

segunda-feira, 21 de novembro de 2005

Vox Populi

Rossio e Terreiro do Paço, obstinada e comodamente lhes chamam o povo de Lisboa. O primeiro é nome seguramente mais antigo enquanto a sua designação "oficial" (Praça D. Pedro IV) é relativamente mais recente (a partir de 1836). Quanto ao Terreiro do Paço, assim ficou a ser conhecido pela importância do Palácio Real (Paço) que D. Manuel ali decidiu instalar em 1511. Com o terramoto de 1755 e a reconstrução pombalina mudou-se o Paço para outras paragens (Ajuda) e surgiu a Praça do Comércio... mas não desapareceu da voz do povo a denominação antiga.

Por curiosidade, não se pense então que Lisboa afinal não tem um Rossio. Tem (mais) três! A saber: o Rossio de Palma (ali para os lados da Palma de Baixo) e os novíssimos Rossio dos Olivais (em pleno Parque das Nações, junto ao Pavilhão Atlântico) e Rossio do Levante (também na "nova" zona oriental - Moscavide).

Mas se a voz do povo é teimosa, outros casos existem em que terão vingado os novos baptismos. Trago-vos um exemplo relativamente recente e abrangente: a Palhavã. A maior parte de nós ainda saberá perfeitamente onde fica a zona da Palhavã, mas quando alguém nos pergunta... é Praça de Espanha. Ironicamente este nome deve-se à presença da Embaixada de Espanha... instalada no antigo Palácio da Palhavã (e em bom rigor este ainda se deveria chamar assim). Contudo o golpe final deverá ter sido desferido pelo Metropolitano de Lisboa, que só muito recentemente rebaptizou a respectiva estação, de Palhavã para Praça de Espanha. Não deixou de ser a voz do povo, é certo... mas o povo mudou de idéias. Onde pára a Palhavã (e a antiga estrada da Palhavã)?

Mais recente ainda - e para finalizar, outro caso de "resistência". Se calhar todos sabem onde é a Praça do Aeroporto, mas para mim continuará a ser a Rotunda do Relógio, mesmo que o dito relógio de ponteiros tenha entretanto desaparecido!

Terreiro do Paço sem terreiro e sem paço, Palhavã sem palha, Rotunda do Relógio sem o velho relógio... e esta, hein? É a voz dos tempos!

segunda-feira, 14 de novembro de 2005

Borratém... e a figueira

Depois do "post" sobre Maximiliano no Rossio e do subsequente "desafio" de Paulo Ferrero (do recomendadíssimo Cidadania Lx) passei à Rua da Betesga (ver abaixo).
Hoje e para não ir muito mais longe detenho-me na vizinha Rua do Poço do Borratém, que da Praça da Figueira e bordejando a encosta parte em busca do actual Martim Moniz.

A actual Rua do Poço do Borratém, ao que consegui apurar e um pouco em contrário do resto da Baixa, não difere muito em percurso (talvez mesmo nada) da rua ali existente antes do Terramoto de 1755. Aliás olhando para o mapa da zona parece que esta e a Rua da Madalena fazem de fronteira entre a baixa de "régua e esquadro" (a pombalina, a ocidente) e a encosta de ruas sinuosas e casario diverso.
Se é arriscado para mim avançar com a época exacta em que se fez a rua (fora da "cerca moura", salvo erro), parece-me mais seguro, depois de alguma investigação (embora algo superficial), avançar sobre qual a origem do seu nome.

Quanto ao poço, claro, não haverá que dar mais voltas. Existiu e, ao que sei, existe ainda o Poço do Borratém, embora hoje "escondido" dentro de um edíficio de origem "pombalina" (onde hoje é um hotel, no nº4). Uma das mais conhecidas referências ao poço (e das mais antigas, penso) encontra-se no Pranto de Maria Parda, de Gil Vicente. Ali a pobre Maria lamenta-se da escassez de vinho na cidade (que efectivamente terá ocorrido em ano vinícola bastante mau - 1522), andando a pedinchar, pranteando, por uma taça do dito. E numa das tentativas recebe a resposta "Muyta agoa há em Boratém", lembrando que a água lhe mataria bem a viciada sede. Ficando assim a saber que já em 1522 era afamado o poço, sigo agora com algumas pistas sobre a origem do termo "Borratém".

Sem grande surpresa (até pela sua fonética) encontrei elementos que apontam para a sua origem árabe... ou hebraica. Parece-me de esquecer alguma outra ingénua e fácil tentação, como tantas que há por aí, de fazer associar a palavra a "borra-tem".
"Bir" significa poço em árabe, enquanto em hebraico se diz "bor" (mesmo em árabe a pronúncia assemelha-se a esta). Quanto ao resto... "at-tin" significa figueira em árabe. Pelo que "bir-at-tin" significa "poço da figueira". Por sua vez em hebraico (e em virtude da origem comum), poderíamos ter "bor-a-te'enah" ("poço da figueira") ou até mesmo "bor-a-te'enim" ("poço das figueiras").
E aqui, inesperadamente para mim, passo a envolver a história outro local emblemático, a Praça da Figueira. Nas explicações que conheço para justificar o nome da praça é referida, obviamente, uma figueira. Com todos estes elementos é difícil duvidar que na zona existiria pelo menos uma! No entanto refere-se com frequência que a árvore não estaria bem ali mas sim perto do antigo Paço dos Estaus (lado norte do Rossio), onde supostamente seria a última visão para os condenados da Inquisição que pouco depois conheciam o seu destino fatal. Teria vindo daí o nome da praça, contruída depois de 1755. A hipótese que emerge, quanto a mim, é a de que ainda antes dessa época e - sobretudo - antes da construção do Hospital Real de Todos os Santos (1501) poderá já ter existido uma praça da figueira... junto ao "poço da figueira". Em comum, a figueira, embora o nome do poço se quedasse com a versão árabe ou judaica.

Poderá então ter surgido uma praça e o poço da figueira ainda aquando da ocupação árabe? Ali, no meio do casario que se já aninhava contra o exterior das muralhas, não muito longe da Porta da Alfofa? Salvo melhor opinião (e é uma opinião, note-se), creio que não. Até à reconquista cristã corria ainda a céu aberto a ribeira, pelo que não vejo muito sentido nisso. Pelo contrário, creio que tal deverá ter sido após o subsequente estabelecimento da Mouraria (e de uma judiaria também, ao que parece).

De qualquer forma, ali havia uma figueira (uma, pelo menos!)...

sexta-feira, 11 de novembro de 2005

Meter o Rossio na Betesga

Recebi o prazenteiro desafio de aqui trazer a célebre expressão "meter o Rossio na Betesga". À partida não tenho qualquer conhecimento privilegiado senão o da utilização corrente - embora cada vez menos - da própria expressão (por vezes hoje utilizada numa forma que creio já ser adaptada: "meter o Rossio na Rua da Betesga"), o saber onde ficam o Rossio e a Rua da Betesga e qual o seu significado.

Independentemente da origem precisa e correcta, o significado da expressão ainda hoje se pode comprovar in loco, com maior ou menor evidência do que em tempos idos. Querer meter o Rossio, grande praça lisboeta (durante muito tempo a maior da cidade), na rua que hoje liga esta mesma praça à Praça da Figueira, é algo difícil ou impossível (e/ou desproporcionado). É como querer passar um camelo pelo buraco de uma agulha, para citar a Bíblia.

A questão seguinte é: porquê a Rua da Betesga? Não sei ao certo porquê, como tal toda a ajuda dos leitores será bem-vinda. No entanto posso adiantar algumas hipóteses, sendo que uma delas, salvo melhor opinião, parece-me a mais plausível.
Antes de enunciar cada uma convém esclarecer qual é o significado de "betesga". Consultando um dicionário ficamos a saber que é sinónimo de "rua estreita", "beco sem saída" ou "viela". Desde logo salta à vista o facto de a "Rua da Betesga" poder ser uma redundância (como "Rua da rua estreita") ou então fazer referência a uma outra rua. Como veremos, esta última possibilidade é a que me parece mais apropriada, até porque por esse país fora (e também no Brasil) existem muitas "betesgas" e, ao que saiba, mais nenhuma "Rua da Betesga".

A primeira hipótese, a mais óbvia e simples, associaria o ditado à actual Rua da Betesga. Para assim ser, "Rua da Betesga" seria uma designação redundante e a dita rua teria de ser efectivamente considerada como estreita ou sem saída. Ora, desde que foi aberta, na sequência do terramoto de 1755, a rua em causa nunca foi especialmente estreita e muito menos sem saída. É certo que sofreu alguns alargamentos e que após a demolição do Mercado da Praça da Figueira (ou a praça propriamente dita, em 1949) se reabriu a desafogada praça actual. Mas sinceramente, creio que não basta. Quando muito admitiria a possibilidade de se referir à Rua da Betesga porque a mesma faz a comunicação entre o Rossio e a Praça da Figueira e a passagem de um lado para outro, em dias de multidão, ser facilmente congestionável.

A segunda hipótese, sequência natural da primeira, faria assentar a razão do ditado naquela que foi a rua antecessora da Rua da Betesga. Como esta, partia do Rossio, mas ladeava o Hospital Real de Todos os Santos, que já não existe (foi destruído pelo terramoto de 1755 e sobre parte das suas ruínas se abriu a Praça da Figueira). É possível verificar qual o traçado dessa antiga rua recorrendo a alguns mapas antigos e até mesmo a mapas actuais que nos mostram a sobreposição dos arruamentos, antes e depois do terramoto. É o caso da figura que apresento em seguida, abusivamente retirada do Pequeno blogue do Grande Terramoto, cuja visita recomendo vivamente.
Como se pode ver, a actual Rua da Betesga não coincide exactamente com a rua anterior e esta não se chamava formalmente “Rua da Betesga” (não vos consigo apontar qual era o seu nome exacto pois está pouco legível num dos mapas que consultei – mas não era esse). No entanto e compreensivelmente uma ficou herdeira da outra. Seria então aquela a rua demasiado estreita para lá querer meter o Rossio? Pelos mapas que consultei a rua era muito provavelmente mais estreita que a actual, no entanto não me parece que fosse especialmente estreita, sobretudo tendo em conta os padrões da época (e já desde o tempo da ocupação árabe). Porém encontramos um pouco mais de lógica para a designação “Rua da Betesga”, se considerarmos que betesga era a antiga rua e que a actual a lhe faz referência. Não fosse existir mais um dado importante, esta hipótese teria o meu “voto”.

Chegamos então à terceira hipótese, para cuja sustentação vale a pena observar de novo a figura com as antigas ruas. Se repararem, no meio da antiga rua havia de facto uma ruela sem saída. Uma betesga, pois. Estou assim em crer que foi o povo de Lisboa que terá baptizado informalmente a antiga rua como “rua da bestega” devido à já identificada betesga que ficava no meio da dita. A nova rua, pós-1755, terá então recebido a designação da antiga que entretanto já era comum. Quanto à expressão, poderá ter surgido assim já antes de 1755 (quiçá até por volta de 1500, quando se acabava a contrução do Hospital Real, ou até antes?), quando a betesga lá estava e de tal forma era evidente o disparate de lá querer meter o Rossio.
Entretanto a betesga desapareceu, surgiu uma Rua da Betesga sem betesga, mas a memória do povo encarregou-se de manter a associação. Ainda que anos depois gerações “orfãs” da betesga tenham por vezes adaptado a expressão para “o Rossio na Rua da Betesga”, menos correcta e fiel ao original, mas que na prática… vai dar ao mesmo. Não tentem meter o Rossio na actual Rua da Betesga!